Copa do Mundo 2014 | ESPANHA, ELIMINADA NA PRIMEIRA FASE

As causas do naufrágio

A falta de renovação e de vontade engoliram a Espanha, elegante também na derrota, e levaram a seleção a um desfecho impróprio para seu legado

Elegante nas derrotas como foi nas vitórias, a Espanha deixa o Brasil resignada, impotente e com a consciência de ter deixado um legado gigantesco para a história, mas também um final desastroso, impróprio de uma campeã como esta. Abaixo, algumas das possíveis causas do naufrágio:

- Falta de renovação. As lesões de Thiago Alcântara e de Jesé tiraram de Del Bosque dois jogadores com quem ele poderia ter revitalizado o grupo, um trabalho que foi de Piqué, Pedro e Busquets em 2010, e de Jordi Alba em 2012. Ele também não apostou em Isco, nem arriscou a levar Iturraspe, mesmo com o estado físico de Xabi Alonso, Xavi e Piqué , entre outros, já levar a pensar que haveria uma profunda transformação.

- Sem “fome”. No amistoso contra Guiné Equatorial, em novembro do ano passado, Del Bosque falou com os jogadores depois da partida: “Só vejo ‘fome’ nos olhos de Koke”, disse. O rendimento na Copa do Mundo e as palavras de Xabi Alonso ao final do torneio deram razão ao treinador. A sequência de vitórias acomoda os vencedores.

- Complacência. Todos os enviados especiais escreviam que os treinamentos da Roja eram esplêndidos, que os jogadores voavam e que o acidente contra a Holanda foi isso, um acidente. A realidade, no entanto, foi um time cansado e sem brilho desde o primeiro momento, que olhava para os rivais com um certo ar de superioridade incompatível com a realidade.

- Não houve mudanças sensíveis de um jogo para o outro. A calma de Del Bosque para abstrair as críticas e atuar conforme sua consciência foi a chave para o sucesso, tanto em Johanesburgo, na Copa-2010, quanto em Kiev, na Eurocopa-2012. Essa via moderada, de fazer apenas duas mudanças entre a pancada contra a Holanda e o jogo contra o Chile, mostrou-se mais uma vez falha. A equipe precisava de uma terapia de choque.

- A queda dos ícones. Não há dois jogadores mais relevantes nem mais imponentes na história da Espanha. Casillas e Xavi, por razões distintas, não puderam evitar a queda. Para o goleiro, pesaram os dois anos de entradas e saídas no time titular do Real Madrid. Ao meio-campista, que só jogou uma parte do primeiro jogo, os prejuízos do passar do tempo.

- Diego Costa, um peixe fora d’água. Nem nos amistosos, nem nos jogos oficiais, o atacante hispano-brasileiro se sentiu parte da equipe, resistente ao jogo de tabelas e sem a finura necessária para fazer explodir a sua exuberância física. Del Bosque insistiu com ele nos dois jogos, como se, pelo fato de o jogador ter optado pela Espanha em detrimento do Brasil, fosse necessário colocá-lo. Sem Villa, que nem jogou, deixado de fora pela idade, e com Torres irrelevante, a seleção marcou apenas um gol, e foi de pênalti. Com Llorente, Negredo e Soldado chegando aos trinta, não se enxerga grandes atacantes para o futuro.

- O meio-campo sob suspeita. Esta foi a melhor linha da Espanha desde 2008. Sobraram meio-campistas e muitos tiveram de ficar fora (Gabi, Iturraspe, Herrera, Parejo...). Mas desta vez os responsáveis por manter o estilo em alto nível vieram abaixo. Iniesta e Silva, dois virtuosos, perderam 23 bolas cada um, e, se somadas as duas primeiras partidas, foram os que mais perderam bolas. Alonso se arrastou por problemas físicos e Busquets também esteve longe de ser o que é.

- E uma defesa aterrorizada. Cada bola nas costas da defesa espanhola era um drama para ela e para seu goleiro, um Casillas fora de sintonia. Nem mesmo Sergio Ramos, recém-proclamado campeão da Europa, se salvou. Os laterais, Azpilicueta e Jordi Alba, assistiram ao desastre defensivo como meros espectadores, sem nenhuma presença no ataque.