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EDITORIAL

Surpresa eleitoral

Derrota de Marina Silva devolve a disputa presidencial aos dois grandes partidos

A grande surpresa do primeiro turno da eleição presidencial brasileira é a presença na rodada definitiva, em 26 de outubro, de Aécio Neves como rival de Dilma Rousseff, a oito pontos percentuais de distância. A realidade validou o resultado que as pesquisas previam há três meses, mas que depois foi arrasado pela onda que colocou Marina Silva como antagonista direta da presidenta. Ainda na semana passada, o centro-direitista Neves, a quem a Bolsa saudou nesta segunda-feira com uma alta de 8%, parecia descartado na disputa pela chefia do Estado.

O desejo de mudança que capturou a imaginação dos brasileiros não serviu para manter na carreira a aspirante que a priori melhor o encarnava. Silva foi rechaçada não só pela eficaz campanha de descrédito impulsionada por Rousseff – que colocou em dúvida seu compromisso com os mais desfavorecidos – ou por ter menos tempo de televisão e menos recursos que seus adversários. A fama de imprevisível que a acompanha foi igualmente determinante para a sua queda, apesar de ela ter obtido respeitáveis 21%, sem o apoio de nenhum grande partido.

A presidência brasileira será resolvida, portanto, entre as duas grandes formações dominantes há duas décadas. Duas máquinas políticas formidáveis a serviço de concepções díspares no campo econômico, argumento básico destas eleições: o capitalismo de Estado do governista Partido dos Trabalhadores (PT) e a política de livre mercado de Aécio Neves. O Brasil está em recessão, seu déficit orçamentário não para de crescer, a inflação se aproxima dos 7%, e o real perdeu um terço do seu valor frente ao dólar. Toda a impopularidade que essa situação acarreta para Rousseff é compensada, aos olhos dos mais pobres, por suas políticas de emprego e ajudas sociais.

Para vencer a presidenta, Neves, abençoado pela grande economia, terá de convencer muita gente de que o renascer que ele anuncia não se dará à custa dos programas que tiraram milhões da miséria. Nisso poderia ser decisivo o apoio de Marina Silva, que parece inclinada a avalizar ao candidato que mais se aproximar das suas políticas. As receitas econômicas de ambos não diferem muito, como ficou claro na campanha. A transferência de votos esquerdistas, no entanto, torna-se mais improvável quando se leva em conta outras questões, como o insuportável elitismo que Neves encarna aos olhos de muitos brasileiros.