Análise
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O Brasil se olha no espelho

Da CNV às relevações de que a cúpula da Petrobras sabia dos desvios, passando pelo bloqueio de recursos das companhias envolvidas no cartel de trens em São Paulo. Uma semana que pode marcar uma mudança de postura

Poderia se dizer que foi mera coincidência. A agenda do país já estava marcada para receber na quarta-feira passada o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que traria mais de 1.300 páginas com detalhes sórdidos sobre os crimes contra a humanidade cometidos nos anos da ditadura militar no Brasil. Estupros, corpos incinerados e assassinatos de inocentes cometidos sistematicamente neste país durante os anos de chumbo. Não dá mais para fingir que não se conhece a verdade sobre o período que durou de 1964 a 1985, e que ainda mantém sequelas profundas na sociedade atual.

No dia seguinte, a Procuradoria Geral da República denunciaria 35 pessoas pelo escândalo da Petrobras, 22 deles que trabalham em empreiteiras. Alguns, inclusive, com o sobrenome da empresa em que atuam, algo deveras insólito em se tratando de Brasil.

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Mais do que o indiciamento de nomes que antes passavam longe de processos escancarados publicamente, a PGR exibiu o desenho de um fluxograma, mostrando como o dinheiro passava pela Petrobras e era desviado para fins ilícitos. “Uma aula de crime”, como definiu o procurador geral Rodrigo Janot. A semana, porém, não havia terminado. No dia seguinte, a Justiça Federal em São Paulo notificou sete empresas envolvidas no cartel de trens de São Paulo, por conta do inquérito que apura fraudes em licitações na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. A Justiça bloqueou 600 milhões de reais das companhias citadas. Dias antes, a Polícia Federal havia indiciado 33 pessoas pelos desvios nesse caso, que somam quase 1 bilhão de reais.

O novelo da Petrobras ainda guardava mais um capítulo na sexta-feira, com a divulgação feita pelo jornal Valor dos sucessivos alertas de desvio de recursos, feitos pela ex-gerente da empresa Venina Veloso da Fonseca à atual presidenta da empresa, Graça Foster. E o balanço da petroleira, que deveria ter sido divulgado na sexta-feira, uma vez mais foi adiado, porque o país está cobrando, como nunca, mais verdade, sem espaço para suspeitas sobre números ou palavras.

Neste domingo, em que se completa um mês de detenção dos executivos das empreiteiras do esquema Lava Jato, o Brasil constata que algo está mudando, e pode ser para melhor. Conforme disse ao EL PAÍS o procurador Rodrigo Janot, o esquema da Petrobras funcionava nesses moldes desde 1987. E cresceu, aparentemente, com a expansão da empresa, em sua complexidade e também nos valores desviados.

As máscaras, na verdade, mal começaram a cair, uma vez que os nomes dos políticos ainda nem vieram à baila. E já há quem acredite que muitos dos que estão apontando o dedo agora para acusar, também terão de se explicar dentro em breve.

Não deixa de chamar a atenção que a verdade que demorou a ser debatida sobre a ditadura militar venha à tona no ano em que um dos maiores escândalos de corrupção corporativa coloca em xeque outras falsas verdades sobre a gestão e a condução de empresas e políticos.

Ao contrário de outros países vizinhos, o Brasil pode ter chegado tarde para criar sua comissão da verdade, mas chega na era multimídia, com direito a relatos na íntegra dos matadores dos quartéis no YouTube, e das vítimas de suas torturas.

Também diferente de outros países, o choque de ética para lidar com a corrupção pode estar atrasado. Mas encontra uma sociedade madura para encarar suas feridas, encerrando um dos anos mais estranhos dos últimos anos, depois de um ciclo de crescimento que embeveceu a maioria. De tudo, o que pode ficar é certamente a máxima que a verdade sempre liberta, e isso não pode ser encarado com pessimismo.

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