Tostão | Jogador da seleção de 70, considerada a melhor equipe brasileira

“Se a Copa não fosse aqui, o Brasil já estaria eliminado”

Para Tostão, jogador da melhor seleção brasileira, faltam qualidades individuais em alguns setores

Tostão, quando era jogador do Brasil.
Tostão, quando era jogador do Brasil.

Tostão (Belo Horizonte, 1947) participou de uma das melhores seleções da história do futebol: o Brasil que conquistou a Copa do Mundo de 1970, na qual foi eleito o melhor jogador. Atacante e meio-campista canhoto de enorme habilidade e visão de jogo, uma lesão no olho o obrigou a deixar o futebol aos 26 anos. Entretanto, é considerado um dos 20 melhores jogadores de futebol sul-americanos do século XX. Chegou a ser apelidado Pelé branco. Hoje em dia, se tornou uma espécie de pensador midiático do futebol, sendo um elemento principal e constante do debate futebolístico no Brasil, por intermédio das suas colunas, publicadas na Folha de S.Paulo e outros jornais. Tostão conversou com o EL PAÍS sobre a complicada realidade da seleção brasileira, classificada nos pênaltis para as quartas de final após um angustiante duelo contra o Chile, numa Copa que a seleção Canarinho parece obrigada a vencer.

Pergunta. Por que é tão difícil para o Brasil jogar bem nesta Copa? É um problema de falta de talento, comparado a outras épocas?

Resposta. Criou-se no Brasil uma expectativa acima da realidade. Esta expectativa foi criada pela vitória na Copa das Confederações e pela grande diferença na última partida contra a Espanha, onde jogamos bem. A partir desse dia, começamos a achar que tínhamos uma equipe excepcional e que era possível ganhar a Copa. Mas não é assim. O Brasil tem virtudes e deficiências, como todas as boas seleções presentes. Todas estão no mesmo nível: Holanda, Argentina, Alemanha, Colômbia etc.

P. Exceto por Neymar, os jogadores brasileiros parecem presos. Estão sentindo a responsabilidade de entrarem para a história?

R. Se a Copa não fosse no Brasil, se fosse disputada na Europa, a seleção provavelmente já estaria eliminada. O fato de ser disputada aqui aumenta suas chances. Instalou-se no Brasil a ideia de que o problema da seleção, a razão de ela não jogar bem, de não apaixonar, é a pressão emocional sobre os jogadores. Eu acho o contrário. O que a torna candidata ao título é jogar em casa, o apoio da torcida. Estão jogando com muitíssima garra, comprometidos emocionalmente. Mas faltam qualidades individuais em alguns setores.

P. Quais são essas carências?

R. Falta o meio de campo. Oscar e Hulk jogam pelas laterais, Luiz Gustavo é quase um zagueiro a mais, e só sobra um jogador (Fernandinho) para tocar a bola e construir. É triste ver a seleção jogando assim. Compensa essas graves deficiências porque tem Neymar, que, embora estivesse muito marcado contra o Chile, mantém uma qualidade excepcional. Temos também dois dos melhores zagueiros do mundo, possivelmente os melhores (Thiago Silva e David Luiz). E Hulk no ataque tem um poder ofensivo enorme, inclusive quando joga mal: é tão efetivo, tão forte, que inclusive quando joga mal tem duas ou três chances de gol. Marcelo é um jogador excelente quando passa da metade do campo. E Luiz Gustavo é impecável em sua função de marcador, de volante defensivo. Temos qualidades, mas não vejo um meio de campo que passe, organize e distribua. Marcam muito, mas na frente não os vejo jogar.

P. Sente falta de algum jogador na convocação? Talvez Kaká?

R. O problema principal é tático: não há meio de campo, não está organizado, joga-se pelas laterais e confia-se no Neymar lá em cima. O que precisava era de um jogador como Xavi ou Xabi Alonso em seus melhores momentos, um Schweinsteiger, um Pirlo, um Kroos... Não temos um grande jogador no meio de campo. São combativos: correm muito, marcam muito. Kaká é mais um atacante, um segundo centroavante, como Oscar e Neymar. É um intermediário para o gol. Aqui falta um intermediário a mais, anterior, para esse intermediário final.

P. Calculo que outro problema esteja no ataque.

R. É óbvio, faltou eu mencionar isso. Não temos um grande 9. Tivemos tantos espetaculares… E entretanto, hoje, temos um jogador (Fred) que é bom finalizador, que sabe arrematar as jogadas, mas que participa pouco, passa a partida escondido entre os zagueiros. É uma pena, mas não temos um grande centroavante, um Romário, um Ronaldo. Sendo Hulk e Neymar artilheiros tão agressivos, acho que o Brasil poderia jogar perfeitamente sem o Fred, sem um 9, porque tem outros dois goleadores no campo. Seria muito melhor que o terceiro atacante fosse mais habilidoso e criativo, mais móvel, em lugar de um centroavante parado que espera a jogada.

P. Em quem está pensando? Willian?

R. Neymar passaria a ser atacante, como Hulk, e essa função um pouco mais atrasada poderia ser ocupada por Oscar ou Willian. Se o Kaká estivesse em forma, seria melhor ainda. Antes de o Scolari chegar, ainda com o Mano Menezes como treinador, o ataque brasileiro era formado por Hulk, Neymar e Kaká; e nesse momento todo mundo achava que o Brasil tinha um grande ataque, até jogando sem centroavante.

P. Como a Espanha de Del Bosque…

R. Exatamente. Mas Menezes saiu, e o Felipão gosta dos noves tipo Fred. Eu gosto muito do triângulo com o Hulk e o Neymar acima e o Kaká de meia-atacante. O Kaká também faz gols, mas não estava em forma. De qualquer maneira, faltando três jogos é difícil que Scolari mude a esta altura. O que ele poderia fazer (como aconteceu na Copa das Confederações) é colocar três jogadores no meio de campo, um autêntico trio, povoar a metade do campo, e na frente manter Fred, Hulk e Neymar. Que Luiz Gustavo não fique tão atrás, e que seja acompanhado por dois volantes. Três meio-campistas, como a Holanda, o Chile, a Espanha e a Alemanha... O Brasil joga teoricamente com dois meias, mas na prática joga com um, porque Luiz Gustavo joga quase de líbero.

P. Acredita que Scolari se equivocou com Diego Costa?

R. Diego Costa seria melhor que Fred, não há dúvida alguma. O problema é que quando Scolari convocou Costa e o deixou jogar 20 ou 30 minutos, Costa ainda não havia alcançado o êxito no Atlético. E (Scolari) achou que tinha outros jogadores comparáveis; não percebeu o potencial e o crescimento de Costa. Quando quis trazê-lo, era já um ídolo na Espanha e queria jogar com a Espanha: é algo lógico, estava lá fazia anos… Del Bosque o chamou, (Diego Costa) sentiu-se prestigiado, muito mais do que aqui.

P. Tem alguma seleção favorita para ganhar a Copa?

R. Não… Porque vejo muitas equipes parelhas. Argentina, Alemanha, Holanda, França e Brasil têm aproximadamente as mesmas chances. Quatro dessas cinco seleções estarão nas semifinais (mais provável a Alemanha que a França). Só falta a Espanha, que deveria estar nesse grupo. No final, a força da tradição no futebol, da história, tem muito peso; não conta só a qualidade da equipe. É o que aconteceu, por exemplo, com a Holanda contra o México. Lançou-se ao ataque com muitíssima força. O gol era farejado desde muito antes do empate. Assim como os humanos estão programados pelos genes, quase como se fôssemos um computador, que influenciam nosso comportamento, os países com muita tradição no futebol parecem ter um código imaginário que no final os faz ganhar e seguirem adiante.

P. Você concorda que estamos assistindo a uma Copa magnífica?

R. Muito boa, apesar de não haver nenhuma seleção maravilhosa que deslumbre todo mundo. Mas todas as partidas são boas. E há muitos gols... Surpreende-me sobretudo a velocidade do jogo em condições de tanto calor. Há muita técnica, muita habilidade e sobretudo muito dinamismo e velocidade. A Holanda, aos 45 minutos do segundo tempo da sua partida das oitavas, continuava dando piques debaixo desse calor. É uma Copa de ótimo nível. Só falta a Espanha.

P. Era um momento complicado para a geração que levou a Espanha aos seus grandes triunfos…

R. Seu futebol me maravilhou durante anos, e também o do Barcelona e do Real Madrid. São equipes que eu adoro. É uma pena. Mas convém recordar que não caiu contra qualquer um… Caiu contra duas grandes equipes. Se tivesse tido um grupo mais fácil na primeira fase, podia ter ido crescendo durante a competição. Eu me lembro da Copa de 1966, que joguei com 19 anos. O Brasil foi eliminado na primeira fase, e também era o então campeão do mundo. Um dos motivos foi que perdemos contra duas seleções muito fortes: a da Hungria (que era realmente poderosa) e de Portugal de Eusébio. Também éramos uma equipe cansada, com vários jogadores em fim de carreira. Nesta Copa foi muito importante o desfalque de Thiago Alcántara. Vai crescer muito nos próximos anos... O Barcelona perdeu um grande substituto de Xavi.

P. Acha que a Espanha irá se recompor depois deste fracasso?

R. Tenho certeza de que a Espanha vai renovar a equipe e retornar à elite na próxima Copa. Já tem uma base. A Espanha foi bicampeã da Europa e campeã do mundo sem ter um atacante excepcional. O meio de campo era tão fabuloso, tão impressionante, que inclusive sem um centroavante formidável a Espanha era sem dúvida a melhor equipe do planeta. A Espanha precisa produzir um atacante formidável; é óbvio que Torres, Vila (e antes Raúl e outros) são grandes jogadores, mas não houve um Romário, um Ronaldo, um Messi, um Cristiano. Na Liga espanhola quase todos os atacantes são estrangeiros, não conseguem cultivar um atacante fora de série. Apresenta um centro do campo assombroso, mas sem atacantes. Torres teve ótimos momentos, mas nunca chegou ao nível dos grandes atacantes do futebol mundial. E isso é algo fundamental. Ganharam duas Eurocopas e uma Copa do Mundo sem um atacante craque. Iniesta, Alonso, Busquets e companhia são tão bons que tornaram isso possível.