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Morre Emilio Botín
TRIBUNA

O guarda-chuva do banqueiro

Com grande visão e lucidez, Emilio Botín manteve muitos guarda-chuvas abertos em tempos de dilúvio

A Espanha e a América Latina devem a ele muito mais do que aparece nos balanços de seus bancos

Emilio Botín (à direita) conversa com Juan Luis Cebrián em 2007.
Emilio Botín (à direita) conversa com Juan Luis Cebrián em 2007.

É famosa a frase de Mark Twain segundo a qual "um banqueiro é alguém que empresta um guarda-chuva num dia de sol e o pega de volta quando chove". Se o brilhante escritor americano tivesse conhecido Emilio Botín, admitiria que sempre existem exceções que confirmam a regra. Emilio era uma dessas exceções, alguém certamente atípico entre os membros de sua tribo, dotado de um instinto fabuloso para os negócios, mas também possuidor de um genuíno compromisso social e político. Sua morte inesperada abre questões não só sobre o futuro do banco que presidia, onde a continuidade de suas políticas parece garantida, mas também, e sobretudo, sobre o vazio que deixa em setores relevantes do cenário espanhol e internacional. Entre esses setores, destacam-se a sua contribuição e apoio ao desenvolvimento da universidade e sua discreta, mas poderosa, influência na configuração da nossa democracia.

Conheci Botín há décadas, quando Jesús de la Serna me chamou para a redação do jornal Informaciones, adquirido no final dos anos sessenta por um grupo de bancos liderado pelo Santander. Graças ao apoio deste fomos capazes de desenvolver um jornal decididamente partidário da causa da liberdade nos anos difíceis do tardofranquismo. Quando um ministro da Opus Dei, propagandista do crepúsculo de qualquer ideologia que não fosse a sua, exigiu ao patriarca da família a minha defenestração, o Senhor Emilio, pai de quem agora nos deixa, respondeu de imediato com um recado ao meu diretor: quero conhecer esse tal de Cebrián e que aumentem o seu salário. Sempre me recordei dessa história, reveladora do caráter dessa saga de cântabros imperturbáveis, cuja condição de cidadãos globais é capaz de conviver com seu forte apego à terra onde nasceram. Desde então, foram muitas as ocasiões nas quais, de uma forma ou de outra, tive a oportunidade de testemunhar a visão e a coragem dessa estirpe de banqueiros, cujos membros mantêm um compromisso ativo com o mundo da filosofia, da arte e da educação, sem renunciar por isso às suas responsabilidades profissionais.

Não são estes os tempos mais adequados para um elogio aos bancos, que, pela natureza de sua própria atividade, incitam com frequência à expressão de iras e ressentimentos, muitas vezes agitados pelo populismo político. Mas, admitindo os excessos e injustiças decorrentes do funcionamento do sistema financeiro, e por mais que pese a seus detratores, a figura de Emilio Botín brilha com luz própria entre aqueles que contribuíram de forma ativa para a melhoria da sociedade espanhola, para o prestígio do nosso país no mundo e para o desenvolvimento dos nossos padrões econômicos e intelectuais.

Destacam-se sua contribuição e apoio ao desenvolvimento da universidade e sua discreta, mas poderosa, influência na configuração da nossa democracia

Os numerosos diálogos que tive com ele em vida, sempre marcados pela sobriedade de suas palavras e por sua admirável capacidade de escutar, foram um exemplo claro de suas convicções liberais e seu decidido apoio a quantas instituições oficiais ou da sociedade civil pudessem contribuir para consolidar a democracia em nosso país. Realizou essa tarefa muitas vezes contra a opinião de seus assessores técnicos, que viam um amontoado de riscos onde ele só vislumbrava oportunidades. Sabendo que o dinheiro, nas palavras de McLuhan, é acima de tudo um meio de comunicação, parecia capaz de multiplicá-lo como no milagre dos pães e dos peixes, conjugando os interesses do banco com o seu desejo de fazer uma Espanha melhor, sem aspirações de promoção pessoal, possuidor como era de um protagonismo limitado.

A figura de Emilio Botín brilha com luz própria entre aqueles que contribuíram de forma ativa para a melhoria da sociedade espanhola

Sofreu como ninguém com as dificuldades da Ferrari na Fórmula 1, sem que isso o levasse a renunciar ao esforço investido, e desfrutou como ninguém com os reitores, professores e alunos das universidades que generosamente patrocinou. Com uma visão e uma lucidez que teriam surpreendido o próprio Mark Twain, manteve muitos guarda-chuvas abertos em tempos de dilúvio. A Espanha e a América Latina devem a ele muito mais do que aparece nos balanços de seus bancos. E, essa sim, é uma dívida totalmente impagável, por mais que melhore a conjuntura.

Juan Luis Cebrián é presidente do EL PAÍS e do Grupo Prisa.

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