Após atritos com Atenas, zona do euro decide prorrogar resgate grego

Comissário europeu de Economia e Finanças salienta que a decisão será tomada em breve

O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, em Bruxelas.
O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, em Bruxelas.

Os ministros de Economia da zona do euro discutem nesta segunda-feira uma “prorrogação técnica” do resgate grego, depois do fracasso das negociações com o Governo de Antonis Samaras para desbloquear a última parcela do programa, no valor de 1,8 bilhão de euros (5,7 bilhões de reais). Bruxelas exigia que Atenas realizasse novos ajustes que não haviam sido incluídos pelo Governo do país em seu orçamento de 2015, aprovado neste domingo no Parlamento com o apoio exclusivo dos conservadores e dos sociais-democratas, integrantes da atual coalizão grega. As contas públicas de 2015, tão restritivas como as do ano que termina, receberam críticas tanto dos credores da troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) – que estima a discrepância orçamentária em quase 3 bilhões de euros – como da opinião pública grega, que mantém seus protestos contra políticas que considera “antissociais”, sendo o último deles no domingo, no centro de Atenas.

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Diante da falta de sintonia com o Governo grego, o grupo ministerial conhecido como Eurogrupo dará nesta segunda-feira os últimos passos para autorizar a prorrogação do resgate, que expiraria neste mês, e assim ganhar tempo para a negociação com Atenas. “Não haverá decisões hoje sobre a prorrogação do programa grego, mas espero que sejam dados passos adiante”, afirmou o comissário (ministro) europeu de Assuntos Econômicos e Financeiros, Pierre Moscovici, ao chegar à reunião dos 18 ministros da zona euro.

Apesar das declarações enfáticas do comissário francês, fontes do Eurogrupo disseram que esse tema certamente teria lugar de destaque na pauta e anteciparam alguns detalhes sobre a prorrogação do programa por um prazo que poderá ser de um a seis meses. Atenas pretende que essa prorrogação técnica não seja muito estendida – no máximo até o final de janeiro –, pois assim o partido centro-direitista Nova Democracia e o socialista PASOK poderão chegar às eleições gerais, previstas para o primeiro semestre, com o resgate já concluído e com a linha de crédito preventiva – uma espécie de rede de segurança financeira para a Grécia – já aprovada.

“A troika nos pede novas medidas de ajuste, e as rejeitamos”, afirmou Samaras no domingo em um discurso de certa forma tático, com vistas a apresentar uma posição de força perante os credores, mas também com forte teor pré-eleitoral. As diferenças entre o Governo grego e a oposição, liderada pelo partido esquerdista Syriza, vão além das contas públicas, incluindo até mesmo a data das próximas eleições. O líder oposicionista Alexis Tsipras pede a antecipação “imediata” do pleito, alegando que isso se justifica pela dramática situação da Grécia – que desde 2008 viu um quarto do seu PIB sumir, enquanto a dívida pública se aproxima perigosamente de 180% do PIB, a mais alta da UE. Já Samaras reluta em convocar uma eleição que ele descreve como “catastrófica” para o interesse nacional.

Analistas consideram que a eleição provavelmente será convocada para março, e as pesquisas dão ao Syriza grandes chances de chegar ao Governo. Embora essa perspectiva cause alarme em Bruxelas, ela poderia servir como estímulo para que Atenas faça concessões e feche um acordo sobre o final do resgate o quanto antes. Seja como for, o Eurogrupo, ao menos publicamente, não cogita um cenário de mudança de Governo em curto prazo. “Não falamos de política interna. Dialogamos com Governos, não com partidos”, respondem fontes europeias quanto questionadas sobre se já mantiveram contatos com o Syriza.