Copa do Mundo 2014 | SEMIFINAIS

Willian, o atacante curinga de Mourinho

O treinador português apostou pesado no jogador que encara o desafio de substituir Neymar

Willian, durante o treino do Brasil.STRINGER/BRAZIL

"Achava que nunca veria alguém correr mais que Ramires, mas ele o está alcançando", disse entre brincadeiras Peter Cech, o goleiro do Chelsea, em janeiro. A rápida adaptação de seu companheiro Willian Borges da Silva (Ribeirão Pires, 1988) ao futebol inglês havia surpreendido tanto seus companheiros e a torcida que José Mourinho atreveu-se a virar as costas a Juan Mata, eleito melhor jogador da temporada anterior pela torcida do clube, e autorizar sua venda ao Manchester United. Willian havia passado cinco anos no Shakhtar Donetsk suspirando para que algum clube o levasse a uma grande Liga. Cansado de promessas não cumpridas, em janeiro de 2013 trocou a Ucrânia pela Rússia: o Anzhi pagou 35 milhões de euros (cerca de 105 milhões de reais) por seus serviços. Lesões inoportunas reduziram seus números no clube russo, afastando a possibilidade da sonhada migração.

Mas sete meses depois, em pleno verão, o Tottenham resolveu apostar no meia de cabelo afro, que já tinha jogado pela seleção brasileira: foi o escolhido para substituir Gareth Bale. Então, José Mourinho se intrometeu e arruinou a jogada de seu compatriota e ex-auxiliar André Villas-Boas, treinador dos Spurs na época. Pediu a Abramovich que fizesse uma oferta irrecusável ao Anzhi (37 milhões de euros, cerca de 111milhões de reais), foi inclusive testemunha para ajudar-lhe a conseguir o visto de trabalho e roubou o jogador de seus vizinhos quando já havia passado pelos exames médicos.

Desde então, Willian jogou 25 partidas da Premier League (marcando quatro gols) e 10 da Champions, ganhando o respeito do público em una temporada sem títulos. Hoje encara o desafio mais importante de sua carreira: substituir Neymar nas semifinais do campeonato do mundo, diante de seu público, frente à poderosa Alemanha. O jogador, afável e discreto, deixou claro na granja Comary que é inútil fazer comparações com o astro caído: "Ney tem muita qualidade... Eu tenho um estilo diferente, embora com algumas características parecidas, como a velocidade, o drible. Ele é mais atacante. Eu sou mais um meia de criação, estou preparado", afirmou.

Willian é um jogador mais elétrico que alegre. Extraordinariamente versátil (pode jogar pela direita, pela esquerda e pelo meio), veloz, prático e incisivo, conseguiu durante algumas fases da temporada um entendimento natural com Oscar e Hazard no trio criativo do Chelsea, por trás do centroavante. Mourinho chegou a utilizá-lo inclusive como segundo lateral esquerdo. "É um grande técnico", costuma afirmar o jogador, criado nas categorias inferiores do Corinthians. "Aprendi muito com ele, especialmente na parte defensiva, que é o que ele mais exige dos jogadores". Willian agradeceu a confiança com a maior alegria do ano: o segundo gol em Anfield Road que fez seu técnico correr por toda a lateral e afastou no finzinho o Liverpool do título inglês naquela partida marcada pelo escorregão de Gerrard quando o placar estava 0 a 0. Nem a pancada que levou nas costas há dias e nem o pênalti que errou na angustiosa decisão contra o Chile nas oitavas ("todos me apoiaram, voltaria a levantar a mão") parecem ameaçar sua participação no jogo de hoje.

Salvo surpresa, Willian ocupará a faixa direita, liberando Oscar para que assuma a direção criativa da seleção canarinha e sonhará em emular Amarildo, o atacante reserva que substituiu o lesionado Pelé na vitoriosa Copa de 1962.

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