CIBERATAQUE À SONY

“O filme é bom. Não tinha sentido censurar”

'A Entrevista', filme da Sony sobre o líder norte-coreano, chega às salas de cinema dos Estados Unidos e à Internet

Espectadores em um cinema em Atlanta. Atlas / WireImage (atlas)

Os espectadores que na noite da véspera de Natal esperaram em Los Angeles na frente de uma das 300 salas de cinema independentes que nos Estados Unidos decidiram exibir A Entrevista ganharam uma recompensa. No começo da primeira projeção, à meia-noite, Seth Rogen, um dos protagonistas e codiretor do filme que irritou a Coreia do Norte, apareceu para agradecer ao público.

“Se não fosse por pessoas como vocês, literalmente, não teria sido exibido”, comemorou Rogen, com uma lata de cerveja na mão, na companhia de Evan Goldberg, que codirigiu o filme sobre dois jornalistas recrutados pela CIA para assassinar o líder norte-coreano, Kim Jong-un.

Na semana passada, as ameaças da Coreia do Norte levaram a produtora, Sony, a anunciar a suspensão do filme. Depois que até o presidente Barack Obama criticou a decisão da Sony, a película se transformou em símbolo da liberdade de expressão. E propiciou uma insólita aliança entre uma produtora poderosa, plataformas digitais e cinemas independentes.

Primeiro foram as salas pequenas, que conseguiram que a Sony aceitasse uma “estreia limitada”. Muitas das sessões tinham um cartaz de “Lotado” antes da estreia.

Os nova-yorkinos puderam ver A Entrevista ontem em três pequenos cinemas independentes nos bairros de Queens, Brooklyn e Manhattan. A sessão matutina do dia de Natal na sala localizada a poucas quadras da Union Square ainda tinha entradas à venda.

Evan Goldberg (esquerda), codiretor de A Entrevista, e Seth Rogen, coprotagonista e codiretor, antes de uma das exibições do filme, em sala em Los Angeles.
Evan Goldberg (esquerda), codiretor de A Entrevista, e Seth Rogen, coprotagonista e codiretor, antes de uma das exibições do filme, em sala em Los Angeles.justin baker

“É OK, divertido”, disse sem muito entusiasmo um dos espectadores, que foi ao cinema esperando dar algumas risadas. A opinião geral é que Kim Jon Un, o ditador norte-coreano, não fica tão mal no enredo. “Bom ou ruim, é entretenimento e não havia sentido em censurá-lo”, comentou outro espectador. Tirando o frenesi gerado, algumas pessoas admitiam que talvez não tivessem se interessado em ver o filme tão cedo.

Não havia presença da polícia nas portas dos cinemas na sessão da manhã. A Entrevista se mostrou o filme que é: uma sátira para passar o tempo. “É o que esperávamos, uma comédia de Franco e Rogen”, comentaram dois espectadores no Williamsburg Cinemas. As entradas para o Cinema Village estavam esgotadas para as sessões da tarde, como no Brooklyn, mas havia entradas para a noite.

Alguns dos que preferiram ir ao cinema neste dia de celebração familiar não o fizeram pelo filme em si, mas para defender a liberdade de expressão. “Mesmo que não seja a defesa típica do direito das pessoas a se expressarem livremente, continua a ser uma chance para que todos, como um país, digamos que não toleraremos que seja ameaçada a liberdade de expressão das pessoas”, disse à rádio pública NPR Josh Levin, dono do West End Cinema, uma sala de cinema independente de Washington. Levin comprou uma cópia, apesar de ser um filme comercial, fora de sua programação habitual.

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A defesa da liberdade de expressão levou plataformas digitais pagas, como Google, YouTube Movies e Xbox, da Microsoft, a começar a distribuir de surpresa o filme um dia antes de sua estreia nas salas, multiplicando seu público potencial. Mas ainda é preciso ver se a distribuição online vai compensar a perda de ingressos em razão da suspensão da estreia programada para 3.000 salas comerciais.

“Não podíamos permitir que um punhado de pessoas determinasse os limites da liberdade de expressão em outro país”, afirmou num comunicado David Drummond, responsável legal do Google. “Independentemente de quão bobo seja o conteúdo.”