Carros chineses na América do Sul

Fabricantes asiáticos compensam na região a queda em seus próprios mercados

Trabalhadores em uma fábrica da Chery.
Trabalhadores em uma fábrica da Chery.ZIGOR ALDAMA

A América do Sul se fortalece como o mercado mais propício para os fabricantes de carros chineses ansiosos por manterem seus altos níveis de produção e faturamento, numa fase em que as compras de veículos no mercado interno da China já não são tão expressivas. Com o olhar voltado sobretudo para Chile, Brasil e Peru, os produtores chineses vêm avançando sem pressa, mas sem pausa, no sentido de dominar a América a partir de dentro. A marca Great Wall já tem uma montadora no Equador, e a Chery possui fábricas no Uruguai, Venezuela e Brasil. Também a JAC Motors prevê produzir os primeiros veículos no gigante sul-americano em 2015, enquanto a BYD prepara o seu desembarque. Ao todo, segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL, um órgão da ONU), a indústria automobilística chinesa já investiu 6 bilhões de dólares (14,9 bilhões de reais) na região. Além da produção local, os fabricantes chineses exportaram 286.500 veículos para a América do Sul durante 2013, o que significa um aumento de 19% com relação ao ano anterior e 30% de todas as vendas do país asiático para o exterior.

No recente Fórum Anual Automotivo Chinês, realizado nas instalações da Escola Internacional de Administração China-Europa (CEIBS, na sigla em inglês) em Xangai, Dong Yang, secretário-geral da Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis (ACFA), relatou que as marcas chinesas já pisam fundo no acelerador fora das suas fronteiras, e antevê que isso em breve será muito evidente. “Nossas empresas aprenderam com os fabricantes estrangeiros a criar veículos de qualidade, além de solucionarem uma infinidade de problemas próprios de uma indústria que ainda é jovem na China, mas elas ainda estão quatro ou cinco anos atrasadas em termos de tecnologia”, afirmou o chefe da entidade empresarial.

Por isso, Isbrand Ho, chefe da divisão europeia da BYD, uma das empresas mais agressivas em sua expansão no exterior, considera que, diante da dificuldade de competir em igualdade de condições no campo dos motores a combustão, as marcas chinesas deveriam procurar se fortalecer no setor dos veículos impulsionados por novas energias. “No futuro, todos os veículos terão zero emissão [de carbono]. Nós temos a melhor tecnologia de baterias do mundo, e devemos fazer valer essa vantagem.” E, de fato, é isso que vem ocorrendo. Seus carros elétricos já percorrem as ruas de Barcelona, Londres e Bruxelas – mas só como táxis. “Nossa estratégia passa por colaborar primeiro com empresas de transporte público, que estão mais preocupadas com a economia propiciada por esses veículos, para que os usuários vejam que esses veículos funcionam corretamente e são cômodos. Assim criamos imagem de marca e preparamos a empresa para dar o salto.”

As exportações do setor automotivo chinês para a América do Sul já significaram 30% do total em 2013

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No caso da BYD, esse avanço significa a implantação de fábricas, centros de desenvolvimento e polos logísticos em outros países “A América Latina é prioritária para nós, por isso produziremos lá. Temos que nos tornar empresas locais”, diz Ho. Dito e feito: a empresa já está construindo no Estado de São Paulo as primeiras instalações da BYD nas Américas, onde 450 empregados fabricarão baterias recicláveis de fosfato de ferro e 1.000 ônibus elétricos por ano. “Essa é a primeira etapa da nossa expansão internacional”, disse Tyler Li, diretor da empresa para o Brasil.

A BYD não é a única marca chinesa que pretende fincar raízes fora do gigante asiático. A Great Wall também aposta firmemente em se instalar na América Latina. “Temos de lutar contra a percepção negativa que se tem das empresas chinesas, e uma forma de fazer isso é gerando riqueza onde fazemos negócios”, admite Roger Wang, diretor do Departamento de Comércio Internacional da Great Wall e responsável pelo mercado latino-americano. Sem dúvida, disso depende o objetivo da empresa de, até 2015, obter 30% do seu lucro no mercado externo.

Até agora, a marca chinesa líder nos segmentos de veículos 4 x 4 e caminhonetes já deu seus primeiros passos: criou a marca Haval, para diferenciar seus produtos de maior qualidade, e lançou uma agressiva campanha de imagem global, que inclui a participação de seus veículos no rali Paris-Dacar, que há cinco anos é disputado na América do Sul.

“Pelas características de nossos veículos, que são sólidos e desfrutam de uma grande relação preço-qualidade, consideramos que a América Latina é um dos mercados mais interessantes”, afirma Wang. Muitos compartilham dessa opinião. De fato, a região se tornou o maior importador de automóveis chineses. Concretamente, segundo a ACFA, adquiriu no ano passado 286.500 unidades, 19% a mais do que em 2012, e neste ano a entidade setorial espera que o ritmo de expansão cresça ainda mais. Assim, no Uruguai, as marcas chinesas obtiveram o ano passado nada menos do que 23% do mercado. No Peru, estima-se que elas já tenham 15%, além de 10% no Chile e pouco mais de 6% na Colômbia.

Esse crescimento, em alguns casos muito superior à expansão das empresas no mercado chinês, é um grande estímulo para a implantação na América Latina. O investimento chinês no setor automobilístico sul-americano, sobretudo no Brasil, atende também ao impulso dado pelo Partido Comunista Chinês às relações com os países latino-americanos. Possivelmente por isso, a estatal Chery é uma das que mais apostam nessa expansão. Já investiu mais de 300 milhões de reais na abertura de uma fábrica em Jacareí (SP), onde fabricará 50.000 pequenos automóveis por ano, e os 930 milhões da segunda fase ampliarão sua capacidade para 150.000 unidades em 2017. O objetivo é que, já em 2016, o Brasil responda por 11% do faturamento da empresa.

Dong Yang, entretanto, tentou abrandar um pouco o entusiasmo pelo mercado exterior e alertou para o perigo de uma rápida internacionalização das marcas chinesas. “Acredito que elas deveriam se centrar inicialmente na consolidação do mercado doméstico e em melhorar sua tecnologia. E depois sair mais devagar e com uma maior coordenação entre si.” Dong, porém, está convencido de que “no futuro se abrirão enormes oportunidades para as marcas chinesas em todo o mundo”.

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