A Broadway brasileira homenageia Chico Buarque

A dupla responsável pelos mais bem-sucedidos musicais brasileiros estreia em São Paulo um espetáculo em homenagem aos 70 anos do artista carioca

Atores encenam o musical em homenagem a Chico Buarque.
Atores encenam o musical em homenagem a Chico Buarque.Leo Aversa (Divulgação)

Chico Buarque é um artista cada vez mais recluso e avesso às entrevistas, mas, para a alegria de seus fãs, abraçou Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos – um musical que homenageia sua obra no teatro e que estreia em São Paulo nesta sexta-feira, 8 de agosto, para celebrar seus 70 anos, completados em junho passado. O cantor, compositor e escritor carioca deu apoio integral a Charles Möeller e Cláudio Botelho, a dupla de diretores e experts (­em musicais e em Chico) que criou o espetáculo – e ao redor da qual se desenhou nos últimos anos uma espécie de Broadway brasileira, com várias das mais badaladas produções musicais já lançadas no país.

O musical chega à agenda cultural paulistana depois de ser apresentado no Rio de Janeiro e se beneficia de uma onda chico-buarqueana que toma conta da cena teatral paulistana durante os meses de agosto e setembro, com mais três peças musicadas que o reverenciam: A Ópera do Malandro, em versão da Cia da Revista, O Grande Circo Místico, de João Fonseca, incluindo canções de Edu Lobo, e Reconstrução, também da Cia da Revista, com personagens das composições de Chico.

Mas, como atrativo especial, além de ser totalmente inédita, essa peça tem o fato de unir espetáculos da autoria de Chico Buarque que são bastante diferentes entre si, como Roda Viva, sobre um cantor que muda de nome para agradar o público; Calabar: o Elogio da Traição, sobre um senhor de terras que traiu a Coroa portuguesa; O Corsário do Rei, que aborda a história invasão do pirata René Duguay Trouin ao Rio no século XVIII; e O Grande Circo Místico, que fala sobre um grande amor entre um aristocrata e uma acrobata e a saga de uma família austríaca dona de um circo.

O resultado é um amplo panorama de seu talento para dar voz aos personagens brasileiros mais comuns, como o malandro, a moça da janela, ao homem da rua e ao artista mambembe, além de outros mais. A história que conduz a narrativa é a de uma trupe teatral em turnê por várias cidades – como acontece na montagem que a inspirou, Todas as Peças de Shakespeare em 97 Minutos, do grupo inglês The Shakespeare Reduced Company.

Profundos conhecedores de sua obra, os diretores ressaltaram a contribuição de Chico Buarque às artes cênicas no Brasil. “Com as obras que criou para o teatro musical, Chico se equipara em importância ao [compositor e letrista de musicais] Stephen Sondheim, um dos mais importantes criadores da Broadway de todos os tempos. Só lamentamos o fato que ele não tenha continuado a criar”, disse Charles Möeller ao Estado de S. Paulo. Apesar de não escrever mais musicais ou interferir na criação de uma homenagem como essa, Chico assistiu a uma das sessões da turnê carioca e deu sua aprovação. Também designou seu produtor, Vinícius França, para participar do processo criativo de Möeller e Botelho com sugestões que, segundo eles, foram prontamente acatadas.

Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos fica em cartaz até o dia 7 de setembro no Teatro Faap. Para quem perder a temporada, foi feito um CD com as canções do espetáculo, produzido pela gravadora Biscoito Fino.

Broadway à brasileira

Parceiros desde o final dos anos 90, Charles Möeller e Cláudio Botelho se conheceram no teatro, trabalhando em produções como Hello Gershwin, De Rosto Colado e Os Fantástikos. O primeiro musical produzido pela dupla já constituída foi As Malvadas, um pout pourri de comédias musicais "com o espírito dos filmes B" que recebeu um prêmio Sharp de melhor musical do ano em 1997. Daí para frente, juntos eles ganharam a fama de ser "os reis do musical" no Brasil, graças ao sucesso produções comoMagdalena – primeira montagem brasileira do musical escrito para a Broadway por Heitor Villa-Lobos –, A Noviça Rebelde, Beatles num Céu de Diamantes, Gypsy, As Bruxas de Eastwick, Hair e O Mágico de Oz, entre outras, revigorando um gênero até hoje relativamente esquecido (ou pouco levado a sério) no Brasil.