Dois bocejos e sem Krul

Não houve futebol, mas pebolim, e do ruinzinho. A bola sofreu mais de um entorse e as traves foram desnecessárias

Sergio Romero espalma o pênalti de Sneijder.
Sergio Romero espalma o pênalti de Sneijder.AFP

Ao spray e outras ocorrências, a FIFA poderia obrigar os contendores a assinar uma declaração de intenções antes das partidas. Se não garantissem diante de um tabelião e em uma declaração pública dirigida às torcidas um mínimo de espetáculo, melhor ir diretamente aos pênaltis, que sempre fazem a audiência disparar e entronizam algum herói de passagem. Se proclamassem uma coisa e fizessem o contrário, algum juiz poderia intervir e... aos pênaltis. Para compensar o público que pagou a entrada, que chutassem vinte cada um, ou cinquenta. Qualquer coisa para evitar os bocejos que a Holanda e a Argentina provocaram nos torcedores. Além disso, com uma prorrogação de gorjeta.

Foi uma chatice total. Um encontro para o esquecimento imediato, a não ser pelo fato de que deve ser rebobinado para que o júri não hesite em proclamá-lo o pior do campeonato. Deste e de muitos outros. Isso sim, já tem lugar na enciclopédia da Copa: a primeira semifinal que acaba sem gols. Em duas horas: treze arremates, só oito chutezinhos a gol, 25 faltas e oito escanteios.

Messi não driblava, não chutava nem para as arquibancadas e algumas faltas marcadas foram pré-escolares

Não houve futebol, mas pebolim, e do ruinzinho. A bola sofreu mais de um entorse, as traves foram desnecessárias e os goleiros puderam fazer crochê. O resto dos atores provocaram a tormenta. As crônicas atestarão que sim, que na desordem estiveram Messi, Robben, Sneijder. Pode ser, mas confirmar isso seria um ato de fé. Porque aquele que parecia ser Messi não arrematava nem para as arquibancadas e algumas faltas que cobrou foram pré-escolares. Na linha de Sneijder, ou o que fosse aquele que jogou com as chuteiras ao contrário. De fato, tecnicamente, Cillessen, o goleiro holandês, foi de longe o melhor, contra Higuaín e Agüero. Já no momento decisivo, não foi nada.

À margem dos riscos que a bola correu, perigo não houve, exceto para o corajoso Mascherano, que quase parte a cabeça com Wijnaldum, e para Zabaleta, que em outro susto perdeu algum dente. Fazendo justiça, Mascherano também jogou sua alma ao evitar um gol de Robben. Higuaín também teve sua participação em uma cabeçada na rede, por fora, claro, porque dentro só havia fumaça.

O filme estava embaçado desde o princípio. Com Wijnaldum e De Jong no quartel, Van Gaal ensanduichou Messi, mesmo que para isso tivesse que renunciar ao imponente Robben desta Copa. O jogador do Bayern centralizou sua posição, mais como meio campo do que como ponta, e se perdeu. Sua especialidade são as pontas, é aí onde está seu ponto forte. O treinador holandês aceitou a neutralização de ambos, como se tivesse imaginado um duelo mais equilibrado em um tabuleiro de nove contra nove. Van Gaal sempre teve um toque enxadrista. Os dois pivôs centrais também tiraram o foco de Sneijder, por isso a Holanda ficou bloqueada. A Argentina não precisa enredar-se na lousa. Já consegue se bloquear sozinha, ainda mais sem Di María como dinamizador.

Rebocando o tédio, restava apenas confiar que Van Gaal tirasse Krul da cartola. Pois nem isso

Rebocando o tédio, restava apenas confiar que Van Gaal tirasse Krul da cartola. Pois nem isso. Van Gaal deu um fora e o tédio foi resolvido nos pênaltis. Cillessen, que não teve altura diante da Costa Rica, bem que tentou, mas só conseguiu tocar a bola no último, marcado por Maxi Rodríguez para colocar a Argentina na final. Uma final com aroma da Copa da Itália em 1990. Tanto porque a partida era típica daquele torneio, como porque o goleiro Romero foi Goycoechea, como porque se repete o cartaz na final: Alemanha-Argentina. Depois das semifinais, então, um mau negócio para a alviceleste. Quem sabe o mesmo Messi encontra um Messi desperto e o que o cartaz do domingo diz é na verdade a final de 1986. Os mesmos rivais e um tal Maradona, para não bocejar nem piscar.