Grammy 2015

Sam Smith triunfa no Grammy com a canção ‘Stay With Me’

Jovem britânico não dá chances para Taylor Swift, Sia, Hozier e Meghan Trainor 'Morning Phase' de Beck é premiado como o melhor álbum do ano em três categorias

A cantora Beyoncé, antes de entrar na premiação.

Um cantor britânico de 22 anos com uma voz inclassificável e um artesão da Califórnia que, neste mesmo período de tempo, vem explorando sua própria versão do rock levaram os principais prêmios da indústria da música na 57° edição dos Prêmios Grammy da Academia de Gravação, realizada no teatro Nokia do centro de Los Angeles. A canção Stay With Me, de Sam Smith, é oficialmente o maior sucesso do último ano na opinião da indústria da música. A mesma indústria premiou Morning Phase, o último disco de Beck, como o melhor disco do ano, vencendo os trabalhos infinitamente mais vendáveis de Beyoncé e Pharrell Williams.

A noite foi de Smith desde o primeiro minuto, com a entrega do prêmio de melhor artista revelação, uma categoria fundamental que eleva quem a recebe ao estrelato instantâneo, se é que ele precisa disso. “Como antiga perdedora dessa categoria, em 2008, digo que pode não acontecer nada, como pode acontecer muita coisa”, disse Taylor Swift ao apresentar o prêmio. Talvez fosse a afirmação certa para Smith, de 22 anos, que apareceu no Grammy como a nova sensação britânica com a canção Stay With Me, da mesma forma que Adele em 2012. Seu trabalho é onipresente nas emissoras americanas desde seu lançamento, há menos de um ano. Em seu primeiro agradecimento, o artista mostrou uma personalidade em harmonia com sua delicada voz quando pegou o prêmio e disse: “Meu deus. Tentarei dizer algo sem chorar”.

Ainda teria oportunidades para fazê-lo. Recebeu depois o prêmio de melhor álbum vocal pop, uma categoria que pode ser traduzida como o disco melhor cantado. In The Lonely Hour de Smith ganhou de Coldplay, Miley Cyrus, Ariana Grande, Katy Perry e Ed Sheeran. “Antes de fazer esse disco, fiz de tudo para que minha música fosse ouvida”, disse o premiado. “Fiz músicas horríveis. Até não começar a ser eu mesmo, a música não fluía”. Finalmente, o britânico foi o último a subir no palco para receber o prêmio de canção do ano e gravação do ano, o equivalente ao Oscar de melhor filme, por Stay With Me. Smith acabou oferecendo o prêmio “ao homem a quem o disco é dedicado. Obrigado por partir meu coração, me deu quatro Grammy”.

Os prêmios Grammy são o reconhecimento de uma indústria a si mesma, como indústria, e neles premia-se o mérito dessas canções, que parecem tocar em todos os lugares. São premiadas exatamente por isso, por conseguirem tocar em todos os lugares e agradarem muita gente. Não resta dúvida de que Sam Smith, com a canção Stay With Me, conseguiu ser esse artista. Após a premiação, disse que gostaria de trabalhar com Joni Mitchell e com Antony and The Johnsons, uma voz que ele inevitavelmente menciona. Seu produtor, Rodney Jerkins, afirmou saber que se tratava de um sucesso mundial na primeira vez que ouviu a canção.

Beck, depois de receber o prêmio de disco do ano, entregue pelo Prince.
Beck, depois de receber o prêmio de disco do ano, entregue pelo Prince.KEVORK DJANSEZIAN (AFP)

Dividiu o pódio com Beck. O disco Morning Phase foi premiado como o melhor álbum rock, disco com melhor engenharia de som e, a principal categoria, álbum do ano. “Álbuns, vocês lembram o que eram?”, disse Prince ao apresentar o prêmio. “Os álbuns continuam importantes”. O disco do roqueiro californiano, de 44 anos, consegue assim todo o reconhecimento além dos singles e os sucessos instantâneos com um trabalho de formato campestre gravado em sua casa, tirando o sono de seus filhos, segundo disse, cheio dessa atmosfera reconhecível que sua música transmite há duas décadas.

O 'momento Grammy' de Rihanna, Kanye West e Paul McCartney

A cerimônia anual do Grammy é tanto uma entrega de prêmios como um show musical de três horas para a televisão. A produção prepara a cada ano o que chama de momentos Grammy, atuações que buscam ser surpreendentes e inéditas. A mais interessante desse ano foi a de Rihanna, Kanye West e Paul McCartney. Os três ofereceram uma sóbria FourFiveSeconds, canção forte gravada pelos três no último disco de Rihanna, e não está claro se alguém poderá voltar a vê-la ao vivo interpretada por este trio.

No restante das apresentações, Andrew Hozier-Byrne pôde cantar sua intensa Take Me to Church, indicada à canção do ano, acompanhado por Annie Lennox. Usher entrou no palco com Stevie Wonder. Com sua interpretação ao vivo de Living for Love, Madonna deu um espetáculo exatamente de Madonna, com bailarinos, coro e vídeo. Pharrell Williams levou ao palco um coro gospel e o pianista Lang Lang para interpretar sua canção Happy, com um chapéu novo. Além disso, depois de quatro décadas de carreira, o AC/DC pela primeira vez tocou ao vivo no Grammy.

As apresentações ao vivo incluem as cinco candidatas à canção do ano, que em 2015 tinha uma atração especial. Entre as indicadas estava Chandelier, de Sia Furler. Depois de anos de coros para outros artistas e compor sucessos para estrelas como Rihanna, Sia apareceu como artista com seu próprio nome no último ano, e especialmente com a canção Chandelier. Tem aversão, entretanto, a aparecer em público, a ponto de sair com uma peruca que cobria toda sua cabeça. O público, ao invés de ver a indicada, viu a atriz Kirsten Wiig improvisar sobre a canção.

No restante das categorias principais, a canção Happy, de Pharrell Williams, levou seu sucesso como prêmio para a melhor apresentação a uma nova versão ao vivo. A trilha sonora de Frozen, um ano depois de ser premiada no Oscar, ainda chegou a tempo de ganhar dois prêmios Grammy no domingo. Um dos casais mais idealizados da América, Beyoncé e Jay Z, foram premiados pela melhor interpretação de R&B por Drunk in Love. A categoria de rap confirmou o status de Eminem como o artista com o maior sucesso da história do gênero. O disco The Marshall Mathers LP 2 foi escolhido como o melhor álbum de rap do ano. Eminem é o artista que mais vezes ganhou esse prêmio, com seis Grammy.

As categorias latinas reafirmaram os vencedores do Grammy Latino, realizado em novembro, em Las Vegas. Rubén Blades ganhou na categoria de melhor álbum pop latino com seu disco Tangos. Multiviral, do Calle 13, foi o melhor disco na categoria rock, urbano ou alternativo. No estilo tropical, o álbum latino do ano foi Más + Corazón Profundo de Carlos Vives, o segundo Grammy do artista. O melhor disco de música mexicana foi Mano a Mano, de Vicente Fernández. Na televisão, as estrelas latinas da noite foram Juanes, que interpretou ao vivo a canção Juntos, e Enrique Iglesias, como apresentador do prêmio de canção do ano.

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Chick Corea levou dois dos quatro Grammy na categoria jazz, como melhor solo improvisado e melhor disco instrumental por Trilogy.

O melhor álbum de latin jazz foi para Arturo O´Farrill & The Afro Latin Jazz Orchestra por The Offense of The Drum. O filho do legendário Chico O´Farrill agradeceu ter sido premiado nessa categoria, mas lembrou que “os músicos não podem ser rotulados, estão em constante movimento”. Depois, para a imprensa, tentou explicar que o latin jazz está vivendo uma transformação. “Quando ia a um concerto, minha mulher me dizia: ‘Vai em outro desses concertos conga? E eu disse conga? Do que está falando?’ Porque o latin jazz era conga-conga-conga-con”, disse imitando o ritmo

Esses foram alguns dos prêmios que a televisão não mostrou. A cerimônia começa na realidade quatro horas e meia antes da transmissão. Com o teatro Nokia meio vazio foram entregues 71 dos 83 prêmios, que abrigam todos os lados dessa indústria. Existem categorias para premiar as notas interiores do álbum, o melhor disco de história, disco de comédia, disco para crianças, melhor edição limitada, melhor álbum de bluegrass, interpretação instrumental, interpretação coral, melhor remixagem... Prêmios que são dados a cada ano e que mudam vidas, lançam carreiras, tanto ou mais que os importantes.

No domingo, um dos ganhadores de uma dessas categorias periféricas, Joe Spix, premiado como diretor de arte pela capa e apresentação de Lighting Bolt, do Pearl Jam, tocou em um ponto delicado quando agradeceu emocionado ao receber o prêmio por seu trabalho como desenhista “na era da miniatura do iTunes”. Na era da miniatura, Sam Smith e Beck foram gigantes, um do irresistível megassucesso, outro do lado artesanal do rock.

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