Coluna
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Só Silvio Santos não envelhece

Os anos se acumulam empilhados pelos cantos da casa. Descemos a ladeira rumo à escuridão, de onde não se retorna jamais

Almocei, no fim de semana, com um casal de amigos que há muito não via. E, como acontece em reuniões desse tipo, após falarmos de assuntos relativos ao presente (a filha deles embarcava para um intercâmbio no exterior), passamos a evocar coisas e gentes do passado, da época em que levávamos e buscávamos as crianças no jardim de infância. E um clima de alegre conivência se instalou à mesa, conivência de pessoas cujos caminhos se entrelaçaram um dia, marcando a ferro recordações comuns.

Voltei para casa melancólico. Afinal, nesses momentos, para além da satisfação do reencontro, ata-nos um peso às costas, como se os ombros suportassem o mundo. Repassei então os vários rostos sem nome e nomes sem rosto daquele período, procurando identificá-los no caos do calendário da memória, que, por capricho, não obedece às regras do tempo sucessivo, mas armazena cenas e paisagens desconexas, reanimadas, em meu caso, principalmente por cheiros e ruídos. E mergulhei na areia movediça das lembranças.

Num átimo, estava novamente em Cataguases, vestindo um corpo magro e pálido, o rosto vulcânico, triste como são tristes as manhãs de domingo de quem não tem ninguém para cuidar. Adolescente, percebia os sutis rastros do tempo nas flores que murchavam quando colhidas, no lento tiquetaquear dos ponteiros do relógio-despertador – percorridos os anos, no entanto, compreendi que não há suavidade no curso do tempo, ele é como as águas turbulentas de um rio, que arrastam todos os que vão peregrinos às suas margens.

Curiosamente, não foi a morte que me revelou a finitude de tudo. De quando em quando, partia alguém conhecido, por doença, acidente ou cansaço, jovem ou idoso, mas tratava-se de fato transcorrido dentro da normalidade da vida, que não tem sentido algum. A morte não me assustava ainda, talvez por não sabê-la cruel, injusta e arbitrária. A morte interrompia uma conversa, uma viagem, uma trajetória – mas ocorria longe de meus olhos, no silêncio dos hospitais, na solidão das estradas, nas profundezas da noite. Trágica, porém distante.

A consciência de que ao primeiro choro iniciamos a contagem regressiva me chegou com as aparições espasmódicas de um tio, F., irmão de minha mãe, notório por sua beleza e entusiasmo pela existência. Sempre que se dirigia ao Rio de Janeiro, vindo de Rodeiro, em movimentações até hoje para mim incompreensíveis, passava por nossa casa, espremida entre outras num pobre cortiço da Vila Teresa, em Cataguases. Suas visitas, que duravam nada, não observavam uma congruência, mas pelo menos umas cinco vezes por ano seus olhos azuis assomavam porta adentro, irônicos e simpáticos.

Tantas que, à medida que crescia, pude notar nele significativas mudanças, como as primeiras rugas encimando a testa, os primeiros cabelos brancos ilustrando as têmporas, os primeiros resmungos de dores generalizadas pelo corpo. Eu acompanhava mudo sua derrocada (naquela quadra, envelhecia-se prematuramente, uma mulher de trinta anos era senhora, um homem de quarenta, avô). Entretanto, somente quando, numa tarde em que dezembro invadiu marcial o espelho do meu quarto, recebi a notícia de sua morte, é que me dei conta de que, sim, inexoravelmente envelhecíamos.

F. tinha a idade que somo agora. Provavelmente, seu retrato oval, sépia, anda pendurado na casa de um dos filhos, e alguém, num dos encontros familiares, pensa nele, com saudades. Os anos se acumulam empilhados pelos cantos da casa. Desde aquele verão, em que tive a certeza de que perdemos coisas pelo caminho – dentes, cabelos, ilusões –, coleciono angústias, guardadas com cuidado em gavetas e armários. Descemos a ladeira rumo à escuridão, de onde não se retorna jamais. Por isso, as noites habitam pesadelos.

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