FLIP | Festa Literária Internacional de Paraty

Uma Rússia pesada

Vladímir Sorókin, um dos maiores escritores russos da atualidade, faz críticas a Putin durante a Flip, sinalizando os rumos antidemocráticos que, segundo ele, o seu país está tomando

O escritor russo Vladimír Sorókin.
O escritor russo Vladimír Sorókin.flip (Divulgação)

Quem quiser entender a profundidade do que se pode denominar a atual ‘crise' russa não precisa se restringir às manchetes de jornais que falam do conflito com a Ucrânia, das disputas políticas e econômicas do país com os Estados Unidos e a Europa, de sanções e cortes de gás etc. Na literatura, o recado de que algo importante – não muito positivo – acontece hoje na Rússia está dado na obra e na voz de escritores como Vladímir Sorókin, um dos mais ferozes críticos de Vladimir Putin. Sorókin, o primeiro russo a pisar em uma Flip (e um dos raríssimos escritores do país a participar de eventos literários no Brasil), foi uma das principais atrações desta quinta na feira que lota as ruas de Paraty. E, em seu debut, não poupou declarações de peso.

A mesa que propunha uma discussão sobre a literatura russa do passado e do presente foi mediada por Bruno Gomide, um dos principais acadêmicos dedicados ao tema no Brasil, e contou com a participação da norte-americana de origem turca Elif Batuman – quem, depois de mergulhar nesse universo durante seus estudos realizados nas prestigiosas universidades de Harvard e Stanford, se tornou uma especialista de importância mundial. Seu divertido livro de ensaios e memórias Os possessos, lançado no Brasil em 2012 pela LeYa, emprestou seu título ao encontro, que foi totalmente político mesmo se afastando do discurso panfletário.

Vladimír Sorókin, cuja produção literária inclui dezenas de obras dos mais variados estilos, todas marcadas pelo humor como ferramenta de crítica, afirmou que “Putin passará. O romance fica”. Para ele, a Rússia está retomando uma condição do passado em que não havia oposição ao governo, somente dissidentes. “Quando existe um estado totalitário, não pode haver oposição. O que existe é dissidência, e isso está voltando”, ponderou o autor de 59 anos, que publicou seus primeiros livros nos anos 80, na Alemanha e na França, para fugir da perseguição do regime comunista. “Escrevíamos e guardávamos na gaveta”.

Ao contrário de Gomide e Batuman, que, olhando de fora, buscavam identificar os aspectos positivos de uma época que ficou para trás, Sorókin não quis revistar velhos fantasmas. Para ele, a produção soviética, na qual a propaganda estava por trás de quase tudo o que se publicava, representa "um buraco negro na história da literatura russa”. “É um grande amontoado de ‘cocô’ com algumas pérolas, que são os poucos escritores interessantes que terminaram mal. Pode ser interessante como fenômeno, mas hoje não dá pra ler sem rir”.

Por ocasião da Flip, acaba de ser lançado no Brasil seu livro mais recente: Dostoievski-Trip (Editora 34), uma peça teatral que revisita os "clássicos barbados” de seu país, imaginando cada um deles como uma droga alucinógena. Nem Dostoievski escapou, portanto, do que ele chama de “severidade russa” e que “precisa de vodca para ser enfrentada”. “Dostoievski tem um ponto muito negativo, que costuma ser melhorado na tradução. É um estilo muito pesado, uma carnificina psicológica que faz do leitor carne moída”, alfinetou, apesar de sua admiração por esse grande clássico do século 19. A Rússia pode ser muito pesada, especialmente para os russos.

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