Copa do Mundo 2014 | ALEMANHA X ARGENTINA

Três torcedores por policial

O Rio terá 26.000 efetivos para evitar danos na final. É o maior dispositivo da história do futebol

Torcedores argentinos se reúnem perto do estádio do Maracanã.
Torcedores argentinos se reúnem perto do estádio do Maracanã.ballesteros (EFE)

Para cada três felizardos que assistirem no domingo a grande final do Maracanã, haverá um policial (ou soldado) vigiando. O Ministério da Justiça brasileiro anunciou que 26.000 efetivos de seus diversos corpos policiais e o Exército patrulharão a catedral do futebol brasileiro, seus arredores e alguns bairros do Rio de Janeiro para evitar incidentes durante a partida e, sobretudo, choques antes e depois do encontro entre os 100.000 torcedores argentinos esperados na Cidade Maravilhosa e a torcida brasileira, cada vez mais enfurecida. Os habitantes cariocas assistem estoicamente desde quarta-feira a ruidosa demonstração de júbilo alviceleste: os quarteirões adjacentes à Fan Fest da FIFA, na praia de Copacabana, parecem autenticamente outro bairro de Buenos Aires desde a véspera de Holanda x Argentina.

O preço das entradas na revenda pode chegar a 36.000 reais

"Manteremos os níveis de excelência para a segurança pública, observados desde o início da Copa do Mundo", afirmou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, nas vésperas de um espetáculo que contará com a presença de uma dezena de chefes de Estado. Ao redor de 10.000 policiais militares vão custodiar o estádio durante a partida. Trata-se do maior dispositivo de segurança da história do futebol e do Rio de Janeiro. Significa, além do mais, um marco significativo na preparação dos Jogos Olímpicos de 2016 e a suposta blindagem da cidade durante esse evento.

O Comitê Organizador contratou 1.500 agentes de vigilância privada para a segurança interna do Maracanã, cujas falhas nas duas primeiras partidas do torneio (com avalanches de torcedores argentinos e chilenos que conseguiram entrar no estádio sem entrada) irritaram muito a FIFA e produziram a novidade de permitir a custódia policial dentro do recinto.

Os números da final

Da segurança se encarregarão 26.000 policiais e militares

13 chefes de Estado acudirão ao encontro, entre eles Angela Merkel, Vladimir Putin e Dilma Rousseff.

Será o terceiro enfrentamento entre ambas seleções em uma final de Copa do Mundo. Em 1986, a Argentina venceu por 3 x 2. Em 1990, ganharam os alemães por 1 x 0. É a final que mais se repetiu.

Argentina e Alemanha se enfrentaram sete vezes em Copas. A última vez foi em quartas de final na África do Sul: os alemães ganharam por 4 x 0.

A Alemanha só ganhou uma de suas últimas quatro finais disputadas, em 1990.

A Argentina jogará sua quinta final. Ganhou duas e perdeu outras duas.

Será a décima final entre uma equipe europeia e uma sul-americana. Em sete delas, ganhou o conjunto da América do Sul.

No total, 100.000 agentes policiais e 50.000 membros das Forças Armadas brasileiras foram mobilizadas na Copa do Mundo (o triplo que na África do Sul, em 2010). O gasto acumulado em investimentos em segurança para o torneio chega aos dois bilhões de reais, segundo fontes oficiais.

Na disputa Alemanha x Argentina de amanhã, confirmaram sua assistência a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff (que entregará a Copa ao capitão da equipe vencedora junto com o presidente da FIFA Joseph Blatter) e os chefes de Estado de outros 12 países: Alemanha, Holanda, Rússia, África do Sul, República Democrática do Congo, Gabão, Haiti, Hungria, Finlândia, Barbados, Guiné Equatorial e Trinidad Tobago. A presidenta argentina, Cristina Krichner, recusou o convite por causa de uma faringite. A FIFA reservou um número indeterminado de entradas para agentes infiltrados no público, que informarão sobre "qualquer incidente" antes, durante e depois da partida. Desde quinta-feira, efetivos policiais vigiam o célebre Sambódromo dos desfiles carnavalescos e o similar Terreirão do Samba, duas zonas habilitadas no centro carioca para que alguns milhares de visitantes argentinos estacionem seus carros e caravanas convertidas em quartos de hotel.

Já na terça-feira, quando a Alemanha marcou seu quarto gol contra o Brasil, a FIFA pediu um reforço policial no luxuoso hotel Copacabana Palace, onde se hospeda a cúpula da entidade (incluído Blatter) e de onde Ray Whelan, diretor de uma empresa associada à FIFA fugiu na quinta 15 minutos antes que a polícia chegasse ao vestíbulo para detê-lo (pela segunda vez) como suspeito de encabeçar a rede de revenda ilegal de entradas desarticulada na semana passada na operação Jules Rimet.

Desde que começou o torneio, já foram detidos 53 'barra-bravas'

A compra clandestina de entradas para a final (cujo preço pode chegar aos 36.000 reais) se converteu no assunto principal da vida cotidiana no Rio: uma parte significativa dos torcedores argentinos chegam ao Brasil sem entradas para a partida. As operações policiais realizadas contra cambistas ilegais (entre eles, cidadãos argentinos) durante o torneio dificultaram a vida dos revendedores, que agora são vigiados com mais força que nunca com o desmanche da rede da operação Jules Rimet, na qual a polícia já analisou a metade das 50.000 conversas telefônicas gravadas com autorização da justiça contra Whelan e o suposto número dois da trama, o empresário argelino Lamine Fofana, que administrava uma rede de quase 30 pessoas.

Uns 5.000 policiais militares fortemente armados trabalharão a partir de sexta-feira, durante a véspera da partida, atentos ao que possa acontecer depois de Brasil x Holanda nas zonas mais lotadas de torcedores argentinos. Uma destacada preocupação da polícia são os barra-bravas (torcedores violentos argentinos), 53 dos quais já foram presos e deportados para seu país pela polícia brasileira até o momento (batendo um recorde nesse capítulo). A imensa maioria deles integrava uma lista de 2.100 torcedores violentos que estão proibidos de entrar em seu país e que o governo argentino entregou ao brasileiro antes de começar a Copa como parte de um acordo de cooperação para a segurança do evento. A prefeitura vai fechar 20 ruas a partir da meia-noite do sábado e reservou 1.650 controladores para o esquema extraordinário de trânsito: como é costume, os torcedores só poderão chegar ao Maracanã de metrô, sem dúvida um dos pontos quentes de sábado. Até o momento, assim como demonstrou sua seleção na terça-feira no Mineirão, os torcedores alemães se comportaram com notável discrição.

Policiais custodiam as ruas do Brasil durante uma manifestação contra a Copa.
Policiais custodiam as ruas do Brasil durante uma manifestação contra a Copa.P. F. (EFE)

A zona sul do Rio de Janeiro é uma cidade militarizada já faz cinco semanas: tanto que os turistas adotaram o costume de tirar fotos com agentes armados até os dentes. O operativo militar incluiu uma fragata na praia de Copacabana e vários mísseis terra-ar em edifícios limítrofes ao estádio do Maracanã. A impressionante quantidade de agentes utilizados, própria quase de um estado de sítio, conteve as pequenas, mas combativas manifestações ocorridas durante a primeira semana do campeonato em cordões estabelecidos em um perímetro a dois quilômetros do Maracanã, impedindo a chegada dos participantes.

Perdida a ilusão do êxito esportivo, o Brasil espera segunda-feira para anunciar ao mundo o sucesso organizativo e de segurança de uma Copa que apenas seis semanas atrás parecia destina a outro tipo de desastres.