Soros culpa o Bank of New York pela crise da dívida da Argentina

O magnata, credor de títulos públicos da Argentina, abriu um processo contra o banco norte-americano e não contra Buenos Aires pelo não pagamento de juros

A Argentina recebeu na segunda-feira uma notícia positiva para seu esforço de mostrar ao resto do mundo que tem razão em sua briga com a justiça dos EUA devido à decisão judicial que bloqueou o pagamento de sua dívida reestruturada em 2005 e 2010. O Governo de Cristina Kirchner negou que tenha suspendido o pagamento de alguns títulos públicos em 30 de julho e reiterou que depositou o dinheiro dos juros com vencimento nesse dia em uma conta do agente fiduciário The Bank of New York Mellon e que foi esse banco que não encaminhou o dinheiro aos destinatários, obedecendo ordem do juiz nova-iorquino Thomas Griesa. Agora, segundo a agência Bloomberg, um dos 30 maiores milionários do mundo, o húngaro-norte-americano George Soros, 84 anos, está movendo uma ação contra o The Bank of New York por falta de pagamento de seus títulos argentinos.

Até agora não se tem conhecimento de litígios contra a Argentina pela inadimplência de 30 de julho, embora o próprio ministro da Economia, Axel Kicillof, tenha admitido essa possibilidade na semana passada. Nesse dia, a Argentina não pôde fazer o dinheiro chegar aos credores de dívida reestruturada nos Estados Unidos, Reino Unido e Japão porque o juiz Griesa, também de 84 anos, decidiu que primeiro deveriam ser pagos os chamados “fundos abutres” e outros credores que tinham recusado o refinanciamento. O Governo de Kirchner se negou a pagar os “abutres”, argumentando que não ia privilegiar os 7,6% que desaprovaram a reestruturação com um pagamento melhor que os 92,4% que a aceitaram. O Executivo argentino convocou os credores a mover uma ação contra o The Bank of New York e enviou um projeto de lei ao Congresso de seu país para trocar esse agente fiduciário pela estatal Nación Fideicomisos, que pagaria os títulos na Argentina, em lugar de fazê-lo no exterior.

Além do fundo de investimentos de Soros, Quantum Partners, outros, como o Hayman Capital, também moveram ações em Londres contra o banco norte-americano porque ele tem em seu poder títulos argentinos emitidos sob as leis britânicas. Juristas consideram que a justiça dos EUA se excedeu ao bloquear o pagamento desses títulos e os de jurisdição japonesa. No Reino Unido, a Argentina devia pagar em 30 de julho cerca de 226 milhões de euros (680 milhões de reais), que ficaram congelados na conta que o The Bank of New York tem no Banco Central do país sul-americano.

Soros tem títulos argentinos emitidos em Londres e considera que um juiz de Nova York não pode bloquear os pagamentos

O chefe do fundo Hayman Capital, Kyle Bass, opinou que o banco norte-americano violou suas obrigações porque, segundo ele, o juiz Griesa não tem poder de decisão sobre os títulos emitidos em Londres. “Nossos títulos são regidos pela lei britânica, que não se pronunciou. Enquanto não houver uma decisão semelhante no Reino Unido, eles nos devem o pagamento de nossos juros”, disse Bass. Um advogado de credores italianos também opinou que seus clientes deveriam processar o banco e os aconselhou a aceitar a troca de dívida que Kirchner está oferecendo agora para pagar em Buenos Aires. A troca também será aprovada pelo fundo do mexicano David Martínez, dono de 5% do Banco Sabadell e com investimentos na Argentina em televisão, telecomunicações e títulos públicos sob legislação londrina. Em contrapartida, investidores institucionais norte-americanos dificilmente aceitarão uma troca que o juiz de Nova York qualificou de “ilegal” porque procura esquivar-se de sua sentença.

No segundo trimestre de 2014, antes da crise da dívida argentina, o fundo Soros Fund Management dobrou para 3,5% sua participação na petrolífera reestatizada YPF, convertendo-se assim em seu quinto maior acionista, depois do Estado (51%), do mexicano Carlos Slim e dos fundos Lazard e Mason. Interessa a Soros o potencial desenvolvimento da jazida de hidrocarbonetos não convencionais de Vaca Muerta, no sul da Argentina, da qual a YPF possui um terço. A carteira de Soros também inclui ações do Facebook, Apple, AIG, American Airlines, Microsoft, Intel, Time Warner, Google, Hertz e Dow Chemical.

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