Economia na zona do euro

Merkel admite que “a Europa não é uma terra de futuro para os jovens”

Chanceler alemã aposta na digitalização para criar emprego na zona do euro

Angela Merkel durante seminário em Berlim.
Angela Merkel durante seminário em Berlim.BERND VON JUTRCZENKA / EFE

A chanceler alemã, Angela Merkel, reconheceu na quinta-feira que “a Europa não é, no momento, uma terra de futuro para os jovens”, que sofrem com taxas de desemprego de 30% a 40%, e têm pouca confiança em conseguir uma vaga de trabalho. Para reverter essa situação, a dirigente alemã aposta na “economia digital para motor de crescimento da União Europoeia” e única capaz de gerar novos empregos.

Merkel, que inaugurou o foro Digitising Europe, que reúne em Berlim representantes de multinacionais de tecnologia, especialistas do mundo digital, e representantes de vários governos, indicou que 90% dos novos empregos em um mundo globalizado são criados fora da Europa e que a aposta por novas tecnologias e a digitalização “não é uma oportunidade e sim uma necessidade” para reverter essa situação.

A indústria 4.0 é a única possibilidade da Europa voltar para os trilhos

A chanceler indicou que é preciso acelerar a Agenda Digital Europeia, e acertar uma regulamentação global que permita o desenvolvimento de projetos de empreendedores (start ups), com medidas fiscais, impulsionando as redes de nova geração e assegurando o acesso à Internet para toda a população, independentemente de onde vivam.

Merkel disse que administração, empresas e universidades devem trabalhar juntas para atrair investimentos em tecnologia em indústrias tradicionais como a automobilística, a química e transportes para que voltem a gerar empregos para os jovens. “A indústria 4.0 é a única possibilidade da Europa voltar para os trilhos”, disse referindo-se ao projeto de alta tecnologia que o Governo alemão promove para digitalizar os setores manufatureiros.

No foro, foi apresentada a macro pesquisa realizada pelo Instituto para a Sociedade e as Comunicações da Vodafone em vários países da Europa sobre as inquietudes trabalhistas dos jovens e suas perspectivas de futuro diante do desafio da nova economia digital. Na pesquisa, as juventudes da Espanha e da Itália se mostram as mais pessimistas e acreditam que deverão imigrar para encontrar um emprego e viverão pior do que a geração anterior.

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Nesse sentido, o executivo-chefe da Vodafone, Vittorio Colao, indicou que grande parte dos 900.000 empregos que serão criados na Europa no próximo ano virão do mundo digital mas, apesar disso, o estudo reflete a percepção negativa que grande parte da juventude tem, especialmente a do sul da Europa, da tecnologia como destruidora de empregos. Segundo o estudo, entre 30% e 40% dos jovens pensam que a revolução digital reduzirá o número de postos de trabalho e somente 10% a 20% (com exceção da Turquia) acreditam que trará mais empregos.

O diretor da operadora britânica enfatizou que da mesma forma que se fala de um mercado único de mercadorias na UE, deveria ser criado “um mercado único de emprego”, para aproveitar as oportunidades que a economia digital oferece.

Dessa forma, a Fundação Vodafone anunciou também um programa de bolsas para ajudar os jovens europeus de diferentes países a encontrar oportunidades de emprego em ambientes digitais.

Colao enumerou várias medidas para que a digitalização não só seja motor de crescimento econômico, como também de emprego. Entre elas, a de favorecer a extensão das redes de nova geração (fibra e 4G), promover a Internet das coisas, a conectividade das máquinas, a digitalização na educação e na administração. Assegurou também que é preciso uma regulação única que abarque da mesma forma empresas de telecomunicação e de Internet.

30% dos jovens acreditam que a revolução digital reduzirá os empregos

Sobre regulamentação, Merkel disse que se é necessário garantir um livre acesso e de qualidade para a Internet, existem “serviços críticos” os quais é necessário proteger e priorizar. Dessa forma, ainda que sem citar expressamente o conceito de neutralidade da Rede, emitiu opinião semelhante ao do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que já se mostrou a favor de uma rede aberta sem discriminação de acesso ou tráfego para todos.

O evento Digitising Europe manifestou em suas conclusões a necessidade de garantir um nível de alfabetização digital, que todo mundo tenha acesso aos equipamentos e à tecnologia que precisam para exercer suas habilidades, e sejam conscientes de seus direitos e obrigações como cidadãos digitais. Os especialistas pediram que os sistemas fiscais sejam revisados, abaixando o Imposto de Sociedades para start ups, a criação de uma Patente Europeia Unificada para proteger a propriedade intelectual orientada para inovação, e adaptar a legislação para novos projetos de economia colaborativa, como o Uber.