Cinema

“Uma minoria tomou o islã como refém”

Sissako relata em 'Timbuktu', candidata ao Oscar, ocupação no Mali por jihadistas

Abderrahmane Sissako, em foto do ano passado no festival de Cannes.
Abderrahmane Sissako, em foto do ano passado no festival de Cannes.b. l. (afp)

Duas sequências resumem o espírito de Timbuktu, o candidato ao Oscar 2015 de melhor filme estrangeiro no qual o realizador Abderrahmane Sissako (Kiffa, Mauritânia, 1961) retrata a brutalidade e o absurdo do jihadismo. Em uma delas, um grupo de jovens joga futebol, mas sem bola, em um desafio à proibição de qualquer esporte por parte dos fanáticos. Em outra, uma mulher enfrenta homens de Kalashnikov porque se nega a usar luvas: aceitou a contragosto a obrigação de cobrir o corpo totalmente, mas não quer, nem pode, usar as luvas pretas porque é vendedora de peixes e simplesmente não conseguiria trabalhar. A primeira delas fala da inteligência e da solidariedade diante do absurdo dos fanáticos; a segunda descreve como a violência que os fanáticos impõem adere a todos os aspectos da vida, tornando a sobrevivência impossível.

Timbuktu, que estreou no Brasil em 22 de janeiro, relata a ocupação de uma cidade do Mali pelos jihadistas. Sissako sentiu a necessidade de filmar essa história —ainda que não tenha podido fazê-lo na mítica Timbuktu por motivos de segurança—, quando leu na imprensa uma história terrível: um casal tinha sido apedrejado pelos jihadistas que ocuparam o norte do Mali em 2012, acusado de manter relações sem estarem casados. O fato de terem dois filhos não deteve os mesmos fanáticos que queimam vivos prisioneiros de guerra, degolam jornalistas, jogam homossexuais do alto de edifícios, vendem mulheres como escravas e submetem a população civil a todo tipo de tormentos e proibições na Síria, Iraque ou na Nigéria.

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O filme provocou vários tipos de polêmica: depois da onda de terrorismo que se abateu sobre a França em janeiro, o prefeito de um subúrbio de Paris, Villiers-sur-Marne, conseguiu proibir temporariamente sua estreia porque considerava que humanizava os jihadistas, enquanto um festival de cinema de Tournai, na região da Valônia, na Bélgica, cancelou sua projeção devido ao risco de provocar um atentado. No entanto, o filme de Sissako, expoente do cinema africano sempre em festivais internacionais e autor de filmes como Bamako ou Esperando a felicidade, foi reconhecido pela crítica francesa e norte-americana como uma denúncia do fanatismo e uma celebração da tolerância e da vida diante da violência. O Ministério da Cultura francês até quer que seja exibido nas escolas como vacina contra o jihadismo. A entrevista com Sissako foi realizada na quarta-feira, pelo telefone. O realizador está em Los Angeles, em plena campanha de seu filme para o Oscar, que acontece em 22 de fevereiro.

Pergunta. Seu filme foi acusado de humanizar os jihadistas. Como o sr. responde a isso?

Resposta. Não vejo como uma acusação, mas como uma constatação de pessoas que não têm o hábito de contemplar assim a violência, a barbárie. Estamos acostumados a olhar o mundo como se fosse dividido entre bons e maus. Fiz esse filme para rechaçar a violência e a barbárie, mas isso não deve nos impedir de mostrar essas pessoas. São pessoas que tiveram uma infância, foram normais, mas que depois mudaram e essa transformação as levou ao jihad, mas também poderia tê-las levado a qualquer forma de criminalidade. Os jihadistas também são normais em certo sentido. Todo homem, inclusive um bárbaro como eles, tem capacidade de sentir remorsos. A arte tem de mostrar as coisas.

P. Seu filme mostra como pessoas normais enfrentam o absurdo da violência jihadista, que adere a todos os aspectos da vida, como a mulher no mercado que diz que não pode usar luvas porque vende peixe. Seu filme é um apelo em defesa das vítimas dessa loucura?

R. Sem dúvida. Os fanáticos sempre pensam que vão ganhar, mas são uns covardes. Essa mulher não hesita em enfrentar quatro homens com Kalashinikov. São sempre homens armados diante de pessoas indefesas, como acontece com o casal que é apedrejado. É algo terrível, mas não acredito que a humanidade seja isso, muito pelo contrário. É absurdo que tentem proibir a música, porque todos temos a música dentro de nós. Quando um dos chefes jihadistas fuma apesar de ter proibido a população de fazer isso, quero mostrar a hipocrisia, mas também algo humano, talvez remorsos diante do que está fazendo, porque fuma um cigarro depois de uma flagelação e do apedrejamento. Talvez ele esteja se questionando.

P. Por que o sr. acredita que o jihad mais brutal tem tanta força em tantos lugares diferentes, da Nigéria ao Mali, Iraque ou Síria?

R. É verdade que vivemos em um mundo horrível, que necessita de uma tomada de consciência global muito forte. Seu objetivo é assumir o controle de grandes territórios. Como podemos evitar isso? Imagine que a vida em Madri tivesse parado depois dos atentados de 11 de março: é preciso lutar contra tudo isso com os meios que tivermos a nosso alcance. Mas é verdade que está acontecendo algo excepcional: Mali, Síria, Iraque, Boko Haram... A jihad é muito forte. Também temos de nos perguntar como é possível que isso aconteça, porque nenhum dos países afetados fabrica armas.

P. Uma das sequências mais comemoradas de seu filme mostra os rapazes jogando futebol sem bola, para fugir da proibição. Como o sr. teve essa ideia?

R. O futebol tem algo de universal e, além disso, diferentemente do tênis, pode ser jogado em qualquer lugar, não precisa de um espaço específico. É extremamente popular e sua força vem do fato de produzir uma comunhão entre as pessoas. Uso essa sequência para mostrar a coesão, a harmonia na resistência. Fala da resistência pacífica, da verdadeira vitória.

P. Também mostra um imã que coloca os jihadistas para fora de sua mesquita. O sr. tenta mostrar com esse personagem que também existe um islã tolerante?

Vida de um cineasta

Abderrahmane Sissako nasceu em 13 de outubro de 1961 em Kiffa (Mauritânia).

Sua família se muda para o Mali, onde ele cursa o ensino fundamental e médio.

Em 1989, filma seu primeiro curta-metragem, Le Jeu, de 23 minutos.

Em 1990, muda-se para a França e quatro anos depois ganha o prêmio de melhor curta-metragem no Festival de Cinema Africano de Milão, por Outubro. Em 1999, esse mesmo festival lhe entrega o prêmio de melhor filme por A vida na terra, seu primeiro longa-metragem.

Seus longas seguintes lhe trazem sucesso internacional: Esperando a Felicidade (2002) e Bamako (2006).

Timbuktu concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

R. Vou inverter sua pergunta. Toda religião deve ser assim, toda religião deve estar a serviço da humanidade, da concórdia, da tolerância. No caso do islã, uma minoria a tomou como refém, ninguém nasce de barba e kalashnikov. O imã representa os princípios do Islã nos quais fui educado, os valores que Timbuktu simboliza que também são universais.

P. O sr. se sente ameaçado depois do sucesso de seu filme?

R. É uma pergunta difícil. Prefiro não me sentir ameaçado.

P. O sr. rodou no passado um filme sobre a imigração da África. Acredita que a Europa tem total consciência do drama que está acontecendo às suas portas, no Mediterrâneo?

R. A Europa deveria ter compreendido há tempos que a única solução é compartilhar sua riqueza com a África. Não falo de cooperação, mas de compartilhamento. Isso é muito melhor do que deixar um continente à deriva. Não digo que toda a culpa seja da Europa, em absoluto, mas não acredito que construir uma barreira física seja uma solução. Me parece uma escolha retrógrada.

P. Em seu filme há momentos de humor em meio à tragédia. O sr. acredita que o humor é importante para contar uma história?

R. Humor é comunicação, é um elemento essencial para contar as coisas. O humor deve ser usado como elemento narrativo, porque um filme não tenta chegar à verdade, não é uma declaração, é outra coisa. Deve tomar distância para permitir que seja o espectador quem escolha. É um elemento a mais, como os movimentos de câmera, a música, tudo isso faz parte do diálogo com o público.