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Mudança climática ameaça deixar impactos irreversíveis

Um relatório mostra que o aquecimento já é um fenômeno global causado pelos humanos

Delegados durante as sessões do IPCC, em Copenhague neste fim de semana. Ampliar foto
Delegados durante as sessões do IPCC, em Copenhague neste fim de semana. AFP

Em cada rincão do planeta se nota o impacto da mudança climática. Mas é nas regiões menos desenvolvidas que suas consequências ameaçam ser mais dramáticas. Isso é apenas uma pequena parte dos alertas que acabam de ser lançados pelos especialistas ao mundo, especialmente aos políticos, durante a apresentação do relatório resumido publicado neste domingo pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Criado em 1988 pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o IPCC realiza avaliações periódicas sobre a mudança climática, seus impactos e as opções que existem para adaptar-se ou mitigá-la. Os principais destinatários de seus estudos científicos são os políticos.

O relatório, apresentado em Copenhague, resume as conclusões de três trabalhos apresentados no último ano e que integram o Quinto Relatório de Avaliação (AR5, em sua sigla em inglês) do IPCC. Suas 116 páginas condensam o trabalho de 830 cientistas de seis anos, bíblia da mudança climática. Nele, destaca-se o que está acontecendo, quem tem culpa, que consequências terá para o futuro e como podem ser contidos ou pelo menos mitigados seus impactos sobre o planeta.

“Nossa avaliação conclui que a atmosfera e o oceano se aqueceram, os volumes de neve e gelo diminuíram, o nível do mar se elevou e as concentrações de dióxido de carbono aumentaram a níveis sem precedentes há, pelo menos, 800.000 anos”, disse Thomas Stocker, copresidente do Grupo de trabalho I do IPCC, durante a apresentação do relatório.

O relatório insiste na origem antropogênica da mudança climática

Apesar de a reunião de provas não ter deixado de crescer nos últimos anos, é no AR5 que se afirma com mais certeza do que nunca a origem antropogênica da mudança climática: “As emissões de gases de efeito estufa e outros estímulos antropogênicos foram a causa dominante do aquecimento observado desde meados do século XX”, diz o IPCC em nota.

Os impactos da mudança climática já são percebidos em todos os continentes e oceanos. Mas, sendo um fenômeno global, suas consequências apresentam uma distribuição desigual. Por diferentes fatores, como sua localização geográfica, seu menor grau de desenvolvimento ou sua maior exposição aos fenômenos mais extremos do aquecimento, são as sociedades e os povos mais pobres os que mais estão sofrendo e sofrerão a mudança climática ­— e os que menos culpa têm.

“Muitas das pessoas mais vulneráveis à mudança climática não contribuíram ou contribuem para as emissões de gases de efeito estufa”, explicou na apresentação o presidente do IPCC, R.K. Pachauri. “Não será possível enfrentar a mudança climática se os diferentes agentes antepuserem seus próprios interesses de forma independente; os resultados positivos só serão alcançados com respostas coletivas, especialmente de cooperação internacional”, acrescentou.

Ainda estamos em tempo

O AR5 não se limita a descrever a situação e a desenhar um quadro negro. Na verdade, é dos relatórios mais otimistas dos que o IPCC já publicou. Há ciência e tecnologia suficientes para se adaptar aos efeitos da mudança climática e, o que é mais urgente, mitigar seu alcance.

“Temos os meios para limitar a mudança climática”, afirma Pachauri, que acrescenta: “As soluções são muitas e permitem o contínuo desenvolvimento econômico humano. Tudo de que necessitamos é vontade de mudança, e confiamos que essa vontade seja motivada pelo conhecimento e a compreensão da ciência da mudança climática”.

Os cientistas acreditam que uma economia baseada em baixas emissões de carbono, além de possível, é um negócio sustentável. O Relatório conclui que as estimativas de custos da mitigação, ainda que variáveis, não afetariam demais o crescimento econômico global. Se não se fizesse nada, estima-se que o consumo, indicador do crescimento econômico, crescerá entre 1,6% e 3% ao ano ao longo do século XXI. Com uma mitigação ambiciosa, que permitisse limitar o aquecimento a 2ºC, esses índices apenas se reduziriam em torno de 0,06 pontos percentuais.

“Em comparação com o risco iminente de impactos irreversíveis da mudança climática, os riscos da mitigação são razoáveis”, garante o copresidente do Grupo de trabalho III do IPCC, dedicado a estudar como combater a mudança climática, Youba Sokona.

Não nos resta muito tempo antes que a janela de oportunidade se feche", avisa Pachauri

Mas é preciso agir já. O relatório destaca que há várias vias para conseguir as reduções substanciais das emissões necessárias para limitar, com probabilidades de sucesso superiores a 66%, o aquecimento a 2ºC em relação aos níveis pré-industriais. No entanto, o AR5 também alerta que, se a mitigação adicional demorar até 2030, aumentarão consideravelmente os desafios tecnológicos, econômicos, sociais e institucionais para manter essa temperatura neste século.

“Não nos resta muito tempo antes que a janela de oportunidade de permanecer na margem dos 2ºC de aquecimento se feche”, avisa Pachauri e acrescenta: “Para ter boas possibilidades de permanecer abaixo dos 2ºC a custos razoáveis, deveríamos reduzir as emissões entre 40% e 70% em nível mundial entre 2010 e 2050, e diminuí-las a um nível nulo ou negativo em 2100. Temos a oportunidade, a escolha está em nossas mãos”.

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