BUENOS AIRES SOB PRESSÃO

Quatro bancos internacionais negociam uma solução à crise de dívida argentina

Citigroup, Deutsche Bank, HSBC e JP Morgan continuarão dialogando com os ‘fundos abutres’ no fim de semana, sem a participação do Governo de Cristina Kirchner

O Governo de Cristina Fernández de Kirchner, os fundos abutres e Thomas Griesa, o juiz de Nova York que deu a sentença favorável a estes, não conseguem chegar a um acordo. Desde a quarta-feira passada a Argentina se encontra em situação de não pagamento de um título de sua dívida, segundo a opinião de agências de classificação de risco. Pode ser que o que Kirchner se nega a qualificar como suspensão de pagamentos dure menos tempo do que o esperado. Quatro bancos internacionais, Citigroup, Deutsche Bank, HSBC e JP Morgan, estão em negociações avançadas com os abutres para desativar o default da Argentina, segundo fontes do setor financeiro. As conversas continuarão durante o fim de semana, dizem as fontes.

A situação teve origem depois de uma sentença definitiva de Griesa ter bloqueado, na quarta-feira passada, o pagamento da dívida reestruturada em 2005 e em 2010 até que Buenos Aires pague os 1,5 bilhão de dólares (3,4 bilhão de reais) aos fundos especulativos e demais credores, que recusaram a renegociação com descontos, e ficaram sem receber o pagamento dos bônus desde o calote da Argentina em 2001. O Governo de Cristina Kirchner se nega a pagar os abutres, porque alega que isso provocaria processos dos detentores da dívida reestruturada por 120 bilhões de dólares (271,4 bilhões de reais) segundo uma cláusula que vence em 31 de dezembro deste ano. Esse passivo está avaliado atualmente em 40 bilhões de dólares (90,5 bilhões de reais). A cláusula levou o Executivo a esclarecer nos últimos dias que estava fora das negociações de bancos com os fundos abutres, pois teme as eventuais ações judiciais.

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"Se os bancos argentinos querem colocar dinheiro para resolver isso que seja o deles. Bem-vindo seja todo aquele que queira contribuir. O Governo não se opõe", declarou na quinta-feira passada o ministro da Economia da Argentina, Axel Kicillof, depois da tentativa frustrada de entidades de seu país de comprar na quarta-feira a dívida dos abutres ou depositar uma garantia para congelar a sentença de Griesa até 2015, e evitar com isso um calote do país sul-americano. O que os bancos internacionais buscam agora é desativar o default iniciado na quarta-feira. Kicillof disse que instituições locais como Macro, Galicia e Piano estavam interessadas no ajuste porque contam com uma substancial quantidade de títulos públicos reestruturados: "Se o preço (dos bônus) cai, perdem patrimônio".

Já no caso dos bancos internacionais, que negociam com os abutres pelo menos desde quinta-feira, não se sabe o motivo que os mobiliza. Dois deles têm forte presença na Argentina, HSBC e Citigroup, cujas filiais estão entre os dez maiores bancos em patrimônio no país sul-americano. Também não se sabe a quantidade de bônus reestruturados em poder desses bancos, mas um calote pode prejudicar seus negócios. A agência de classificação de risco Fitch rebaixou nesta sexta-feira a nota de dez empresas argentinas, porque um dia antes também havia cortado a classificação da dívida do Governo argentino para D, de default. Não é à toa que o presidente da unidade do Citibank na Argentina, Juan Bruchou, está entre os que lideram as negociações.

Os analistas também especulam que os bancos podem fazer negócio ao comprar a dívida dos abutres com desconto, para depois discutir em janeiro do ano que vem a execução da sentença com o Governo Kirchner. Nessa data, a cláusula que obriga a melhora da oferta aos que aceitaram a reestruturação já não estará valendo. Especialistas acrescentam que em maio a Repsol recebeu, em títulos públicos, os cinco bilhões de dólares (11,3 bilhões de reais) da indenização do Estado argentino pela expropriação de 51% da YPF, e vendeu quase todos ao JP Morgan, que com certeza deve ter liquidado boa parte deles no mercado, mas talvez ainda carregue alguns em sua carteira.

Dois dos quatro bancos envolvidos encontram-se entre os dez com maior patrimônio na Argentina

Tampouco está claro se os bancos internacionais negociam com os abutres a aquisição da dívida ou o pagamento de uma garantia. O que está mais visível é que ambas as vias levariam as instituições internacionais a pedir que o juiz Griesa congele a sentença até 2015, o que permitiria aos credores da dívida reestruturada da Argentina receber a quantia devida desde quarta-feira e os pagamentos do que resta de 2014.

O Governo Kirchner, enquanto isso, defende que não está em default porque depositou o dinheiro do título reestruturado nos agentes fiduciários Bank of New York Mellon e JP Morgan, e destaca que foi o juiz quem impediu transferir a quantia aos credores. Além da agência Fitch, a Standard & Poor's e a chinesa Dagong também classificaram parte da dívida argentina como D, enquanto a Moody's considera que o país está em default, mas não rebaixou a nota porque considera que as perdas nos valores dos títulos poderiam ser modestas. Fundos de investimento internacionais não podem, por regras internas, manter em suas carteiras bônus D, e por isso deveriam vender os títulos argentinos, com a consequente queda dos preços dos papéis. Mas nesta sexta-feira pela tarde os ativos financeiros argentinos haviam recuperado valor devido aos rumores da negociação com os bancos internacionais.