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A primeira final do Brasil

A seleção de Luiz Felipe Scolari tenta que garantir contra o time de Camarões uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo

Ladislao J. Moñino
Paulinho protege a bola diante de Modric no Brasil-Croácia.
Paulinho protege a bola diante de Modric no Brasil-Croácia.reuters

A amplitude das avenidas sobre as quais se articula a impressão de espaço aberto e futurista que destila a predominante arquitetura de Oscar Niemeyer reforça a artificialidade de Brasília, inaugurada em 1960 para ser a capital administrativa do Brasil. Nas primeiras horas da manhã, a cidade amanhece fantasmagórica, despovoada, como se os 2,5 milhões de habitantes estivessem petrificados em sua multidão de torres projetadas que desenham seu moderno horizonte. O ônibus que transporta a seleção brasileira circula por uma dessas artérias semi-desertas de oito pistas até parar em seu luxuoso hotel, onde toda a vitalidade da capital parece ter se concentrado para receber Scolari e seus garotos.

Até quinta-feira, a megalópole levantada sobre um amplo planalto estava invadida por colombianos e suíços que foram substituídos por brasileiros provenientes de toda a parte. A organização assegura que 92% dos ingressos foram comprados pela torcida brasileira. Ao contrário de Fortaleza, onde os mexicanos acabaram se impondo no jogo e no barulho das arquibancadas, o estádio Mané Garrincha terá uma massiva presença dos brasileiros que pretendem assistir à classificação do Brasil para as oitavas de final do torneio. Um empate com a devastada e polêmica seleção de Camarões já basta, e até uma derrota desde que o México vença os croatas. Um desastre local só aconteceria se Camarões vencesse por dois ou mais gols de diferença e se a Croácia vencer os mexicanos.

Desde que a Canarinha se europeizou, o debate do jogo permanece

Com um rival destruído por suas guerras internas, não se pensa em tragédia nesta que será a partida de número 100 do Brasil em uma Copa do Mundo, ainda que alguns jogadores, como David Luiz, falem que o jogo é “uma final”. “Eles vão querer ganhar para fazer história”, advertiu o zagueiro do PSG.

Na maioria de suas 99 partidas disputadas até hoje em Copas, o Brasil escreveu uma história fantástica, incluindo o Maracanazo, que o transformou no país do futebol. Desde que o Brasil deixou de ser Brasil para se europeizar essa história surge, e com elas as comparações, a cada Copa. Nesta, a falta de jogo nas duas primeiras partidas abriu as discussões sobre a necessidade de contar com um meio-campista armador. A imprensa repete os nomes de ícones históricos, como Zizinho, Jair, Didi, Gérson, Sócrates ou Ronaldinho. “Falta um meio-campista criativo como Ronaldinho”, disse Pelé. “Scolari não tem riqueza tática, as mudanças são sempre as mesmas e falta criatividade”, afirmou Gérson. “Desde muito tempo os treinadores brasileiros optaram por jogar com volantes mais defensivos que criativos”, critica Pepe.

A discussão crítica soa todos os dias nos ouvidos de Scolari e de seus jogadores. “Sou tão perfeccionista como os torcedores, quero sempre melhorar. As pessoas preferem ganhar dando show e marcando muitos gols, mas, quando não se pode fazer isso, o importante é ganhar. Só os campeões são lembrados”, defende o lateral-direito Daniel Alves.

Eto’ou pode se despedir pela porta dos fundos depois de quatro Mundiais

O treinador brasileiro deve recolocar Hulk, que não jogou contra o México por lesão, na equipe. No sábado, entregou a ele o colete de titular e o colocou na ponta direita do ataque, sua posição habitual, que lhe permite colocar em prática seu aterrorizante chute de longa distância, um dos pedidos que Scolari tem exigido dos jogadores. Diante da Croácia, Hulk jogou pela esquerda para impedir as subidas de Srna. Sua volta, significa que Ramires, mal contra o México, voltará para o banco e que Oscar poderá ajudar mais na construção do jogo, muito plano e previsível até o momento. Também parece que Scolari vai manter como titulares Fred e Paulinho, dos dois jogadores mais discutidos da seleção. O primeiro por ser inoperante no ataque e o segundo por não mostrar o poderio de chegada desde a segunda linha, como fazia na Copa das Confederações.

O duelo também pode ser a última partida de Samuel Eto’o depois de quatro Copas do Mundo nas costas. Machucado e questionado em seu país por suas brigas com dirigentes por premiação, o que atrasou em um dia a chegada da seleção de Camarões ao Brasil, ele ainda é dúvida. Se jogar, tentará limpar uma imagem que merecia uma despedida em Copas mais fiel à sua trajetória.

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