Confiante, brasileiro mudou mais de emprego na última década

Com maior oferta de postos de trabalho, um quarto dos trabalhadores se demitiram por conta própria em 2013. Jovens com menos escolaridade são os que mais mudam

Alta rotatividade vem preocupando o governo, pois eleva os gastos públicos com seguro-desemprego
Alta rotatividade vem preocupando o governo, pois eleva os gastos públicos com seguro-desempregoMarcos Santos (USP Imagens)

Em menos de um ano, o publicitário Bernardo Cunha, de 27 anos, passou por quatro empresas diferentes. “Cada caso teve um motivo específico. Em alguns, mudei pois não estava satisfeito e em outros, porque havia uma oportunidade melhor em outra empresa. Estava sempre buscando algo que realmente me desse prazer, então foi um pouco difícil me encontrar”, explica Cunha, que ressalta que em algum momento será importante “se firmar”.

A alternância de trabalho vem se tornando cada vez mais comum. No ano passado, de cada dez empregados brasileiros com carteira assinada, seis passaram por desligamento e admissão no posto de trabalho ao longo do ano, de acordo com estudo feito pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Entre 2002 e 2013, cerca de 45% dos desligamentos ocorreram com menos de seis meses e 65% das contratações sequer atingiram um ano completo.

Leve alta da taxa de desemprego

48,9 milhões foi o número de vínculos de trabalho no ano de 2013. Em relação a 2002, foram criados mais de 20 milhões de empregos, com um incremento médio anual de 1,8 milhão de postos de trabalho.

4,8% foi a taxa de desemprego no mês de novembro. Apesar de ser considerada baixa, ela está 0,1 ponto percentual acima dos 4,7% de outubro, e 0,2 ponto acima dos 4,6% de novembro de 2013.

1,2 milhão é o número de pessoas desocupadas no conjunto das seis regiões metropolitanas, segundo o IBGE.

Embora o maior número de rescisões parta da decisão dos patrões, o desligamento a pedido do trabalhador foi o motivo de demissão que mais cresceu na última década no país. Em 2002, 15,6% dos desligamentos ocorriam por iniciativa do trabalhador. Em 2013, chegaram a 25%.

Esse aumento é justificado pela dinâmica de uma economia mais aquecida na última década e pela redução da taxa de desemprego, segundo o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz. “Hoje, os trabalhadores se sentem muito mais seguros na hora de saírem de um emprego para outro. Há um ambiente muito mais favorável. Eles observam ofertas com melhores condições, com benefícios e até mais perto de suas residências. Essas pessoas se arriscam muito mais, diferentemente da década de 90, quando a taxa de desemprego era grande”, afirma. Para Ganz, é possível que essa confiança diminua um pouco com a atual retração econômica.

Jovens e menos escolarizados

O estudo, que foi publicado pelo Ministério do Trabalho, mostra ainda que entre os desligamentos ocorridos em 2013, sejam eles realizados pelo patrão ou pelo empregado, há predominância de trabalhadores mais jovens e menos escolarizados. Para o diretor da Associação Brasileira de Recursos Humanos Nacional, Luiz Edmundo Rosa, as pessoas menos escolarizadas, que trabalham principalmente no setor de serviços e construção civil, acabam, muitas vezes, trocando “seis por meia dúzia” e se sentem mais livres na hora de trocar de emprego, mesmo que seja por uma diferença salarial pequena. Eles geralmente não pensam em construir uma carreira no lugar onde trabalham e consequentemente têm menos compromisso.

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No caso dos jovens, Rosa acredita que, entre a população ativa, eles são os que mais investem em educação e, por isso mesmo, sentem uma necessidade maior de conseguir melhores colocações no mercado de trabalho. “Quem mais estuda, faz curso de pós-graduação ou especialização está na faixa dos 20 aos 30. E, se a empresa onde estão não valoriza esse investimento, eles certamente vão aceitar a oferta da concorrência, mesmo que não seja tão grande. Eles querem ser valorizados”, explica.

Falta de qualificação

Se bem a rotatividade pode ser sinônimo de mais e melhores ofertas de emprego e salário, o especialista da Dieese afirma que também representa o “lado perverso” da atual dinâmica do mercado de trabalho, já que muitas das demissões realizadas por patrões são para contratar pessoas menos qualificadas e com salários menores. “É um uso e desuso da força de trabalho muito intenso. Demite-se para ajustar custos, para contratar por um preço pior. O trabalho é ajustado como um insumo. Não há investimento na qualificação, no posto de trabalho e nem no produto”, afirma Ganz.

A alta rotatividade preocupa o Governo, pois eleva os gastos públicos com seguro-desemprego. Mudanças na legislação já estão sendo estudadas para diminuir essa taxa. Entre elas, estão a inclusão de barreiras para acessar o seguro-desemprego e a mudança de regime de registros dos empregados.

Para o técnico da Dieese, a principal medida teria que ser uma reforma estrutural. “É preciso investir em qualidade, na educação do profissional e dar estabilidade ao mercado de trabalho”, explica Ganz.

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