Messi é um raio sem anunciar

O futebol é um esporte coletivo, mas ele o joga individualmente, por isso me gera controvérsia em algum ponto. É um enigma

Messi domina a bola em um treinamento. DIEGO AZUBEL (atlas)

O fio condutor entre os grandes craques do futebol —Di Stéfano, Cruyff, Maradona— é a profunda influência em sua equipe, contagiando seu coração. É o diferencial dos escolhidos. E, no entanto, Messi te ganha nas partidas desde outro ponto. Não pertence a essa estirpe, mas sim é letal. O futebol é um esporte coletivo, mas Messi o faz individualmente. É capaz de dar a Copa do Mundo à Argentina com o suas aparições. Tal é o estrago que pode causar. Causa controvérsia em algum ponto. É um enigma. Não tem condição de líder, de impactar no desenvolvimento. Há que deixá-lo feliz que ele decide. É uma espécie rara, vai com a cabeça baixa, caminha, mas de repente é um raio sem anunciar. Sem preâmbulo.

Aparece Messi e pode resolver desde qualquer parte do campo. Não consigo interpretá-lo muito bem. Os três jogos ele que ganhou, e, às vezes, na mesma partida ele evapora, se isola, e dá vontade de lhe perguntar: “Tudo isto que você faz três vezes, por que não faz oito?”. Tudo pode quando agarra a bola, tudo é muito simples para ele, e, sobretudo, o gol. Por que se isola em alguns momentos? Por que não quer se desmarcar ou receber a bola, vir e estar integrado no jogo? Não sei como pode aparecer após 20 minutos de ostracismo. É parte de sua personalidade. No meio da partida não tem a quantidade de participações para um jogador nesse posto. Não acho que um jogador se reserve 90 minutos para marcar no último minuto contra o Irã. Isso faz parte da fábula.

O futebol é um esporte coletivo, mas Messi o joga individualmente

Para o duelo com a Suíça, a Argentina tem um grande inconveniente: defende em 70 metros, afastados os jogadores entre si, não podendo neutralizar o rival quando conduz pelo centro. Se Lavezzi entrar no lugar de Agüero, deverá ter um pouco mais de disciplina tática. Manter os três atacantes faz de Messi mais imprevisível. Por isso o escolhe Sabella. A Argentina está resignada a essas duas equipes. Uma temível capaz de fazer gols com facilidade esmagadora diante de qualquer rival, pelo desequilíbrio de seus jogadores, sem precisar um sem fim de passes.

Se Messi ou Di María pegam a bola, o panorama muda. Atacam por conta própria. O primeiro pensamento é o gol. Não é o passe ou a associação. O conjunto fica muito disperso e lhes custa pressionar quando perde a posse. Tem que se reorganizar recuando.

A Argentina provou ao subir a equipe, mas quando o ataque se frustra, o rival atravessa o campo pela zona central e os zagueiros ficam em posição desfavorável. Os volantes correm para frente, não se encontram entre si, perdem a bola e o adversário sai. Di María se junta ao ataque, Gago segue a bola como um ímã, só Mascherano defende. Definitivamente, uma equipe, mais que com a tática, tem a ver com as relações dos jogadores entre si. Prevalece o espontâneo, o que o jogador tem dentro. Aprender isso se consegue com muito tempo e muito treinamento. É antinatural. Se Di María tirar isso de seu futebol, não é Di María, é outro.