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Copa do Mundo 2014

Brasil é a equipe pesadelo

A seleção Canarinho se despede sofrendo outra goleada, e a Holanda termina em terceiro, invicta

Thiago Silva e Robben, na ação que valeu o pênalti para a Holanda. Ampliar foto
Thiago Silva e Robben, na ação que valeu o pênalti para a Holanda. reuters

Não há consolo nem perdão possível para o Brasil. A ferida provocada pelo 7 x 1 não deixa de sangrar, por mais que os jogadores e torcedores digam que não, vítimas ambos das mutretas do populista Scolari. Há derrotas que não se apagam com o currículo nem com títulos, mas que exigem medidas estruturais inadiáveis, e ainda mais no caso do pentacampeão. O Brasil é agora uma equipe ultrapassada, com a qual já se atrevem inclusive os mesmos árbitros que, no início da Copa, o reverenciavam, como se apreciou em determinadas passagens da partida com a Holanda, que acabou invicta na terceira colocação, depois de ganhar a final de consolação – uma partida imposta por questões econômicas, não futebolísticas: o vencedor recebe 22 milhões de dólares, 2 milhões a mais que o quarto colocado.

A Holanda foi, no fim das contas, uma equipe autoral no Brasil, desde a hora da chegada até a partida. Tinha princípio e fim em Van Gaal, próximo técnico do Manchester United, que encarou a despedida com a mesma liturgia da estreia: a defesa de cinco e os dois atacantes de costume, Robben e Van Persie. Só variavam os jogadores de acompanhamento, e desta vez faltou Sneijder, lesionado no aquecimento no Estádio Mané Garrincha. A ausência do volante do Galatasaray não afetou a personalidade da seleção nem a sua mecânica, mais efetiva no contra-ataque, especialista em atacar o espaço mais do que em tomar a iniciativa, também contra uma equipe disparatada como o Brasil. A Holanda que ganhou na anfitriã é a mesma que goleou a Espanha.

Até zagueiros da categoria de Thiago Silva e David Luiz pioram a cada dia na escola de Scolari. Robben não demorou nada em tomar as costas do capitão brasileiro, vencido diante da corrida do 11 depois de uma reposição de Cillessen. Robben foi derrubado fora da área, mas o árbitro apitou pênalti e poupou Silva da expulsão. Van Persie converteu: 1 x 0. Um quarto de hora depois, foi a vez de David Luiz bobear, quando seu cocuruto desviou para Blind, na marca do pênalti, uma bola centrada por De Guzman: controle com a canhota e tiro com a direita, como se estivesse na sala da sua casa em Amsterdã: 2 x 0. Ficou sopa no mel para as transições oranjes, e o jogo virou outra tortura para a seleção verde-amarela.

A anfitriã é a seleção-pesadelo para seus torcedores em qualquer campo do Brasil. Embora Felipão tenha trocado meio time, o futebol do Brasil provocou a mesma dor de cabeça que na sua partida contra a Alemanha. Não sabe como sair com a bola nem acabar as jogadas desde que Neymar se lesionou. Carente de meios de toque, seu único recurso é atacar os cruzamentos de bola parada, sobretudo na saída das faltas táticas cometidas de maneira reiterada pela Holanda. Os oranjes não deixaram que os brasileiros alcançassem sua área e foram efetivos diante das traves de Julio César. Tanto faz quem jogue no Brasil: Hulk ou Ramires, Marcelo ou Maxwell, Fred ou Jô, Fernandinho ou Paulinho, Bernard ou Willian. Todos parecem um só nas mãos de Scolari.

Oscar por acaso teve mais protagonismo, e Fernandinho se superou na tarefa de dar pontapés em Robben e Van Persie. Quem não bate não joga com Felipão, e o volante do Manchester City se transformou em um caçador no Brasil. A mesma situação se deu com Hernanes. O intervalo só serve para ativar a veia agressiva dos locais, especialmente manifesta durante o torneio, sobretudo na partida contra a Colômbia. Não era fácil transitar pelo campo do Brasil. A vice-campeã do mundo mal conseguiu atacar, e por outro lado evidenciou suas dificuldades habituais na defesa, expressas em dois possíveis pênaltis: um pelo braço de Vlaar e outro por uma entrada de Blind em Oscar, que acabou com a lesão do canhoto holandês e cartão amarelo para o atacante do Brasil.

O foco ficou sobre o árbitro Haimoudi, da Argélia, não só por suas decisões polêmicas, mas também por sua facilidade para entorpecer o jogo, circunstância que acabou por irritar a torcida, já crítica com a sua equipe, só reanimada quando apareceu Hulk, um búfalo que bate na bola com violência, conforme a militarização imposta por Scolari. Não houve maneira do Brasil arrumar um gol, e assim o time assinou sua capitulação com uma segunda derrota, como se tanto fizesse qual rival enfrentasse, desnorteada e ridícula como está desde que foi descoberto o engodo na busca pelo hexa. É preciso repensar o futebol no Brasil depois do ridículo da família Scolari.

A ‘Oranje’ foi uma equipe autoral, da hora da chegada até a partida

O selecionador que vai embora tranquilo é Van Gaal, que será substituído por Hiddink, quem também tem sua alternância definida na figura de Blind. A programação holandesa contrasta com a improvisação brasileira. Não é por acaso que a Holanda foi vice-campeã em 2010 e terceira colocada em 2014 com dois técnicos diferentes, o último deles Van Gaal. Os oranjes iniciam uma nova etapa no banco e em campo: supõe-se que seus jogadores de referência, Van Persie, Robben e Sneijder, dificilmente voltarão a jogar uma fase final de Copa. O futuro está nos pés de jogadores como Wijnaldum, que assinou o 3 x 0, para desespero da torcida, queixosa com o seu Brasil.

O final foi tão bizarro que Van Gaal se permitiu colocar em campo o seu terceiro goleiro desta Copa, Worm, ante a vaia generalizada no Mané Garrincha. Não há quem console o Brasil, irreconhecível em qualquer parte do mundo, até em sua casa.

Ovação a Neymar, vaias a Scolari

R. BESA/Rio de Janeiro

Com um caminhar lento, ainda dolorido pela joelhada dada pelo colombiano Zúñiga nas costas, que lhe fraturou uma vértebra, Neymar não quis deixar seus companheiros sozinhos. O atacante do Barça, artilheiro da seleção na Copa com quatro gols, apesar de não ter disputado a semifinal nem o último duelo contra a Holanda, pisou no gramado do estádio Mané Garrincha, entrando pouco depois dos seus companheiros. De calção e camiseta, envolto em um colete preto, respondeu de mãos erguidas aos aplausos da arquibancada, com gestos de agradecimento, e em seguida se incrustou no banco, entre seu amigo Dani Alves e Hulk.

Dali presenciou o confronto com nervosismo e alguns dramalhões. Cada vez que sua imagem aparecia nos telões, os torcedores de Brasília lhe ofereciam coros de apoio. Como o resto dos reservas, recebeu de mau grado os três gols da Oranje. Não era para menos. O Brasil sofreu 10 gols em apenas duas partidas consecutivas. Foi uma despedida triste para Neymar, a quem a FIFA incluiu entre os candidatos à Bola de Ouro que premia o melhor jogador do campeonato. Junto com Neymar, outro dos jogadores locais tratado com atenção foi o zagueiro David Luiz. Justamente o contrário de Luiz Felipe Scolari. Quando seu nome foi citado nos alto-falantes, os torcedores de Brasília lhe dedicaram sonoras vaias.

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