Copa do Mundo 2014 | FRANÇA

Deschamps une a França

O treinador dos 'Bleus' acabou com as guerras internas e soube controlar e regular o vestiário a partir da autoridade moral que exerce sobre os jogadores

Jogadores franceses treinam.
Jogadores franceses treinam.franck fife / AFP

Há jogos que parecem ser uma penitência, mas no fim são uma bênção. Sobretudo quando eles causam uma mudança história, como aconteceu com a França na repescagem das eliminatórias para a Copa do Mundo, em novembro do ano passado, contra a Ucrânia. Depois da derrota em Kiev por 2 a 0, os Bleus responderam com um 3 a 0 em casa, resultado que não apenas propiciou a reconciliação nacional entre a equipe e a torcida como também permitiu a Didier Deschamps escrever o roteiro até o Brasil. Aquele jogo de volta deu ao treinador a chance de corrigir os erros da partida de ida, e o técnico tomou decisões que mudaram a cara da equipe e a convivência do grupo.

O protagonismo de Valbuena em campo aumentou, depois de ele ter sido reserva no primeiro jogo, assim como Benzema; Cabaye, que nem havia jogado na Ucrânia, virou titular, e o técnico confiou em Varane e Sakho, numa época em que aumentava a confiança nos dois em detrimento de Abidal. E não houve jogador mais marcado que Nasri. O atacante francês, de ascendência argelina e que joga no Manchester City, nem sequer foi incluído na lista de convocados para a Copa do Mundo, assim como Franck Ribéry, este devido a uma lombalgia.

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Nasri foi identificado como o vilão em uma seleção com problemas de convivência tão sérios que provocaram a interferência do então presidente francês Nicolas Sarkozy depois da eliminação na primeira fase na Copa do Mundo de 2010. Naquela época, Anelka foi expulso da concentração por insultar o então treinador Raymond Domenech, os jogadores anunciaram greve e pararam de treinar e Evra, que brigou com um preparado físico, foi suspenso por cinco partidas, acusado de ser o líder do motim.

"A vida melhorou muito nas concentrações", dizem vários jogadores

Ainda que tenha deixado de ser o capitão (agora a braçadeira está com Lloris), Evra foi mantido entre os titulares e continua sendo um dos líderes. “Não gosto de ser popular. Foi a imprensa que transmitiu uma imagem minha de que era um vilão. A África do Sul me devorou, mas isso já não importa”. Aos 33 anos, o lateral do Manchester United, autor de um golaço contra o Bayern de Munique pela Champions League, é como um irmão mais velho para os companheiros.

“A vida melhorou muito na concentração”, afirmam vários jogadores, que atribuem isso às decisões de Deschamps. Não se sabe de rachas ou discussões, futebolísticas ou religiosas, as informações vazadas para a imprensa acabaram e o técnico permite que os jogadores usem as redes sociais sempre, desde que se tenha cuidado com o que se escreve. Deschamps controla, regula, dá liberdades, tudo à partir da autoridade moral que ele tem sobre os jogadores. “Ele tem credibilidade e legitimidade”, afirma o atacante Giroud. Valbuena acrescenta: “Ele tira o melhor o cada um”.

Não se sabe de rachas ou de discussões, sejam futebolísticas ou religiosas

Valbuena é imprescindível para escolher o último passe, acelerar o jogo na linha de três quartos de campo, desequilibrar no ataque. A França sentiu sua ausência no empate contra o Equador. O técnico tem dado liberdade de movimentação para o meio-campista do Olympique de Marselha, que foi desvalorizado no Bordeaux devido à sua baixa estatura (1,67m), e ele faz boas tabelas com Benzema. Sua contribuição ofensiva é tão importante quando o equilíbrio que proporciona Cabaye, hoje mais centrado do que nunca esteve no PSG.

Aos 28 anos, Cabaye é o metrônomo, o regulador de uma equipe que a partir do 4-3-3 tende a se impor pela força física de meio-campistas como Pogba, Sissoko e Matuidi. Ele não apenas coordena as ações no campo como também no vestiário, quando pede que os companheiros sejam “humildes e não arrogantes”, afirmação que tem muito a ver com o fato de ele ser católico fervoroso. A estabilidade de Cabaye é a estabilidade de uma França rejuvenescida com Sakho, Pogba e Griezmann.

A qualidade técnica de jogadores como Cabaye e Valbuena tem sido fundamental para compensar um time muito forte e também para dar uma maior versatilidade tática depois de uma certa estagnação com o 4-2-3-1. O mais beneficiado foi Karim Benzema, que se reencontrou com o gol depois de muito tempo de jejum. O atacante, que está acompanhado de Giroud ou Griezmann, soma três gols até o duelo desta segunda-feira como Enyeama, o goleiro da Nigéria, que ficou 1061 minutos invicto com o Lille na edição passada do Campeonato Francês.

Os rivais que a França teve até agora ainda demandam algum freio na empolgação. Depois de vencer Honduras e Suíça, a equipe empatou com o Equador, depois que Deschamps mudou meio time, e hoje encara a Nigéria. Com um time sub-20 campeão do mundo, a seleção adulta agora espera recuperar o trono que ocupou em casa, em 1998.

“O que acontece com os jogadores muçulmanos que hoje começam o Ramadã?”, um jornalista perguntou a Deschamps. “Eles têm liberdades para tomar suas decisões”, respondeu. Com essa autoridade e sabedoria, Deschamps soube unir a seleção da França.