TYLER COWEN | Economista

“Nos Estados Unidos, só podemos aspirar a pedacinhos de crescimento”

Autor do livro “O grande estancamento”, o professor da Universidade George Mason afirma que a desigualdade já é o normal

O economista Tyler Cowen.
O economista Tyler Cowen.Stephen Gosling

Tyler Cowen é um economista atípico. Lê contos de Cortázar. É um reconhecido gastrônomo. Escreve um dos blogs de economia mais lidos, Marginal Revolution. Sua casa em Fairfax, uma pequena cidade com bosques e bairros residenciais perto da Universidade George Mason, onde dá aulas, a meia hora de carro de Washington, é uma espécie de museu das obras de arte que ele coleciona.

O professor Cowen, de 52 anos, observa a economia dos Estados Unidos e o retrato não é bonito: menos ingressos para as classes médias, mais desigualdades entre os cidadãos com acesso a uma educação de qualidade e trabalhos bem remunerados e aqueles não educados e que deverão se conformar com empregos precarizados, uma economia que não cresce o suficiente para elevar o nível de vida da maioria...

“Os números revelam que nos últimos 15 anos o nível de vida médio de um lar norte-americano típico caiu entre 5% e 10%. O que, certamente, é ruim. Parece bastante plausível dizer que diminuirá mais 5% ou 10% nos próximos 10 ou 15 anos. O que, certamente, também é ruim. Mas vamos manter a perspectiva: não estou dizendo que os EUA irão se converter em Calcutá. Os níveis de vida de muitas pessoas nos EUA estarão mais perto dos da Bélgica ou de parte da Europa ocidental. Isto é ruim, mas pode ser administrado: não é o fim do mundo”, diz sentado no sofá de sua casa.

Não, Calcutá não é o melhor exemplo para termos uma ideia de como serão os EUA e outras economias industrializadas nos próximos anos. O exemplo deve ser procurado em outro lugar da Ásia. “Acho que o mundo se parecerá um pouco ao que temos em Singapura. Ali, 14% da população tem o patrimônio de um milionário. E isto sem contarmos as propriedades imobiliárias. É muito alto. Claro que continua sendo uma minoria, mas acho que muitos países chegarão a um ponto similar, no qual não apenas o 1% acima de tudo, mas um bom pedaço do país, será realmente bastante rico”.

As pessoas achavam que as coisas iam bem, se endividaram e gastaram muito. No final descobrimos que não estava tudo tão bem.

- E o resto?

- Seus salários vão estancar. Talvez caiam um pouco.

O crescimento lento - o grande estancamento, para citar o título de seu livro - não é consequência da grande recessão de 2008. Na verdade é sua causa, segundo Cowen.

“Se você olhar as ofertas de salários para as pessoas com título universitário nos Estados Unidos, eles deixaram de subir desde 1999. Eu diria que a recessão foi causada pelo crescimento lento. Gastamos e nos endividamos como se fôssemos crescer 3% e no final crescemos muito menos. O mesmo aconteceu na Espanha. Os detalhes são um pouco diferentes, mas no geral, as pessoas acreditaram que as coisas iam muito bem, se endividaram e gastaram muito dinheiro, e no final descobrimos que não estava tudo tão bem. Agora a Espanha tem uma taxa de fertilidade de perto de 1,3, os imigrantes voltam para casa, vocês e nós envelhecemos, o orçamento está bem hoje, mas a longo prazo, como em qualquer país desenvolvido, não é tão favorável, não inovamos mais a um ritmo tão rápido, o número de start-ups e novos negócios caiu, temos todas estas coisas excelentes na Internet, mas, no resto, tudo parou e o máximo a que aspiramos é conseguir pedacinhos de crescimento. E este é o mundo em que vivemos. Eu o chamo de a nova normalidade.” A Espanha e os Estados Unidos, afirma, “têm mais em comum do que muita gente sugere”.

Em The Great Stagnation (A grande estagnação), publicado em 2011, Cowen tentou explicar por que as últimas três recessões tinham terminado com uma “recuperação sem emprego”, em 1991, 2001 e 2009. Cowen sustentava que nos 300 anos anteriores, os EUA tinham prosperado graças a uma inovação tecnológica insólita, a um sistema educativo que multiplicou em poucos anos, a uma população com estudos superiores, e a enormes quantidades de terra para cultivar e ocupar. Estas vantagens se esgotaram. Cowen acredita que, tirando a Internet, nossa tecnologia não é tão diferente da dos anos cinquenta: os sonhos de carros voadores e viagens a Marte no século XXI não se realizaram; como diz o magnata do Vale do Silício, Peter Thiel, amigo de Cowen: “Queríamos carros voadores, e em seu lugar temos 140 caracteres”.

O último livro de Cowen, Average is Over (A Média Acabou), de 2013, descreve um mundo no qual o que decide se caímos de um lado ou do outro da divisão é o nível educativo e a capacidade para trabalhar com máquinas, um mundo dividido entre uma elite que sai reforçada da grande recessão e o resto que fica na sarjeta e deverá se conformar com empregos precários e baixos ingressos.

Mas Cowen não gosta de falar de desigualdade. Prefere falar de “estancamento de oportunidades”.

Se você olhar as ofertas de salários para as pessoas com título universitário nos Estados Unidos, eles deixaram de subir desde 1999. A recessão foi causada pelo crescimento lento.

“As pessoas querem dizer coisas diferentes com a palavra desigualdade. Uma coisa que querem dizer é o crescimento do 1% que ganha mais. Para mim, isto não é um problema”, diz. “O segundo aspecto da desigualdade é que os benefícios que significam receber uma boa educação aumentaram. As pessoas com bom título ganham mais que as pessoas que só acabaram o ensino médio. Isto representa um problema para alguns, mas a resposta é elevar mais pessoas, não dar uma machadada em quem ganha mais. Assim, o problema não é a desigualdade, mas as oportunidades para quem ganha pouco. E aqui chegamos a outro problema: como o crescimento é lento, as pessoas que estão por baixo não sobem tão rápido, ao contrário do que acontecia nos anos cinquenta ou sessenta, quando os níveis de vida se multiplicavam por dois a cada 25 ou 30 anos. Isto não ocorre mais.”

Soluções? Cowen prefere falar de medidas de “alívio” ou “melhorias” do que de soluções. “Se você olhar o que gastam as pessoas que não são ricas, seus principais problemas são o aluguel que pagam ou a casa, a educação e a cobertura de saúde. Em todos estes setores, os preços subiram durante muito tempo”, diz. É caro ser pobre nos EUA. A melhoria na moradia neste país, diz, passa pela desregulamentação. “Mais coisas em meu país deveriam ser como no Texas, onde construir é mais fácil, os aluguéis são mais baixos e as pessoas, em comparação, estão melhor”. Sobre os custos da saúde, que neste país é privada, exceto para as pessoas com menos renda e os maiores de 65 anos, “vamos ver o que vai ocorrer”. “Na educação, vejo muitos avanços no setor privado online”, diz. “Mas a dificuldade aqui é que poderia resolver o problema, mas essencialmente seria preciso vinte anos para obter resultados.”

E na Espanha? “Estou preocupado com o futuro político da União Europeia e da Espanha. Vocês estão enfrentando grandes decisões. Escócia, com o Reino Unido. Reino Unido, ou o que restar dele, e a UE. Catalunha e Espanha. O crescimento de um partido semi-fascista na França. Não pretendo prever o que vai ocorrer, mas quando olho para tudo isso, como estrangeiro, vejo muitas coisas ruins, muitas forças empurrando na direção errada.”

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