elza soares

“Coração de brasileiro pulsa mais do que a mente”

Aos 77 anos, a cantora Elza Soares faz uma média de 15 de shows por mês, acaba de lançar um documentário e diz que não troca a realidade brasileira de hoje por outra

Elza Soares em 2013.
Elza Soares em 2013.

Casada aos 12 anos, o primeiro filho aos 13, o segundo aos 14. Perdeu ambos logo em seguida. Passou fome e batalhou muito para seguir adiante com a família que veio depois e com o eterno sonho de ser cantora e compositora. Alguém que viveu essas provações tem muita história para contar, e não são de tristeza. A carioca Elza Soares, de 77 anos, prefere se mostrar através da música e de uma energia inesgotável, traduzida em uma média de 15 shows por mês, cuidados com o corpo e uma falta total de rodeios para dizer o que pensa.

Só no que resta de outubro, a agenda de Elza inclui ainda dois shows em São Paulo (nos dias 30 e 31, apresenta, com o rapper Emicida, no Cine Jóia o Show a Voz e a Máquina). Em dezembro, grava em Porto Alegre seu próximo DVD: Elza Soares canta e chora Lupicínio Rodrigues.

Política e futebol – cujos tempos áureos ela viveu ao lado do craque Mané Garrincha, seu companheiro por mais de 16 anos – são temas que ela não evita, especialmente em um ano em que o Brasil discutiu e ainda discute (muito) os dois. Considera-se uma mulher em prol “das mulheres, dos gays e dos negros”, que celebra a vida e vive o presente – como mostra o documentário My name is now sobre sua vida, dirigido por Elizabete Martins, e recém-lançado no Festival do Rio.

"Eu sou de um tempo em que o futebol era de bandeiras e chuteiras, não de dólares e euros"

Em entrevista ao EL PAÍS na sala do seu apartamento, no bairro carioca de Copacabana, Elza conta que decidiu votar em Dilma, pois acha que não é preciso “trocar nada”.

Pergunta. Você se recuperou há pouco tempo de algumas cirurgias na coluna, mas continua fazendo um monte de shows e ainda cuida bastante do corpo. O que a faz subir no palco sempre, sem esmorecer?

Resposta. Estou me recuperando ainda, com muita fisioterapia. Primeiro foi a cervical, depois a lombar… Fui operada "do cóccix ao pescoço", como diz o título de um CD meu. Mas estou bem, como você vê. Estou me recuperando, porque tenho muita força. O palco é isso, é força, é fazer o que eu sempre fiz. Malhar, eu continuo malhando. Não vou malhar como antes, quando corria na areia, escalava, ia para a academia… Mas meu personal trainer vem em casa, e me exercito, faço terapia, cuido da alimentação.

P. Como é o seu dia a dia?

R. Continua a mesma coisa. Isto é: My name is now, como diz o título do filme que estreou agora. Minha trajetória não mudou tanto, não. É lutar sempre, todos os dias.

Retrato de 2013.
Retrato de 2013.Rodrigo Braga

P. O que você achou do documentário? Teve alguma parte mais difícil de gravar, alguma passagem mais sensível?

R. Minha história é muito difícil de ser contada, mas é muito fácil se for mostrada. Acho que quem tem uma história, tem vida e quem tem vida está aí. Amei o documentário. Acho que, pelas boas críticas, o documentário ficou mesmo bonito. A Elizabete Martins teve muito cuidado em fazê-lo, e fiquei feliz com o resultado.

P. Você acha que o público reage ao seu trabalho hoje de uma maneira diferente ou como sempre reagiu?

R. Mudou para melhor. O público que eu tive sempre foi muito fiel, e agora os filhos desses fiéis me acompanham, então tenho aí uma garotada muito boa, sempre querendo saber ‘o porquê da Elza’, por que a Elza isso, por que a Elza aquilo… E as pessoas que me respeitavam continuam me respeitando da maneira que sempre foi. Quando se faz um trabalho sério, com dignidade, respeitando as pessoas, você é respeitado.

"Dizem que o Bolsa Família deixa o cara parado, sem trabalhar. Eu vejo o contrário: quem tem o estômago cheio, pode sair de casa e trabalhar"

P. Estamos vivendo um ano difícil no Brasil, atribulado primeiro com a Copa do Mundo e agora com as eleições. Soube que você chorou no dia em que a seleção brasileira perdeu da Alemanha por 7 x 1. O que aconteceu?

R. Acho que todo o Brasil ficou tocado. 7 a 1… Deixa eu te dizer uma coisa. Eu sou fanática por futebol. Aqui na mesa, como você pode ver, está um livro do Garrincha, lindo, feito por um francês que recolheu fotos e fatos da vida do Mané. Eu sou de um tempo em que o futebol era de bandeiras e chuteiras, não de dólares e euros. Aliás, até parabenizo quem teve tanta inteligência para transformá-lo num negócio, mas eu ainda sou do futebol do amor, da beleza, da arte. Hoje, ficou muito profissional. Muito. A gente sente saudade do tempo do romantismo – ainda que eu deteste essa palavra, “saudade”. Mas gosto muito de me lembrar do futebol com graça e beleza. Não tinha tanto pontapé. Me chocou muito o Neymar levar aquela contusão terrível na coluna e ficar fora do jogo, entendeu?

P. Você falou uma vez que veio do “planeta fome” e do “planeta racismo”. Esses planetas ainda existem?

R. Sim, existem. Mas existe também o combate. Dizem que o Bolsa Família deixa o cara parado, dentro de casa, sem trabalhar. Eu vejo o contrário: quem tem o estômago cheio, pode sair de casa e trabalhar. O que não pode é trabalhar com fome, como eu, que sofria fome. Eu sei o que é isso. Mesmo sabendo que temos muito o que melhorar, na educação, na cultura, na saúde, eu não trocaria. Nada. Não daria pra trocar ainda. E, além disso, nós, eleitores, seres humanos, temos uma mania muito grande: a gente elege e fica em casa esperando. “Você foi eleito, vem varrer meu quintal!”. Não! Vamos à luta! Vamos cobrar as pessoas. Falta essa consciência. Você foi eleito, eu te ajudei, agora vai me ajudar. Vamos combater isso, combater aquilo. Política é política. Não tem melhor, nem pior. Eu não troco o que está acontecendo agora. Hoje eu vou pro aeroporto e vejo gente pegando avião que nunca vi antes. Vejo mais crianças na escola, mais faculdade. Até a adolescência, eu passei muitos anos em frente à faculdade, mas do outro lado da calçada. Quem era eu para passar na porta da faculdade? Era capaz que alguém gritasse “pega ladrão, está querendo entrar!”. Hoje tem muitos negros entrando na faculdade. Isso quer dizer jogar negro contra branco? Não é jogar nada! Simplesmente, a coisa foi mais facilitada. Só não estuda hoje quem não está com vontade mesmo.

P. Que qualidades você acha que um presidente tem que ter para governar o Brasil?

R. O presidente tem que estar junto com o povo, porque ele foi eleito pelo povo e tem que estar ali, ao lado dele. Esse negócio de quem mente mais e quem mente menos é política. O cara está ali pra ganhar. Agora, você não pode ser tão ingênuo, tão ignorante, porque você está vendo o que está acontecendo, entendeu? Viver é uma arte, e a vida faz com que você entre muito dentro da política, não dá para fugir. Somos políticos já natos. Por isso, eu não trocaria nada. Aliás, não vou trocar. Vou votar na Dilma, todo mundo sabe disso. E acho que ela vai ser eleita, e a gente vai ter que cobrar depois, corrupção, cultura, educação, saúde, combate à miséria… Esse país é muito rico! Falar de miséria no Brasil, um país onde tudo o que se planta dá, onde nasce até o que não presta? Acho que é por aí. No meu filme, eu não quis falar muito, eu e a Bebete quisemos fazer algo mais suave, até porque se eu tivesse falado muita coisa, já estaria presa. Como já fui expulsa do país uma vez… Estou com medo que isso aconteça de novo.

R. Por que você foi expulsa nos anos 70?

R. Me expulsaram, expulsaram o Garrincha, e até agora ninguém sabe por quê. Minha casa foi metralhada, e ninguém sabe explicar como foi… Meus filhos foram pra rua, e ninguém sabe explicar como foi… Então, tenho muito medo de reviver essa história. Diz que "gato escaldado de água fria tem medo”. Miau! Sou uma gata.

P. Você já chegou a dizer que o brasileiro é o povo mais inocente. Por quê?

R. Acho que somos inocentes demais. Acreditamos em tudo, somos muito bonzinhos… O coração da gente pulsa mais do que a mente. É isso aí… E, pra deixar uma coisa clara, nunca tive patrocinadores. Quem me patrocina sou eu. Tenho livre arbítrio para dizer o que sinto. Se alguém chegasse e me oferecesse 10 milhões, que beleza. Mas ninguém nunca ofereceu nada. Em 2000, ganhei o prêmio A voz do milênio da BBC, porque viram que a minha era uma voz de garra. Respeito muito a mulher, os gays e os negros, que pra mim são prioridade. Isso é Elza Soares. Esse pedacinho de mulher que você vê, mas com uma garra imensa.