Pep Guardiola: “Espero que Vicente del Bosque continue muito tempo na seleção”

O treinador do Bayern de Munique, em conversa em Buenos Aires, fala da Copa do Mundo e dos conceitos de liderança

Guardiola cumprimenta Tata Martino, no evento realizado em Buenos Aires.
Guardiola cumprimenta Tata Martino, no evento realizado em Buenos Aires.

No estádio Luna Park, onde costumam realizar-se concertos de música em Buenos Aires, 5.000 pessoas reuniram-se na noite de quinta para escutar Pep Guardiola, treinador do Bayern de Munique. Era um destes acontecimentos onde se fala de futebol e liderança e terminou com três bolas com o autógrafo do entrevistado lançadas para o público. Nem de passagem foi abordado o tema discutido por todos nesta tarde: a mordida do atacante uruguaio Luis Suárez e a punição com a qual a FIFA o castigou. No mais, Pep Guardiola, cujo empresário é o mesmo do de Luis Suárez, seu irmão Pere Guardiola, falou de quase tudo.

O jornalista esportivo argentino Juan Pablo Varsky, que fez o papel de mediador da conversa, começou perguntando a Guardiola quem tem razão no futebol? Quem ganha? E Guardiola respondeu: “O que ganha. Uma ideia na boca de alguém que perdeu é uma desculpa”. Na continuação, oferecemos um resumo das principais questões abordadas em uma conversa da qual também participou o antigo treinador do Barcelona, Tata Martino.

Relação com os jogadores. “É como um negócio. Se ele não encontra um benefício neste negócio poderá fazê-lo a curto prazo, mas a longo prazo, não. Vicente del Bosque definiu melhor do que ninguém os jogadores nesta Copa: “Nós pensamos neles e eles só pensam em si mesmos”. “Existem jogadores, entretanto, quem têm a capacidade para entender por que se toma uma decisão. Outros só pensam neles, neles, neles. E também é necessário saber trabalhar com este egoísmo. Praticamente todos os problemas de uma equipe vêm dos egos”.

“Quem manda é o verde”. Não se referia ao dinheiro e sim ao gramado. Lhe perguntaram como é possível fazer conviver o ego de Messi com o de Samuel Eto´o e o de Ibrahimovic. E respondeu: “A decisão não é tomada pelo treinador, e sim pelo jogador. É o verde que dita e sentencia: o campo. E quando jogávamos partidas importantes da Liga dos Campeões, quem dava o passo à frente? Era o pequeno (Messi) e ganhava a partida.

A Copa. “Está ótima. É muito amena, muito divertida. Ocorreram muitos gols, que é o que todos desejávamos. Pensava que seria mais parada; pelo calor, pelos estádios, que seriam campos não muito bons; e que seria muito defensiva. E sim, todos procuram defender, mas vão para a frente...”.

Por que isto aconteceu?

- Gosto de pensar que é pela qualidade dos jogadores e pelo atrevimento dos treinadores. Eu tive um técnico que dizia que não existem treinadores bons e ruins e sim corajosos e covardes. E me dá a impressão de que ficar sempre preso atrás pode te fazer ganhar, porque tudo serve, mas cada vez menos. Todo mundo pensa em defender, mas sempre com a ideia de sair para o jogo. E vimos isto em seleções para mim desconhecidas até agora como a Costa Rica.

Por que ocorrem tantos gols de contra-ataque e tão poucos de jogadas trabalhadas? “Porque o contra-ataque é mais fácil. Foi o que aconteceu com a Argentina contra o Irã: quando dez jogadores ficam atrás é muito complicado. E para combater isto é necessário um processo longo. E fazer os jogadores entenderem que não participar é, na verdade, ajudar. Isto é o mais difícil de colocar na cabeça de jogadores de alto nível”.

Por que?

- Porque eles querem ser protagonistas. E dizer para um jogador: Você está agora mais aberto e durante três minutos não vai tocar na bola; Mas tem de esperar aí porque esperar aí significa abrir espaços em outras zonas do campo... o ataque posicionado é muito complicado. É estar no lugar e esperar a bola chegar. Mas é mais fácil ficar um pouco mais atrás, roubar a bola e ir para jogo.

Alemanha. Guardiola acredita que apenas a Alemanha, tem a capacidade para jogar no contra-ataque, com transições rápidas, por dominar o jogo posicional.

Espanha. “Me deu pena”, disse sobre a eliminação. “Porque a ligação emocional que tenho com estes jogadores é muito grande. Creio que o futebol lhes deve tanto, tanto, mas tanto... para essa geração de jogadores... Mereciam poder jogar contra a Alemanha, com o México, com a Argentina, com o Brasil, para poder defender o título nas oitavas e nas quartas... Tenho a impressão de que neste momento se veria a melhor Espanha”.

“Acredito que a Espanha jogou muito bem este jogo posicional de colocar nove jogadores no campo adversário... e vou atacá-los e quando perder a bola não os deixarei sair e continuarei atacando e continuarei atacando... E quando eles tiverem a bola voltarei a roubá-la e não conseguirão sair. Não é fácil jogar desta maneira, por uma questão de espaços. Mas tudo é válido.

Argentina: “Quando se tem jogadores tão bons no ataque é necessário adaptar-se à eles. Por outro lado, não são meio-campistas puros e as vezes a equipe fica quebrada. Tenho a impressão de que é candidata ao título como tantos outros, não só ela” Terá mais chances de ganhar a Copa, segundo Guardiola, quem suportar melhor os momentos ruins de uma partida, que sempre ocorrem, quem tiver mais controle da partida e dominar melhor a situação na qual estiver em dificuldade terá mais condições de ganhar.

Treinador de uma seleção? “Gostaria muito, mas espero que alguém me queira para dirigir uma seleção.

Messi, entre o Barcelona e a seleção. “Todos nós que estamos aqui queremos nos sentir queridos. E ele não é uma exceção. Desde o primeiro dia Messi não desejava outra coisa a não ser que tudo corresse bem na seleção”.

Por que a Argentina não ganhou nenhuma Copa com Messi. “Eu não sou argentino, é a terceira vez que venho para este país. Não os conheço, mas precisam entender que só a ganharam duas vezes na história dos mundiais. Não significa que não sejam bons porque tiveram bons jogadores a vida inteira e por toda a vida os terão. Mas se ganharam apenas duas vezes é que é muito difícil. Então, é necessário ter um pouco mais de tranquilidade. O jogador argentino sempre vai tentar, mas é muito complicado. É muito bom chegar nos lugares tendo na cabeça que existem outros tão bons quanto”.

Vicente del Bosque. “Não há um treinador melhor para a Espanha do que ele. Espero que possa continuar por muito tempo. Acredito que o futebol precisa e muito dele. Porque é quem melhor pode realizar este processo de algumas pequenas mudanças para uma geração muito talentosa que pode chegar. Porque os conhece. Quando perdeu a alma lhe doía, por não seguir, por não desfrutar deste evento. Mas disse: dois foram melhores. E não é por não dizer que a Espanha havia jogado mal. Sim, provavelmente não estavam no seu melhor momento. Mas eu não sei o que poderia acontecer se a Holanda não empatasse aos 44 minutos do primeiro tempo. Na primeira etapa a Espanha foi, do meu ponto de vista, muito melhor do que a Holanda. Dominou, foi o que sempre tem sido. E teve a [chance] de Silva para fazer 2x0”.

O Chile e Marcelo Bielsa. Às vezes acontece que até um timaço como a seleção espanhola topa com outras melhores. “Mas as vezes acontece. Com Robben, Van Persie e um treinador de muito prestígio como Van Gaal... E o Chile. Todos conhecem o Chile. O que fez Marcelo Bielsa no Chile foi plantar uma semente. E agora Sampaoli seguiu esta forma de ser agressiva, de jogar com estes chilenos... São pequenos, dinâmicos, fortes fazem o que for preciso para roubar a bola. Na Austrália, igualmente, talvez pensassem que tinham de se classificar e talvez tenha acontecido uma grande confusão por não se classificarem. Não entendo, mas... Apenas um ganha e há muitos muito bons. E é preciso aceitar”.

O que de melhor um treinador pode oferecer para um jogador? “Eu quando era jogador só pedia ao treinador, e com alguns consegui, que me antecipasse o que o adversário iria fazer. Intuir o que os adversários vão fazer. Quando diz que hoje vai acontecer tal coisa ganha credibilidade.

A importância dos vídeos no treinamento. Hoje em dia as crianças aprendem através da imagem. E a imagem é um mecanismo imparável de conhecimento. Tem uma força muito grande e todos nós a utilizamos. Mas nada supera a palavra, um olhar ou um toque. E se ainda quem tiver a palavra for argentino, nem te conto. Eu estou com Javi Martínez, perguntando por Marcelo e sempre pelo Marcelo (Bielsa). E ele me conta que as vezes ficava uma hora o escutando e pareciam somente dez minutos.

A paixão pela tática. É o que mais gosto no futebol. Sem ela os jornais não teriam como colocar tanta informação. Eu me encontro com Tata Martino e o que quero é conversar de tática com ele. Tentar decifrar o jogo. Isto é, no fundo, o que fazem os treinadores, os torcedores e os jornalistas. Tentar descobrir como uma equipe joga bem.

Os empresários. Na minha época o treinador era como um guru que indicava o caminho. Hoje os jogadores têm muita gente ao seu redor, com suas próprias ideias, que as vezes não coincidem com a ideia do treinador. E é normal que tenham este círculo, eu também tenho empresários e patrocinadores. Isto é um problema adicional e é uma coisa boa.

O ensino do Barcelona. No Barcelona, desde pequeno te ajudam a entender por que ganha ou por que perde. Muitas vezes perdíamos e faziam perguntas e respostas do porquê havermos perdido. O jogador não tem problemas em entender. Pelo contrário, é muito inteligente, muito intuitivo. Está cada dia mais preparado.

Mascherano, um dos jogadores mais inteligentes. “Mascherano é um dos jogadores perfeitos que gostaria sempre de contar. Além disso, é generoso. Quando chegou não jogava, quem jogava era Busquets e ele não chegava no dia seguinte dizendo que era o capitão da seleção argentina e que eu lhe devia algo. Mas o que fazia no dia seguinte era treinar melhor, perguntar e observar.

Como o convenceu de que poderia jogar de zagueiro?

- Ou jogava ali ou não jogava. Eu gosto muito dos jogadores do lado esquerdo, os alas que podem ser adaptados como laterais. E também gosto dos volantes que têm a capacidade de jogar como zagueiros. E ele tinha condições, pois é muito rápido, vai muito bem no jogo aéreo. E ele se aplicou.

“Hoje teria vergonha de dizer a Messi em qual posição jogar”. Perguntaram para Guardiola como colocou Messi para jogar mais próximo da área e respondeu: “Os velhos sempre dizem coloque os bons, os bons têm de estar sempre com a bola. Queríamos que Messi ficasse o maior tempo possível com a bola. Na jogada do gol contra o Getafe vimos que era capaz de fazer isto vindo de trás. Mas se o colocássemos mais próximo da área teria mais possibilidades. Estes jogadores, eles próprios encontram seu lugar no campo. Hoje teria até vergonha de dizer para ele em qual posição jogar. Ontem estava no campo e logo foi para o lado direito. Suas decisões sempre são acertadas. E não se pode dar esta liberdade para todos os jogadores pois as vezes ficam presos”.

A grandeza das pequenas vitórias. “O Barcelona é um clube fantástico, mas muito difícil. É um clube muito grande onde mesmo quando ganha sempre sai machucado”. “Na Itália... “Depois de 11 anos no Barcelona fui para a Itália, para um clube no qual lutávamos para não cair. E cada vitória parecia como ganhar um campeonato no Barcelona. Ali aprendi a desfrutar das pequenas vitórias. As coisas são muito difíceis e custam. E todos tivemos de fazer um esforço para aprender que as coisas têm um custo”. “O rival também assiste vídeos e também treina.

O que faria se perdesse a final de uma Copa? “Sairia de férias”.

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