Quem ganha e quem perde com a valorização do dólar?

A alta castiga os emergentes com inflação e dívida externa

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A valorização do dólar na segunda metade de 2014 vinha atraindo muito menos atenção do que a queda do preço do petróleo. Um dos motivos foi que o colapso da cotação do brent foi muito mais notório (de 115 dólares a 58 dólares, quase 50% a menos de julho a dezembro) do que a desvalorização do euro frente ao dólar (de 1,40 dólares por euro a 1,25 dólares por euro, 10% menos), a referência na qual as análises costumam se concentrar. A zona do euro, outra vez estancada, era também um foco de preocupação. E a moderada perda do valor do euro representava um certo alívio. Mas no caso de várias moedas emergentes, a desvalorização foi abrupta e descontrolada, como ocorreu com a Rússia.

Emergentes em apuros

A cotação das matérias-primas, e particularmente do petróleo, costuma ir no sentido contrário à do dólar, a moeda usada nesse tipo de transação. Se o movimento é simétrico, o efeito para os exportadores e importadores de petróleo, em suas moedas de origem, é neutro. Mas se o movimento não é simétrico, a situação se complica: há muitos outros fatores que incidem no mercado de divisas, como também há muitas consequências acarretadas. Além disso, trata-se de um gigante financeiro – o maior mercado descentralizado do mundo, com uma negociação diária superior a 4 trilhões de euros -, no qual grandes investidores internacionais tentam, de vez em quando, conduzir a manada e provocar debandadas rentáveis. E a fragilidade de algumas economias emergentes dá razão.

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O retrato padrão das economias mais vulneráveis inclui países exportadores de petróleo – ou outras matérias-primas -, e muito dependentes de seus rendimentos externos, com altos níveis de inflação, dívida externa em ascensão e crescimento estancado ou em retrocesso. Os organismo internacionais incluem nessa lista países que não aproveitaram o período de bonança do alto preço das commodities para fazer reformas estruturais em sua economia. A Rússia, que também está lidando com o custo do conflito com a Ucrânia, a Venezuela, a Argentina e o Brasil são alguns dos principais prejudicados. Mas a provação também se estendeu a boa parte dos emergentes: a lira turca e a rúpia indonésia também estão em níveis mínimos frente ao dólar, e as divisas do Leste Europeu também estão caindo com o recuo do rublo.

A depreciação de todas essas moedas tem um efeito favorável nas exportações, ao torná-las mais baratas em relação ao dólar, mas no caso das vendas de petróleo esse efeito é contrabalançado pela súbita perda de valor desse produto. Pelo contrário, as importações encarecem, o que tem um claro efeito inflacionário. Mas as implicações financeiras podem acabar sendo mais determinantes: a dívida externa em dólares aumenta, o que multiplica o risco de moratórias, públicas ou privadas, e muitos investidores saem do país diante da perda de rentabilidade em seus negócios.

Alívio para a Europa

Nos últimos anos, a depreciação do euro foi pedida insistentemente por vários países europeus, que viam a moeda única se manter em níveis elevados apesar da fragilidade de suas economias. A paulatina perda de valor se produziu no fim deste ano, conforme as estratégias dos bancos centrais de ambos os blocos se cruzam: enquanto o Banco Central Europeu (BCE) manteve as taxas a 0% e prepara uma compra em massa de ativos nos mercados para reativar os preços, o Federal Reserve (banco central norte-americano) fechou seu programa de aquisição de bônus diante da melhora da economia norte-americana, e os analistas já farejam quando será a primeira alta de taxas.

Alguns analistas, como os do Goldman Sachs, acreditam que a depreciação do euro se prolongará por pelo menos dois anos, e que a moeda europeia pode começar 2017 em paridade com o dólar, algo que não ocorria desde o início da zona do euro. A consequência mais óbvia é o impulso às exportações de mercadorias, que se tornaram mais baratas em relação ao dólar. Além disso, a contrapartida – importações mais caras e mais inflação – também é positiva neste caso, quando o risco é entrar em deflação.

Um recente relatório da Comissão Europeia conclui ainda que a Itália e a França, duas grandes economias em apuros, as que mais se beneficiarão de uma depreciação sustentada do euro, ao resultar em um maior aumento de suas exportações. No caso alemão, suas vendas industriais ao exterior estão mais integradas em cadeias globais de valor adicionado, e seus lucros dependem de o aumento das exportações superar o aumento do custo das importações que são reutilizadas nas exportações.

No caso da Espanha, o Governo sugeriu que sua previsão para o crescimento em 2015, de 2%, será superada. E alguns analistas independentes, como os da Fundación Caja de Ahorros e do Instituto de Estudos Econômicos espalho, situam essa cifra em 2,5%. Há meses, especulava-se uma revisão para baixo do prognóstico oficial – de fato, o FMI, a Comissão Europeia e a OCDE limitam o crescimento a 1,7% -, mas a queda do petróleo e a desvalorização do euro modificaram as estimativas.

O Ministério da Economia da Espanha calcula que a baixa do euro pode somar 0,4 pontos ao crescimento do PIB se a queda de 10%, já registrada, se mantiver. O serviço de análises do banco BBVA estende esse cálculo a 0,5 pontos.