FLIP

Lutar com histórias

O escritor israelense Etgar Keret é considerado em seu país “a voz de uma geração” Presente na 12ª Flip, fala sobre Israel, guerra e o que escreve para combater a loucura ao seu redor

O escritor israelense Etgar Keret. Divulgação/ Flip
O escritor israelense Etgar Keret. Divulgação/ Flip

Um grande consenso entre os israelenses, nos últimos anos, é sobre a qualidade da obra do escritor Etgar Keret, presente nesta 12ª Festa Literária de Paraty para conversar neste sábado com o colega mexicano Juan Villoro sobre as “visões do paraíso" e as doses de terror de cada país a partir do qual – e sobre o qual – eles escrevem.

Lançando agora no Brasil por ocasião da Flip sua bem sucedida coletânea de histórias curtas De repente, uma batida na porta (Rocco), Keret foi elogiado pelo mais conhecido dos escritores de israelenses contemporâneos, Amos Oz, quem afirmou que seus contos “são ferinos, engraçados, cheios de energia e perspicácia, e ao mesmo tempo frequentemente profundos, trágicos e muito comoventes”. E também por Salman Rushdie, Gary Shteyngart e tantos outros conterrâneos que o definem como “a voz de uma geração”.

Outro grande consenso sobre Israel é que o país se encontra no meio de mais uma terrível disputa na Faixa de Gaza, que vem assombrando o mundo com os números crescentes de mortos implicados nessa guerra que parece eterna, muitos deles civis.

Sobre ambos assuntos – o sucesso de sua literatura, marcada pelo humor e pelas escapadas surrealistas, e a visão dos israelenses SOBRE a militarização dominante no país –, ele falou com exclusividade ao EL PAÍS.

Pergunta. Você já foi chamado de "o Amos Oz" da sua geração. Como isso soa pra você: uma honra ou mais uma pesada responsabilidade?

Resposta. Bom, eu acho que existem dois tipos de escritores. Um deles é o professor, você olha para ele com admiração e respeito. O outro é aquele cara que você vê no bar, bêbado, ferrado, e pensa “poxa, esse cara tem mais problemas que eu”. Ninguém pensa em Kafka, por exemplo, sem concluir que ele devia se sentir bem angustiado. Isso, em certo sentido, mostra um escritor que se expõe mais. Para mim, o Amos Oz é um professor, então claro que é uma honra. Mas eu me sinto mais o outro tipo de escritor: aquele escreve em meio à tempestade das próprias emoções.

Vou contar uma história que ainda não tinha contado. Quando era mais jovem, fui para o Exército, onde eu vivia me metendo em confusão, não era muito disciplinado, sofria muito com aquela dinâmica e tal. Um dia, vi meu melhor amigo se suicidar e terminar de morrer nos meus braços depois de se dar um tiro. Foi horrível. Depois disso, eu tive que fazer aqueles turnos de 48 horas na mesma sala onde ele se matou. Minha reação na primeira vez foi pegar um papel e escrever uma história à mão. Quando eu terminei, peguei as folhas escritas e coloquei num envelope, no qual escrevi: “Amos Oz/Arad”, que é a cidade onde o Amos Oz mora. Eu não sabia o endereço dele, que é algo, obviamente, que ele não divulga. Mas é uma cidade pequena, e ele recebeu minha história mesmo assim pelo correio. Uns três dias depois, ele me respondeu com uma mensagem escrita à mão também, dizendo algo como: “Isso que você está sentindo é terrível, mas vai passar. Você só tem que resistir e continuar, porque nem sempre vai ser assim”. No começo, eu fiquei meio decepcionado com a resposta, porque tinha mandado pra ele uma história! Queria que ele me dissesse se eu dava pra coisa, se podia escrever e tal. Aí eu reli o meu texto várias vezes e me dei conta da sensibilidade dele, de ter notado que eu me sentia assim naquele momento. E ele tinha razão. Essa experiência me guiou ao longo do meu trabalho. Tempos depois, eu o conheci em pessoa e relembrei essa passagem, que ele não recordava. Claro, ele recebe um montão de cartas… Só sei que pra mim foi muito importante.

P. Seus livros são best sellers em Israel, e você escreve contos, sobretudo. Dizem por aí que histórias curtas são difíceis de vender, mas você vende. Por quê?

R. É verdade. O que eu escrevo vem da sensação de que a qualquer momento a vida pode mudar completamente. Daí sempre me pergunto o que poderia acontecer se algo fora do normal acontecesse. Por exemplo, você vai ao supermercado, faz compras e, na hora de pagar, dá uma nota de dinheiro ao caixa. Fica esperando seu troco, e o cara diz: “Que troco? Você não meu deu nada!”. O que você faz? Coisas simples assim, mas que podem acontecer. Aí eu escrevo histórias que podem parecer absurdas, mas que são cotidianas, com esse fator surpresa. Termina sendo algo muito emocional, não com uma estrutura narrativa clássica e sim como uma rápida rajada de vento, que traz uns sentimentos e os leva embora. É um tipo de contrato muito diferente o que eu tenho com o meu leitor. Quando as pessoas falam de contos curtos, pensam, por exemplo, em Alice Munro. Mas o que ela escreve são mini-romances. O que eu pretendo fazer, pelo menos, não é isso, é algo diferente. E acho que o leitor termina sendo capaz de se identificar com as histórias por esse motivo.

P. De onde veio essa habilidade de encarar a vida como ficção?

R. Quando eu era pequeno, meus pais, que foram perseguidos por serem judeus, me diziam um dia que eu ia para a escola, daí no domingo minha mãe me compraria um bolo, e a vida seguiria assim. De repente, eles me disseram que eu não podia ir mais à escola. Eu andava na rua e me diziam: “Judeu de merda!”. Meu pai aparecia em casa roxo e ensanguentado depois de ter apanhado sem mais nem menos de um estranho. Foi assim que eu percebi que a vida poderia mudar de repente. Aí pensei que a ficção era uma maneira de antever a realidade, como se imaginar o que poderia acontecer me permitisse estar mais preparado para as coisas. E assim foi.

P. Você é bastante crítico em relação às coisas que acontecem em Israel atualmente. Estamos justamente num momento difícil entre israelenses e palestinos com os ataques à Faixa de Gaza. O que você opina a respeito?

R. Uma vez escutei uma história interessante. Um menino se sentava na mesa para comer, e os pais dele lhe serviam a comida. Ele comia, comia e comia e depois pedia mais. Os pais não entendiam, não sabiam o que fazer. Se ele continuasse comendo daquele jeito, ia explodir. Terminaram descobrindo que o menino comia muito, porque detestava sentar na mesa pra comer e então pensava: “Se eu sentar uma vez e comer tudo o que puder, não vou ter que sentar pra comer de novo tão cedo”. Com Israel funciona um pouco assim. Ninguém aguenta mais essa dinâmica de guerra que nunca termina. Se você olhar para trás, vai ver que nos últimos anos essa mesma guerra que está acontecendo agora aconteceu outras quatro vezes seguidas, com curtos intervalos de tempo entre uma e outra. A cada dois anos uma nova guerra? Não é possível. O sentimento geral é o desse menino, que se senta à mesa pra comer até explodir, mas que, no fundo, sabe que se ele fizer isso, vai se destruir também. Estou contando essa história para tentar explicar um lado psicológico das coisas. Existe um lado pragmático, que diz que Israel foi atacado e deveria ter o direito de se defender, há um túnel por onde passam os rebeldes do Hamas que é um risco para a vida dos israelenses etc etc. Tem também uma inabilidade governamental de resolver a questão, más administrações e decisões que terminam em coisas terríveis. Mas o fato é que as pessoas já não aguentam mais.

P. Como você explica a alta aprovação das ações militares do Exército israelense em Gaza no seu país, mesmo com todas aquelas mortes?

R. Essas pesquisas que mostram esses números são confusas. Há uma que diz que 85% apoia as ações militares e outra que diz que 72% acha que o que está sendo feito em Gaza não vai dar certo. Como você explica essa enorme parcela de pessoas que está se contradizendo? O fato é que sinto que as pessoas estão se armando e tratando de perder qualquer sensibilidade para poder explicar uma vida em guerra permanente. No dia em que o Exército de Israel bombardeou Gaza e matou quatro crianças que estavam jogando futebol na praia, minha mulher, que é cineasta, estava lançando um filme em um cinema de Tel Aviv. Antes de começar a projeção, ela fez menção ao fato, leu os nomes das quatro crianças e pediu àqueles que se sentissem à vontade que levantassem e fizessem um minuto de silêncio antes que essas pessoas mortas desaparecessem para sempre, que é o que acontecesse nas guerras – as pessoas simplesmente esquecem. Alguns fizeram isso, outros foram embora. Minha mulher, que tomou essa iniciativa pelo simples fato de ser mãe, de ser um ser humano, e que não disse mais nada, foi alvo no dia seguinte de mensagens agressivas nas redes sociais. Mensagens de todos os tipos, que diziam que a carreira dela tinha terminado, que a mandavam ir à merda, se meter de uma vez com o Hamas e outras coisas mais. Comigo, que assim como ela tenho um enorme amor pelo nosso país, acontece a mesma coisa. As pessoas vivem me escrevendo mensagens terríveis quando faço alguma crítica. Mas eu entendo a dor que elas sentem. Na primeira guerra, choram pelas crianças mortas; na segunda, pensam que é grave, mas já viram isso antes; na terceira, pensam: “Pior ainda se fossem as nossas crianças”; na quarta se blindam contra qualquer sentimento e às vezes são agressivas. Não aprovo, mas de alguma maneira eu entendo o que sentem.

P. Em uma entrevista, você chegou a afirmar que acha muito triste que a tradição israelense da intelectualidade seja substituída por um pensamento bélico. O que você quis dizer?

R. Nesse sentido, é comum confundir ser judeu com ser israelense. A tradição judaica da espiritualidade e da intelectualidade é uma coisa. Na diáspora, os judeus tiveram que se desempenhar como rabinos, advogados, médicos e outras coisas assim, porque não podiam, por exemplo, ser fazendeiros, pelo simples fato de que para isso precisariam de terra. Mas, desde que Israel existe, o que os israelenses queriam era manter essa terra e então passaram a defendê-la. A cultura militar vem em grande parte daí. Por muitos anos, os judeus sentiram que viviam do favor de pessoas boazinhas, que os recebiam em suas próprias casas. Depois, cansaram disso e pensaram: “Vamos nos defender. Não precisamos pedir favor pra ninguém”.

P. Atualmente, como é a relação entre Israel e os Estados Unidos, que aos olhos do mundo estão alinhados politicamente, com os americanos apoiando as ações militares de Israel?

R. Nunca houve em Israel uma aprovação tão baixa dos Estados Unidos como nos dias de hoje. Obama é o presidente estadunidense menos respeitado por lá nos últimos anos. As pessoas o veem com suas ações liberais, que não dão em nada e terminam associadas com uma certa fraqueza, um sentimento de não saber o que fazer. Preferem o tempo de Clinton e até o de Bush, que tinham um posicionamento claro e não uma falta total de ideia do que estão fazendo. Eu, pessoalmente, acho que o Obama tem coisas maravilhosas e que fez algumas coisas importantes em seu país. Mas, no campo das relações com o Oriente Médio, ele de fato não tem a menor ideia do que faz, seja em relação a Israel, à Síria ou ao Egito, por exemplo.