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Voltar a crescer exigirá imaginação e esforço fiscal, diz Joaquim Levy

O ministro da Fazenda reitera o fim da política anticíclica no Brasil, num momento em que outros países estão fazendo ajustes em seus modelos econômicos para se adaptar a novos tempos

Joaquim Levy durante palestra em São Paulo.
Joaquim Levy durante palestra em São Paulo. REUTERS

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, começou a sua segunda-feira com uma dinâmica que tem se repetido nas últimas semanas: encontro com empresários para detalhar os planos econômicos do Governo Dilma para retomar o brilho da combalida economia.  Em evento organizado pela Câmara de Comércio França Brasil, em um hotel de luxo em São Paulo, Levy não dourou pílula ao lembrar que dias melhores virão, mas apenas em 2016. Por ora, o contexto brasileiro exige um ingrediente subjetivo. Diante da expectativa de um crescimento negativo neste ano, a palavra “imaginação” foi evocada ao menos três vezes por Levy, como parte do antídoto para atravessar o deserto de 2015. “Voltar a crescer de maneira saudável exige certa imaginação e esforço de todo mundo. Mas nada dramático”, avisou o ministro.

Levy procurou detalhar a necessidade de uma “reengenharia” para ajustar o que foi a política anticíclica do primeiro mandato, focada na concessão de benefícios para a manutenção de empregos, para um momento mais realista e austero neste segundo mandato. “Tivemos uma política expansionista que levou a um aumento da relação dívida bruta/PIB. E parte da dívida tem como lastro alguns empréstimos do BNDES para grandes empresas, algumas possivelmente com representantes sentados nesta plateia”, provocou ele, para lembrar em seguida que outros países emergentes, como o México, a Índia e a Rússia, também passaram por desajustes do gênero que pediram mudanças de postura na política econômica. “Os Estados Unidos, a China e outras nações estão mudando suas políticas. A nossa também, e começa com a estabilização fiscal, que é o ponto número um”, afirmou.

Alguns benefícios sociais, como o seguro desemprego e a pensão por morte, estão na mira do Governo Dilma, apesar da grita de setores do sindicalismo e da oposição, que veem aí manobras neoliberais que atingiriam conquistas suadas dos trabalhadores. Mas, Levy tem procurado reforçar que se tratam de ajustes para distorções desses dois benefícios. “O custo do seguro-desemprego subiu de 0,5% para 1,1% do PIB nos últimos anos”, mostrou o ministro numa apresentação.

A equipe econômica tem procurado pontuar ainda as brechas na legislação atual que tem aberto espaço para fraudes em casos de pensões por morte, por exemplo.

A palavra "imaginação" foi evocada pela segunda vez quando o ministro falou sobre o setor elétrico, que vive um momento de modulação, com o reajuste de tarifas para compensar perdas que tem como base algumas intervenções do Governo Dilma, mas também afetadas pela crise hídrica, e ainda, com um consumo doméstico crescente, que cresceu 25% entre 2010 e 2014. “Na Europa, por exemplo, o consumo está caindo, pois lá houve uma sensibilização da necessidade de conservar energia”, comparou. “O Brasil pode fazer o mesmo com um pouco de desconforto, mas também com imaginação, até passar por esta fase”.

Alvo de críticas constantes por sua formação neoliberal, e por ser o mensageiro das más notícias em 2015 - anunciando cortes de gastos públicos e aumento de tributos -, Levy inseriu em sua apresentação um slide com o que ele chamou dos “três pilares da economia”: responsabilidade fiscal e monetária, rede de assistência social sustentável, - que incluiria por exemplo programas como o Bolsa Família, e incentivos para aumentar a oferta de trabalho - e apoio ao empreendedorismo, que prevê a simplificação tributária, por exemplo, e medidas para aumentar o comércio exterior.

O sucessor de Guido Mantega procurou manter o realismo com o ano em curso, para vislumbrar um futuro mais a contento, numa nova etapa de desenvolvimento. “Tudo é uma questão de atitude. Quando há desafios, vale usar a imaginação para dar a volta por cima”, disse Levy.

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