CRISE ECONÔMICA

A Itália entra em recessão com a queda de 0,2% do PIB no segundo trimestre

“Precisamos de tempo, mas não vamos falhar”, diz o ministro da Economia, Pier Carlo Padoan

Pier Carlo Padoan, ministro de Economia da Itália.
Pier Carlo Padoan, ministro de Economia da Itália.ALBERTO PIZZOLI / AFP

Um balde de água fria caiu sobre a Itália. Os dados divulgados esta manhã pelo Instituto Nacional de Estatística da Itália (ISTAT) revelam que no segundo trimestre de 2014 o Produto Interno Bruto (PIB) do país encolheu 0,2% em relação aos três meses anteriores, quando havia mostrado queda de 0,1%. Além de não crescer, a economia italiana continua perdendo velocidade. E depois de dois trimestres no vermelho, o país entra oficialmente em um novo período de recessão.

A economia volta assim ao período de contração iniciado no terceiro trimestre de 2011 e que foi interrompido apenas no último trimestre do ano passado, quando o PIB registrou ligeira expansão de 0,1%. Em Roma, os alarmes soaram para o Governo, que ainda não saiu de férias para tentar aprovar uma delicada reforma institucional. Em Milão, a Bolsa reagiu com uma baixa de mais de 2,5% e o prêmio de risco está em 170 pontos.

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Os dados divulgados esta manhã colocam a economia da Itália em uma situação pior do que o estimado pelas autoridades. "Esperávamos dados mais altos, em linha com as previsões da zona do euro", reconheceu o primeiro-ministro Matteo Renzi. "Mas isso significa que trabalharemos com maior determinação", concluiu com seu já proverbial otimismo.

A ligeira melhora no final do ano passado havia dado a sensação de uma tênue luz no fim do túnel. Tanto que para este trimestre os políticos e o mercado confiavam não em uma expansão, mas pelo menos uma estabilidade, em um 0% mais digno.

Matteo Renzi, primeiro-ministro da Itália

As tensões internacionais — especialmente o conflito entre a Ucrânia e a Rússia, com suas reservas de energia — aumentam a fraqueza da economia italiana e fazem com que a recuperação das contas públicas custe muito mais do que o previsto. Isso foi evidenciado hoje pelo diretor do Il Sole 24 ore nas páginas de seu diário ao ministro da Economia Pier Carlo Padoan. A resposta do ministro é firme: "Sei muito bem, e os mercados também sabem, que a Itália está fortemente direcionada ao crescimento. Precisamos de mais tempo, mas não vamos falhar".

"O limite de 3% na relação entre o déficit e PIB —afirma Padoan na mesma entrevista publicada hoje pelo jornal de economia— não será superado. Não vamos ultrapassar nem em 2014, nem em 2015. Nem sequer colocaremos a mão na Lei de Orçamentos", promete o ministro.

O encarregado de cuidar das contas do país também descarta o risco de que a troika venha de Bruxelas a Roma para conduzir a situação, como aconteceu em Atenas. No entanto, não pode deixar de reconhecer as dificuldades (já não conjunturais, mas estruturais) nas quais se afunda a terceira economia da zona do euro. Porém, como destaca o ministro, nomeado por Renzi há quatro meses para gerenciar as contas públicas, há dados que aumentam as esperanças: "os dados negativos divulgados pela ISTAT se referem aos investimentos. Ao mesmo tempo, os dados sobre o consumo e as exportações são moderadamente positivos. Isso nos dá esperanças de que as famílias recuperem um pouco a confiança e confirma que estamos em uma fase final da recessão, embora subir a ladeira seja muito cansativo, porque a recessão realmente é profunda. Não podemos nos esquecer de que 2013 fechou com um resultado de -1,9%. Mas nosso governo está empenhado em realizar medidas com efeitos de longo prazo. Veremos os resultados de 2015 e 2016." A dúvida é se os mercados — e Bruxelas — sabem esperar.

Bruxelas alerta que a queda do PIB atrasa a recuperação

Ignacio Fariza, Bruxelas

A reação de Bruxelas ao dado do PIB italiano não demorou a aparecer. Um porta-voz do Executivo da comunidade europeia reconheceu que a recuperação italiana “será atrasada mais do que o calculado pela Comissão Europeia em suas estimativas de primavera — nas quais previa um crescimento de 0,6% para 2014.

“Os dados apontam um PIB muito mais fraco para este ano, embora em linha com o publicado pelo FMI e pelo Banco da Itália", destacou. Estas mesmas fontes admitem a possibilidade de que a fragilidade da economia italiana terá um impacto negativo sobre suas contas públicas, mas preferem não revisar ainda a o número do déficit para este exercício.

“Ainda é muito cedo e não é possível ver uma tendência clara”, destacam. A revisão do quadro italiano por parte das autoridades da Comissão Europeia acontecerá nas previsões de outono, que serão publicadas em novembro e que servirão de base para a avaliação do projeto orçamentário que o Governo de Matteo Renzi deve apresentar para 2015.

Onde não há mudanças é na receita de Bruxelas para que Roma melhore o desempenho de sua economia: cumprimento da execução do orçamento e reformas estruturais. “O ministro da Economia italiano, Pier Carlo Padoan, disse esta manhã em uma entrevista que a Itália tem que acelerar o ritmo de reformas. Apenas podemos concordar e reforçar seus comentários”, disse um porta-voz do Executivo da Comissão para assuntos econômicos.