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Escalada

Alpinistas fazem história ao escalar o paredão mais difícil do mundo

Americanos são os primeiros a vencer o paredão 'El Capitán' apenas com os pés e as mãos

Kevin Jorgeson (de verde) e Tommy Caldwell (azul) na subida do 'El Capitán'. Ampliar foto
Kevin Jorgeson (de verde) e Tommy Caldwell (azul) na subida do 'El Capitán'. AP

Tommy Caldwell e Kevin Jorgeson olhavam para o céu de poucos em poucos minutos. Procuravam o último trecho de parede, os recôncavos e fendas no granito que os separavam da história. Nesta quarta-feira, após mais de duas semanas sem pisar no chão do vale de Yosemite (Califórnia), conseguiram escalar a Dawn Wall, o paredão vertical do El Capitán, considerado o mais difícil do mundo. Ninguém antes conseguira superar seus 914 metros de altura em estilo livre, sem outra ajuda que seus pés e suas mãos, protegidos apenas pelas cordas de segurança.

Às 10h (horário local), os dois jovens escaladores, astros desse esporte nos Estados Unidos, ajustavam seus equipamentos de segurança diante das câmeras de TV, que transmitiram ao vivo sua subida na parede de granito mais lisa e mais alta da América do Norte. O primeiro a abrir caminho foi Caldwell, campeão mundial quando tinha apenas 16 anos e líder da subida durante esses 19 dias. Nos três últimos decidiu esperar pelo companheiro, Jorgeson, afetado por lesões nas mãos e obrigado a descansar vários dias, depois de perder a pele dos dedos das mãos. Seis horas depois de se lançar ao último trecho rumo à história, Caldwell esperava por seu colega para juntos atingirem o topo.

Ninguém antes tinha subido os 914 metros da imponente “parede do amanhecer” como Caldwell e Jorgeson. A primeira tentativa ocorreu em 1958

Caldwell (36 anos) e Jorgeson (30) transmitiram o feito desses dias em suas contas pessoais nas redes sociais e tiveram também a atenção da mídia norte-americana, que seguiu seus movimentos a cada milímetro, como se fosse uma expedição. Os dois escaladores, acostumados a publicar suas próprias imagens de cada uma das conquistas que os levaram ao El Capitán, abriram assim uma janela insólita para a rotina de uma escalada. Do paredão, graças a celulares alimentados por baterias solares, compartilharam suas pausas para descanso a mais de 500 metros de altura, a vista do muro interminável, os trechos percorridos à noite, com apenas uma lanterna, ou o instante em que apenas poucos milímetros de apoio para os pés e as pontas dos dedos os separavam do vazio. “É uma loucura pensar que a pele é a única coisa que faz a diferença entre o sucesso e o fracasso”, escreveu Caldwell no Facebook.

Foto de Caldwell em seu perfil de Instagram.
Foto de Caldwell em seu perfil de Instagram.

A subida não foi livre de quedas e momentos de dúvida, como durante as 11 tentativas necessárias para que Jorgeson superasse um dos trechos mais difíceis da rota. “O impulso é uma força poderosa. Quando está ao seu lado, tudo parece um pouco mais fácil. Quando não está ao seu lado, parece que você se arrasta na lama”, escreveu o escalador em seu perfil pessoal. Nesta quarta-feira as imagens da ascensão mostravam como caía uma vez mais sob a vista de Caldwell, que já tinha superado outra fase. O escalador mais jovem conseguiu superar o trecho, mas decidiu voltar e começá-lo de novo. Não prosseguiu até completá-lo sem erros. Segundo Jorgeson, a meta não era conquistar a montanha, mas “realizar um sonho”. À noite, foram felicitados pelo presidente Barack Obama por “lembrar-nos que tudo é possível”.

Ninguém antes tinha subido os 914 metros da imponente “parede do amanhecer” como Caldwell e Jorgeson. A primeira tentativa ocorreu em 1958, quando Warren Harding e Dean Caldwell demoraram 27 dias para superar a altura do El Capitán –e uma tempestade de neve- com a ajuda de cordas e cravos de escalada. As câmeras de TV mostraram, 57 anos depois, como seus sucessores buscavam a cada milímetro uma fenda na rocha para enfiar os dedos, apoiar a mão ou descansar o peso do corpo antes de fazer novo movimento.

O dois jovens norte-americanos começaram a escalar quando crianças e se prepararam ao longo da última década para chegar ao topo. Em 27 de dezembro começaram a subida na Califórnia, e desde então ficaram amarrados à parede, dormindo em barracas dobráveis ao lado de fotógrafos, cinegrafistas e ajudantes que os acompanharam nessa aventura. Os que seguiram a façanha nas redes sociais e no blog de Caldwell perguntaram muitas vezes o que inspirou esses homens a subir ao impossível. O escalador respondeu: “Temos todos esses conceitos sobre onde ficam nossos limites, mas pode ser que estejamos completamente errados”. Errou quem disse que o paredão do El Capitán não podia ser escalado.