CRISE ECONÔMICA

A zona do euro evita a recessão, mas continua estancada

O PIB alemão avança 0,1% e o da França, animado pelos gastos públicos, 0,3%

Angela Merkel.Reuters-Live

As raízes vigorosas que o Governo diz estar vendo na recuperação espanhola se assentam em terreno pouco fértil. A zona do euro evitou por pouco a recessão no terceiro trimestre, embora siga na direção de um longo estancamento, com tendências deflacionárias e um desemprego em níveis desesperadamente elevados. O PIB dos Dezoito cresceu 0,2% no terceiro trimestre, depois do estancamento do trimestre anterior, segundo anunciou Eurostat, a agência de estatísticas da União.

A economia do euro continua em câmera lenta: o crescimento interanual limita-se a 0,8% no que significa uma recuperação muito fraca depois de uma dura crise financeira e uma recessão profunda. Depois de mais de seis anos de crise, a zona do euro continua sem recuperar os níveis de 2008 e se aproxima perigosamente de acumular uma década perdida: a crise existencial parece estar superada, mas seu legado – com um endividamento público e privado muito alto que dificulta a decolagem e uma gestão discutível da política econômica – continuará funcionando como lastro da economia europeia durante muito tempo.

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O FMI, o G-20 e os Estados Unidos lançaram sérias advertências nos últimos dias para que a Europa mude sua política econômica. A única resposta, por enquanto, é o anúncio de um plano de investimentos na Alemanha que supera por pouco o 0,1% do PIB alemão. A mudança na política monetária dos Estados Unidos, a desaceleração na China, a queda dos preços do petróleo e os conflitos geopolíticos são os graves riscos externos que dificultam a reativação na Europa. No entanto, os problemas mais importantes são endógenos: nem há investimento nem políticas monetárias ou fiscais suficientemente expansivas para desfazer o nó japonês em que se meteu a zona do euro. A ponto de algumas vozes avisarem inclusive que o futuro do euro volta a estar em discussão: o economista norte-americano Allan Meltzer foi ontem o último a subir no vagão daqueles que predizem uma ruptura da zona do euro, um grupo que não para de crescer e no qual aparecem basicamente especialistas norte-americanos, mas também destacados analistas europeus como Wim Buiter (Citi).

Mas isso, se chegar, será a longo prazo, e a longo prazo “todos estaremos mortos”, dizia John M. Keynes. Embora Keynes também tenha dito que a vida e a história “estão feitas de curtos prazos”. E o curto prazo não parece nada bom, tampouco tão feio quanto se mostrava: a Alemanha cresceu 0,1% no terceiro trimestre, a França, 0,3%, e a Espanha, 0,5%. O caso mais preocupante é o da Itália. O Produto Interno Bruto italiano experimentou uma contração de 0,1% no terceiro trimestre, o que implica a entrada da economia transalpina em recessão técnica, segundo os dados publicados por Istat. Também Chipre, no meio de uma crise oceânica que provocou um resgate da zona do euro, continua em recessão. No outro lado, Grécia, Eslováquia e Espanha encabeçam as cifras de crescimento, com aumentos superiores a 0,5% do PIB interanual.

O contraste da economia europeia com outras áreas econômicas é frustrante. Os Estados Unidos cresceram 0,9% no terceiro trimestre, com um aumento anual do PIB de 2,6%. A zona do euro cresce 0,2% trimestral e 0,9% anual. E, apesar do ativismo do BCE (ou talvez porque na realidade Frankfurt pode ter ficado curto em relação ao que fazem grandes bancos centrais), o IPC da zona do euro continua em níveis preocupantes, com um magro crescimento de 0,4% que dificulta o ajuste na periferia, o pagamento de volumosas dívidas e lembra perigosamente a década perdida do Japão.

Grécia, de lanterninha ao país do euro que mais cresce

A economia da Grécia não apenas conseguiu deixar para trás uma recessão de cinco anos, algo que já fez no segundo trimestre, mas que no terceiro registrou o maior ritmo de expansão entre os membros da zona do euro com um crescimento trimestral de 0,7%.

Segundo os dados publicados pelo escritório grego de estatística, Elstat, os primeiros nos quais é empregada a nova metodologia de cálculo do PIB, a Grécia havia conseguido sair da recessão já no primeiro trimestre de 2014, com um crescimento de 0,8%, que passou a ser de 0,3% no segundo.

Deste modo, a economia grega terminou com 18 trimestres consecutivos de queda da atividade econômica em dados trimestrais.

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