Coluna
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Gaza, além da faixa

Gaza não é uma estreita faixa de terra, mas uma imensa região que sangra copiosamente em, pelo menos, três hematomas

Com o cessar-fogo, é mais fácil avaliar a extensão do incêndio: logo se percebe que Gaza não é uma estreita faixa de terra semiarrasada, com seis ou doze quilômetros de largura. É uma imensa região -- coração do Oriente Médio -- que sangra copiosamente em, pelo menos, três hematomas.

O conflito Israel versus Hamas, ora suspenso, é apenas um deles. Outro é a guerra civil na Síria onde o governo enfrenta há três anos rebeldes de diferentes etnias e convicções. O terceiro localiza-se no Iraque, parcialmente ocupado por um levante de fundamentalistas de origem waabita (a mesma dos sauditas), que pretendem chegar à Síria para formar um novo califado, o Estado Islâmico do Iraque e Levante.

No momento, ameaçam arrasar o enclave dos curdos no norte do Iraque, razoavelmente próspero e autônomo, para chegar às montanhas onde se abrigam os yazidis (minoria também curda, oriunda do zoroastrismo).

A nova ofensiva do exército pró-califado, nesta quinta, levou o presidente Barack Obama a autorizar os ataques aéreos a alvos selecionados no Iraque, três anos depois da retirada das tropas americanas do país. Considerando que o chamado Curdistão compreende não apenas o Iraque, mas também parte da Síria e principalmente a Turquia, evidencia-se a extensão desta Grande Gaza que a trégua informal entre Israel e o Hamas permite entrever.

Esta assustadora convulsão ao sul de um império russo subitamente tornado insano com a derrubada do seu títere, Viktor Yanukovich, na Ucrânia, recria justo no centenário da Grande Guerra um cenário de entrelaçamentos e vinculações, efeitos-dominó e efeitos-cascata de triste memória. As rememorações com entonação pacifista começam a ser substituídas por um “espelhismo” compulsivo que tenta assemelhar dissemelhanças mesmo em circunstâncias, momentos e com teores diametralmente opostos.

Aflitas Cassandras já se movimentam: agosto com seus habituais desgostos e setembro com a lembrança do início da 2ª Guerra Mundial, ao invés de estimular remissões inspiradoras cria um culto determinista e fatalista que só agrava a asperezas da realidade.

O tabuleiro da 3ª Guerra Mundial não está armado, sequer pode ser cogitado. O impensável permanece impensável, distante. A atual turbulência tem ingredientes capazes de desativa-la e mesmo crenças baseadas na autoimolação e no sacrifício são insuficientes para anular no ser humano a sua capacidade de gozar os frutos do seu espírito e talento.

Já tivemos momentos de igual gravidade e os líderes por eles forjados souberam perceber as brechas por onde avançar

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