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Precariedade e exclusão

A deterioração sofrida por amplos setores das classes médias e populares é uma séria ameaça à coesão social e deve estar entre as principais prioridades

As altas taxas de desemprego, a falta de perspectivas trabalhistas e a precariedade geral na qual vivem os jovens na Espanha estão chegando à Justiça em forma de sentenças que obrigam aos pais a seguirem pagando a pensão alimentícia aos seus filhos, inclusive quando esses alcançaram a maioridade faz tempo e têm carreira universitária.

Trata-se, em quase todos os casos, de pais divorciados que tinham deixado de pagar as pensões. Os tribunais, em conformidade com o artigo 3.1 do Código Civil que manda aplicar a lei “atendendo à realidade social”, pronunciaram sentenças que 10 anos atrás soariam insólitas, mas que, agora, respondem a uma situação cada vez mais dominada pela precariedade financeira, como assinalou o último relatório sobre exclusão e desenvolvimento realizado pela Fundação Foessa, vinculada à Cáritas.

O relatório analisa 35 indicadores sociais e permite observar o quanto a situação na Espanha se deteriorou por causa da crise. Só 34,3% dos espanhóis vivem em situação cômoda, com todas as suas necessidades cobertas; no último relatório, há seis anos, a porcentagem era de 50,2%. O documento revela que 40,6% da população sofre as consequências da precariedade, 24,2% sofre uma exclusão moderada e 10,9% está em situação de marginalização severa. São cifras preocupantes, às quais se deve somar a recente advertência do Unicef sobre outro indicador muito negativo: a pobreza infantil, que cresceu de 28% para 36% em cinco anos.

Estes relatórios mostram a deterioração sofrida por amplos setores das classes médias e populares, o que representa uma séria ameaça à coesão social. É uma situação que deve ser corrigida: a desigualdade é uma injustiça e um obstáculo ao crescimento e ao progresso econômico. Evitar a fratura social deveria estar hoje entre as mais altas prioridades.