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Copa do Mundo 2014

Metade Origi, metade Lukaku

Com um jogo alegre, a Bélgica se vale dos seus atacantes para superar na prorrogação os Estados Unidos do fenomenal Howard

Lukaku supera Howard no segundo gol da Bélgica.
Lukaku supera Howard no segundo gol da Bélgica. AFP

Há vitórias que se anunciam desde muito cedo, e que no entanto demoram tanto a serem cantadas que ao final acabam sendo discutidas, também na Copa do Mundo. Assim aconteceu no estádio da Fonte Nova. A superioridade da Bélgica era tão manifesta que bastava apenas aguardar que ela vencesse Howard. E o goleiro, um gigante em uma equipe de atletas, se pôs de joelhos na prorrogação, depois que Lukaku devorou o gramado, e a rebatida do norte-americano permitiu o chute de misericórdia de Bruyne. O próprio Lukaku rubricou mais tarde a passagem às quartas de final, onde a Argentina a aguarda. Os EUA ainda marcaram, mas pouparam os belgas do empate, num arrebatamento final tão admirável quanto criticável foi o segundo tempo norte-americano, sempre na dependência de Howard. Merece a maior das considerações o ataque e o gol da Bélgica, muito boleira, deficiente apenas no arremate, algo natural quando se leva em conta a juventude do elenco de Wilmots.

A partida começou com uma chance de gol de Origi, ao receber passe de Martens. A resposta de Howard foi tão contundente como o desmarque do atacante do Lille, de 19 anos. A jogada se repetiu outras 1.000 vezes, do princípio ao fim, como se o confronto fosse um diálogo Origi-Howard.

Origi estica a equipe, lhe dá saída, permite um futebol mais dinâmico do que Lukaku, famoso desde que se irritou com Wilmots por ser substituído contra a Rússia. A carta de intenções dos belgas teve uma resposta momentânea por parte dos Estados Unidos. Os rapazes de Klinsmann adoram correr, um jogo vertical e direto, com mudanças de orientação – um futebol de contra-ataque, habitualmente arrematado por um jogador generoso no esforço como é o caso de Dempsey. Não demorou até que que o atacante do Seattle arrematasse jogada de Bradley.

Não havia tempo para a especulação, em uma partida aberta e divertida, bonita para o público, dominada pelas chegadas às duas metas, sobretudo a dos Estados Unidos. A Bélgica não queria deixar o tempo correr, e aos 30 minutos já havia batido cinco escanteios e arrematado três. Não teve pontaria nem qualidade para armar o último passe e bater o excelente Howard depois de romper a linha de meio-campo dos EUA, disseminada, mal colocada, em inferioridade diante do jogo de Hazard, Martens e Bruyne. O ritmo era tão frenético que logo surgiram vítimas, como Johnson.

Também por parte dos Estados Unidos, veloz e sem trégua, faltava controle e pausa para assegurar a definição. A equipe de Klinsmann encontrou um buraco no flanco direito de seu ataque, mal defendido por Hazard e por Vertonghen, dependente da marca de Zusi e errático no jogo de posicionamento necessário numa retaguarda capitaneada por Kompany. Mas os EUA praticamente não chutaram a gol em comparação com a Bélgica, que chegou ao descanso com uma sensação agridoce, acima de tudo porque seu bom futebol não havia tido recompensa no placar. Nada melhor do que olhar para Wilmots, entre desesperado e zangado, para entender o habitual 0 x 0 das partidas de oitavas nesta Copa.

A Bélgica nunca deixou de atacar. O seu jogo era fluido, transparente, nobre, difícil de defender para os Estados Unidos. Embora tenha perdoado um arremate muito fácil, a dois metros de Howard, Origi foi uma tortura para os zagueiros de Klinsmann. Na volta para o segundo tempo, os EUA tornaram a se safar graças ao seu goleiro e à falta de tino dos atacantes belgas. Os joviais diabos vermelhos só precisavam pôr o ponto final num jogo dinâmico e muito bom de se ver. Os Estados Unidos se dedicaram a esperar com o recurso de sua boa capacidade para competir. Aguardavam que amainasse o temporal, que o adversário se desgastasse, que um contragolpe encaixasse, sempre dependendo de Howard.

Os belgas não sabem se defender, mas são excelentes no ataque, com atacantes de sobra

Klinsmann permanecia de braços cruzados à beira da área técnica, sem chamar nenhuma reserva, enquanto sua equipe se consumia dentro de campo, conformada com o 0 x 0. Jones não dava conta, Bradley não aparecia, os laterais não seguravam, ninguém encontrava Dempsey. Mesmo com mudanças, o confronto continuou sendo um diálogo Howard-Origi, e o atacante, excelente nos movimentos, não conseguia bater o arqueiro, imenso toda a noite, espetacular também em uma bola espalmada após jogada primorosa entre Hazard, Origi e Mirallas, em um tiro de Hazard e em outro de Kompany. Não havia como enredar Howard. Os Estados Unidos só tiveram uma oportunidade, no último minuto dos acréscimos, quando Wondolowski ficou sozinho dentro da pequena área e falhou no chute à queima-roupa, cara a cara com Courtois.

Foi o quinto tiro dos Estados Unidos contra 30 da Bélgica, sendo 20 entre as traves de Howard, antes da prorrogação, que começou com Lukaku no lugar de Origi. E Lukaku então concluiu a tarefa de Origi.

O potente centroavante do Everton fabricou o 1 x 0, marcou o 2 x 0 e não encontrou o 3 x 0 por culpa de Howard. A vantagem fez a Bélgica se acalmar, enquanto os EUA atacavam desesperadamente. Green fez o 2 x 1, e Jones e Dempsey desperdiçaram a chance do 2 x 2. Os belgas não sabem se defender, mas são excelentes na frente, com atacantes de sobra, para satisfação da sua torcida, metade a favor de Origi, um grande jogador, e metade de Lukaku, melhor chutador. É bom a Argentina tomar cuidado com a Bélgica.

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