OSCAR 2015

Candidato a melhor filme estrangeiro, ‘Leviatã’ desperta ira na Rússia

Ministro ataca o filme que retrata a impotência diante dos abusos e da corrupção

Cena do filme Leviatã, candidato ao Oscar.
Cena do filme Leviatã, candidato ao Oscar.

O filme Leviatã, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, causou inflamadas polêmicas na Rússia, que – além da obra artística concreta – refletem o marco político e ideológico no qual insere-se hoje a atividade criativa, entre a liberdade de expressão e o conservadorismo autoritário.

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O filme do diretor Andrey Zvyagintsev, um siberiano de 50 anos, ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes e um Globo de Ouro, além de ter ganhado como melhor filme estrangeiro em Londres. Mas, para o ministro da Cultura da Rússia, Vladimir Medinski, Leviatã reflete um ambiente de “desespero” e “falta de sentido” e explora os tópicos ocidentais anti-russos com a finalidade de obter prêmios no Ocidente. Em Leviatã não existe “um só herói positivo” e seus personagens não são “verdadeiros russos”, disse o funcionário de alto escalão ao jornal Izvestia. Acrescentou, também, que “os filmes que insultam as autoridades no poder não devem ser financiados com o dinheiro dos contribuintes”.

Por volta de 30% do orçamento de Leviatã foi financiado pelo Estado, de acordo com o próprio Zvyagintsev, que negou ter recebido dinheiro norte-americano, como insinuam seus detratores. Leviatã, disse o diretor para o jornal RBK, é uma tentativa de relatar “minhas observações, inquietudes e experiências” e “nenhum ministro do país pode imiscuir-se em minha relação com o mundo e com as pessoas que me rodeiam”.

A estreia de Leviatã na Rússia, que era prevista para o segundo semestre de 2014, foi postergada para fevereiro deste ano, quando o filme entrará em cartaz censurado dos palavrões da linguagem dos atores, proibidos nos cinemas por conta da legislação que entrou em vigor no ano passado.

Enquanto isso, uma versão pirata completa de Leviatã que circula na Internet goza atualmente de grande popularidade entre os russos. O filme é ambientado em uma impressionante paisagem do Norte, na localidade de Teriberka, na costa do mar de Barents, e narra a história de Nikolai e outros personagens, impotentes diante dos destrutivos planos imobiliários de um prefeito corrupto que conta com o apoio e a compreensão dos hierarcas da igreja ortodoxa local. O drama é visto por parte dos russos não só como uma crítica social, mas como uma profunda evocação de situações pessoais indefesas diante do poder de quem representa o Estado. Zvyagintsev alega que trata-se de uma história universal que poderia acontecer em outros lugares do mundo, mas na Rússia, onde as redes de televisão estatais reforçaram o antagonismo entre o “russo” e “o ocidental”, muitos veem o filme de forma literal, entre eles, a prefeita do povoado onde foi filmado, ofendida pela maneira crua como o diretor o mostrou.

Um grupo de ativistas ortodoxos dirigiu-se ao ministro da Cultura Medinski para que o filme seja proibido e, na cidade de Samara, no Volga, deputados, sacerdotes, cossacos e intelectuais locais pediram à responsável pela cultura da província que despeça Valeri Grishko, o diretor do teatro dramático local, que é também o ator que representa o papel do prelado no filme. Segundo os 16 reclamantes, Grishko participou da “refinada difamação das autoridades russas e da Igreja ortodoxa”. Para o chefe do Partido Comunista Russo, Guennadi Ziuganov, Leviatã é um filme “antinacional” e para o político Serguei Markov, do partido governista Rússia Unida, Zvyagintsev deveria pedir perdão por interpretar a realidade russa de forma excessivamente negativa. Zvyagintsev, disse Markov, “esquarteja os russos e dessa forma se transforma na base ideológica do genocídio do povo russo”. “No lugar de Zvyagintsev, eu retiraria o filme de cartaz, iria para a Praça Vermelha, me colocaria de joelhos e pediria perdão”, disse.

Leviatã se transformou, na segunda semana de janeiro, no centro de um dos debates no Foro Gaidar, uma popular reunião anual da elite russa. Os debatedores e o público divergiram sobre se o Estado russo deveria limitar-se a ser o gestor de um marco cultural plural aberto à todas as estéticas ou se deveria dar diretrizes de política cultural. Essa última opção encontrou grande apoio no público, ainda que, segundo o diretor teatral Konstantin Bogomolov, “o Estado tenta novamente criar uma ideologia estatal sobre a cultura russa e a pressiona” e “é hoje o principal perigo para a cultura russa”.