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Copa do Mundo 2014

A Espanha vence de luto

Villa, Torres e Mata aliviam a triste despedida da seleção espanhola contra a Austrália

Os jogadores da seleção celebram um gol contra a Austrália. Ampliar foto
Os jogadores da seleção celebram um gol contra a Austrália.

La Roja deixou o Brasil de negro, o luto que merecia após um torturante torneio. Como não há consolo possível, sua vitória contra a entusiasmada e fraca Austrália foi apenas um leve analgésico, um esparadrapo para conter sua hemorragia nessa Copa para esquecer. Irrelevante no coletivo, esta partida escondeu alguns feitos individuais, como os de Iker Casillas e Xavi. O maior desabafo foi para Villa, que encerrou sua carreira na seleção da maneira que sempre foi, um goleador de primeira, o quarto espanhol a marcar em três Copas como Julio Salinas, Raúl e Fernando Hierro. El Guaje (O Garoto, em espanhol) foi o primeiro centroavante de Del Bosque a marcar neste campeonato. Nem Diego Costa nem Fernando Torres haviam conseguido. Eloquente para definir o papelão espanhol no torneio. É paradigmático repassar as quatro grandes assistências que deu Iniesta: Silva perdeu contra a Holanda, Diego Costa desperdiçou contra o Chile e... Villa e Torres marcaram na partida que não valia nada. Ao contrário da arquibancada, a Espanha ainda tinha respeito pelo Brasil, cujos torcedores gritaram com insistência “eliminados, eliminados, eliminados”, e em plenos pulmões o “está chegando a hora”. Brincadeiras e respeito ao mesmo tempo. Quando o futebol causa bocejos, como na partida de sobremesa na ensolarada Curitiba, a torcida aguça a criatividade.

Para a último ato, Del Bosque colocou de início apenas quatro dos titulares que começaram contra a Holanda, Ramos, Alba, Alonso e Iniesta, e apenas De Gea terminou sem jogar alguns minutos neste calvário. Ao contrário do habitual, o treinador começou com dois atacantes, os dois jogadores clássicos dos triunfos dos últimos tempos, Torres e Villa, ambos preteridos por Diego Costa, mais uma entre as grandes decepções espanholas. Após um péssimo início, de maltrato da bola e com todos os espanhóis tensos e parecendo convalescentes, pouco a pouco, discretamente, a equipe se soltou, levada por Villa na esquerda e Juanfran na direita.

Contra a Austrália, sua possível escala antes de sua aventura nos Estados Unidos, o asturiano conseguiu abrir o ataque com suas peculiares fintas e cortes. Villa atacava, mas ninguém finalizava. Até que pouco depois de meia hora, Iniesta deu um passe para Juanfran com precisão milimétrica.

O lateral, muito ligado na partida, chegou na linha de fundo e seu passe para a pequena área balançou as redes após toque de letra de Villa, como merecia selar sua aposentadoria. Não foi apenas mais um na seleção e não poderia ir embora como apenas mais um. Foi comovente ver a expressão de Villa antes do final, emocionado antes de começar a chorar no banco de reservas enquanto conversava com os médicos da equipe. Seu desfile até o banco marcou o fim de uma era. Na figura de Koke, a transmissão do bastão.

O desfile de Villa até o banco marcou o fim de uma era

Sem nenhum enredo, para os penitentes espanhóis a inglória partida era um problema difícil de manejar. Com a cabeça na volta para casa, a mente saturada e um peso nas pernas, o melhor negócio para La Roja era que o tempo passasse. A partida era protocolar. Já sem Villa e com a partida bem sem graça, Iniesta realizou outro solo de violino para colocar Fernando Torres na cara de Ryan, o goleiro australiano.

“El Niño” (O Menino, em espanhol) colocou a bola nas redes com a mesma sutileza de Mata em passe de Cesc. Para ter uma ideia do que é a Austrália, os três gols espanhóis saíram em jogadas frente a frente com o goleiro, sem nenhuma marcação. Balsâmico para uma Espanha que não está com muita vontade de jogar. Para uma seleção que perdeu sua estrela no Brasil quando o torneio ainda não havia terminado a primeira fase. Uma desilusão maiúscula.