Epidemia na África

Sucesso na primeira fase de testes para vacina experimental do ebola

Imunização experimental testada nos EUA não produz efeitos adversos e causa resposta imune contra o vírus, segundo os resultados preliminares de testes em voluntários

Membros da Cruz vermelha carregam cadáver na Libéria.
Membros da Cruz vermelha carregam cadáver na Libéria.victor lacken (ifrc)

Enquanto o ebola continua fazendo vítimas na África Ocidental, os primeiros testes em humanos com uma das vacinas experimentais mais avançadas oferecem dados promissores. Esse processo se mostrou segura em voluntários sãos e conseguiu fazer com que esses desenvolvam uma resposta imune contra o vírus.

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O objetivo do teste, conhecido como fase 1, era analisar se o tratamento produzia efeitos secundários em 20 voluntários sem a doença. Mas os resultados preliminares do teste, publicados na quinta-feira no New England Journal of Medicine, também indicam que todos os participantes desenvolveram anticorpos contra o ebola e outros, além disso, tiveram uma maior resposta imune. É algo parecido com o já observado em macacos, os quais a vacina conseguiu proteger 100% do contágio. Agora é preciso ver se a resposta imune registrada nos voluntários é suficiente para acabar com o contágio em humanos.

“Com os resultados positivos do primeiro ensaio em humanos dessa candidata à vacina, continuamos com o plano acelerado para realizar testes maiores e determinar se a vacina é eficaz”, disse em um comunicado Anthony Fauci, diretor do Instituto de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA, que co-desenvolveu essa imunização. Esses testes seriam realizados na Libéria com número muito mais elevado de pessoal médico e pessoas com alto risco de contágio.

A vacina testada contém DNA das variantes Zaire e Sudão do vírus. A primeira é a responsável pelo atual surto na África Ocidental, no qual já foram registrados 15.935 casos e 5.689 mortos, de acordo com os últimos dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O tratamento foi desenvolvido pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA e a empresa Okairos, adquirida pela GlaxoSmithKline. Essa vacina usa um vírus de chimpanzé desativado para levar os fragmentos de DNA viral ao organismo para que esse aprenda a reconhecer e combater uma das proteínas que recobrem o vírus do ebola.

Agora é preciso ver se a resposta imune registrada nos voluntários é suficiente para acabar com o contágio em humanos

Nesse teste, dez dos voluntários receberam uma dose baixa e outros dez, uma alta. Todos desenvolveram anticorpos contra o vírus. Outro sinal promissor é que nove voluntários (sete de dose alta e dois de baixa) produziram também uma maior quantidade de células do sistema imunológico conhecidas como linfócitos T, que foram vitais nos macacos para protegê-los de doses letais do vírus.

A vacina cAd3-ZEBOV é um dos candidatos mais avançados, segundo a OMS. A outra (rVSV-ZEBOV) é a desenvolvida pela Agência Canadense de Saúde Pública em colaboração com a farmacêutica Merck, e começou a ser testada em pacientes sãos em outubro. Paralelamente, uma versão da cAd3-ZEBOV específica contra a variante Zaire está sendo testada em 60 voluntários no Reino Unido e com outro grupo semelhante no Mali.

Decisões difíceis

“É possível dizer que essa vacina passou com sucesso na primeira fase de testes em humanos”, opina Rafael Delgado, do Hospital Universitário 12 de Outubro e membro do comitê científico que está assessorando o Governo durante a atual crise do ebola. Entretanto, tratam-se de resultados provisórios, adverte. “Por enquanto não existe nenhuma demonstração de eficácia, mas sabemos que é razoavelmente segura e que pode passar para as fases 2 e 3 para provar sua eficácia em pessoas com risco de infecção”, acrescenta.

As fases seguintes de teste da vacina seriam realizadas na Libéria, um dos países mais afetados pelo atual surto. Os responsáveis pela vacina já estão negociando com o Governo desse país para elaborar os testes clínicos, informa os NIH. Neles, seria provada a eficácia dessa vacina em comparação com outras candidatas. Antes, precisarão recolher mais dados desse teste, que começou em setembro e teve uma duração de 48 semanas, e dos outros que estão sendo feitos. Não se espera que ocorra um anúncio da nova fase de ensaios até o começo do próximo ano, segundo informações dos NIH.

Os testes clínicos necessários para provar a eficácia das vacinas vão obrigar a serem tomadas “decisões difíceis”, alerta Daniel Bausch, médico especialista em doenças tropicais da Universidade Tulane dos EUA, em um editorial publicado junto com os resultados do novo estudo. O especialista se pergunta se podem ser realizados ensaios “clássicos” nos quais um grupo recebe um placebo no lugar de uma candidata à vacina ou se, pelo contrário, as duas vacinas candidatas serão comparadas em somente dois grupos, o que dificultaria averiguar sua efetividade real. Ainda que seja uma opinião polêmica, especialistas da OMS reconheceram que o uso de placebo em um grupo permitiria saber mais rápido se uma vacina é eficaz, de acordo com o The Guardian. “Esse problema ainda está sendo discutido e nenhuma decisão concreta foi tomada”, explica Delgado.

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