Tribuna
i

O novo banco dos BRICS

As reuniões das potências emergentes foram mais retóricas que práticas. Por isso é importante a criação da entidade creditícia

Os líderes dos BRICS posam na reunião de Fortaleza.
Os líderes dos BRICS posam na reunião de Fortaleza.Nelson Almeida (AFP / Getty)

Os últimos anos foram difíceis para as economias dos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

A previsão de crescimento do Brasil caiu consideravelmente devido à parada do superciclo das matérias primas; as adversidades políticas da Rússia reduziram suas reservas; a moeda da Índia sofreu um importante revés já que seus níveis de dívida superaram o apetite do mercado; e a África do Sul esteve assolada pela corrupção e os conflitos trabalhistas. Somente a China deitou por terra as expectativas de que se produzisse um estouro iminente da bolha e manteve um crescimento sério. Portanto, não é de se estranhar que Jim O´Neill, o executivo da Goldman Sachs que cunhou o termo BRICS, afirmasse no ano passado que se tivesse de fazê-lo outra vez, não seria um acrônimo em absoluto, mas somente o “C” de China.

As reuniões dos BRICS que são realizadas anualmente desde 2009 foram parecidas, mais retóricas que substanciais, até agora. O Brasil, que surpreendeu o mundo ao conseguir que todos estádios ficassem em pé durante a Copa do Mundo, também trabalhou para organizar a primeira reunião dos BRICS que passou da retórica para a ação. 

Mais infraestrutura do que investimento militar

O Novo Banco de Desenvolvimento que foi anunciado há algumas semanas implica a criação de uma plataforma de crédito coletiva dirigida exclusivamente para os países do BRICS. Com um capital autorizado de 100 bilhões de dólares (226 bilhões de reais), poderia emprestar até 34 bilhões de dólares (76 bilhões de reais) por ano. A forte atenção prestada para a infraestrutura é lógica: dois terços dos países do mundo são construções pós-coloniais que estão desmoronando materialmente – em particular a própria Índia – e que necessitam desesperadamente de um incremento a longo prazo dos investimentos em infraestrutura. Os orçamentos nacionais incluem, na somatória, um bilhão (2,26 bilhões de reais) dos três bilhões de dólares (6 bilhões de reais) de gasto em infraestrutura necessários somente para manter os atuais níveis de crescimento do PIB.

Não é um eufemismo dizer que se trata de uma nova classe de banco para uma nova ordem mundial. Pela primeira vez na história, o gasto em infraestrutura supera habitualmente o gasto militar. As cidades, os edifícios, as estradas, as torres de telecomunicação, os cabos de internet e outra classe de ativos representam até dois bilhões de dólares (4 bilhões de reais) por ano no gasto mundial, um pouco mais que os 1,7 bilhões de dólares (3,84 bilhões de reais) gastos em Defesa, mas a diferença é cada vez maior. O financiamento da infraestrutura é hoje em dia um instrumento da geopolítica tão ou mais importante que as alianças militares.

Nascido do ressentimento com o banco mundial

Portanto, o Novo Banco de Desenvolvimento não apenas nasceu do ressentimento pelo fato dos principais doadores do Banco Mundial e do FMI se aferrarem tenazmente em suas excessivas quotas de voto, mas que também reflete uma diferença na filosofia sobre a necessidade de dar primazia a infraestrutura física sobre outras prioridades (como a educação, a saúde, os direitos das mulheres, etc.) das que o Banco Mundial orientou nas últimas décadas. De um ponto de vista holístico, estes investimentos são fundamentais para uma prosperidade e um bem-estar nacional equitativos, mas nada cria empregos e impulsiona literalmente a “construção do Estado” como a infraestrutura.

As consequências da crise financeira demonstram que o estímulo fiscal, especialmente o gasto na formação de capital fixo bruto (um elemento importante da infraestrutura) gera benefícios muito mais importantes para o crescimento do PIB que unicamente o estímulo monetário. Os EUA fizeram sobretudo esse último, enquanto a China fez ambas as coisas.

É inegável que a pressão dos BRICS fez com que a atenção internacional passe a centrar-se nisso. Na reunião do G-20 do ano passado realizada na Rússia se anunciou uma Linha de Crédito Mundial para Infraestrutura (GIF, na sigla em inglês) com o propósito de aumentar os recursos financeiros para a criação de emprego e os investimentos que incrementam a produtividade, assim como um Fundo de Preparação de Projetos (PPF, na sigla em inglês) para ajudar que os projetos de infraestrutura dos países se tornem mais atrativos para os mercados de capitais. Mas ainda que o G-20 seja um bom mecanismo de avaliação por iguais (e de pressão por iguais), não é uma entidade creditícia.

Cumprir os objetivos do G-20

Portanto, o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS pode cumprir os elevados objetivos do G-20, mas também deveria servir de ponte para canalizar o excesso de liquidez e de economia mundial de aproximadamente 75 bilhões de dólares (169 bilhões de reais) (nas mãos de fundos de pensão, fundos de riqueza soberana, gestoras de grandes patrimônios, etc.) para os projetos de infraestrutura essenciais mediante a associação com o Organismo Multilateral de Garantia de Investimentos (OMGI) e com outras instituições financeiras e não financeiras que podem fazer mais atrativos investimentos que, do contrário, seriam de alto risco, através de acordos com seguradoras, de investimentos protegidos da inflação e de outros instrumentos. Em sua busca de uma rentabilidade honesta no mundo posterior à relação quantitativa, é provável que a comunidade mundial de investimentos participe dos projetos do banco dos BRICS sempre que se tomarem essas medidas para obter rendimentos honestos.

É inegável que o objetivo da geração de investimentos em infraestrutura imediata, forte e a longo prazo é elogiável, e é tão importante, na realidade, que seu cumprimento não deveria depender somente dos BRICS. De fato, não se pode esquecer do desacordo que existe entre os membros dos BRICS e que poderia dificultar a missão do Novo Banco de Desenvolvimento nos próximos anos. Não é precisamente um segredo que até a decisão de quem abrigaria o banco foi um dos diversos problemas que quase frustram por completo o anúncio.

Na última hora, ficou acordado que a China e a Índia criariam o banco no primeiro ano, localizado provavelmente em Xangai e cujo diretor seria indiano (e então ficariam com o cargo diretores da Rússia, Brasil e África do Sul).

Também convém recordar que a China acabou de criar seu próprio Banco Asiático de Infraestrutura, que rivaliza, de fato, com o Banco Asiático de Desenvolvimento dominado pelo Japão e com sede em Manila, e não convidou a Índia para incorporar-se a ele. É evidente que a China está aumentando sua atividade creditícia através de numerosas plataformas, e sabe muito bem que o financiamento da infraestrutura é um instrumento que os BRICS podem utilizar não só coletivamente, mas também internamente.

Parag Khanna é escritor e pesquisador da New America Foundation.

© 2014 The WorldPost / Global Viewpoint Network. Distributed by Tribune Content Agency, LLC.

Arquivado Em: