Coluna
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A outra Copa do Brasil

Só quando terminar com as últimas sombras da escravidão, o Brasil terá conquistado a Copa das Copas e entrado na modernidade

Apesar de não duvidarmos que no futebol os negros podem ser iguais ou melhores que os brancos - mesmo que ainda sofram com piadas racistas - continuamos sem aceitar que o mesmo deveria acontecer em todos os outros campos, pois as brasas da escravidão ainda continuam vivas. Apagá-las totalmente será o grande desafio do Brasil moderno. Uma nova Copa do Mundo que o país deverá conquistar o quanto antes.

Quando este país escolherá, por exemplo, um presidente negro como já fez com um operário e uma mulher? Apesar de que a Copa se misturou com política mais que outras vezes com as críticas à sua organização e com as vaias de mau gosto à presidenta Dilma, apenas um pequeno número prefere outro maracanazo. O Brasil quer ganhar esta competição embora não seja mais a estrela que um dia fez o mundo vibrar. É provável que termine ganhando a Copa e que a festa inunde de novo as ruas, mas existem, na verdade, outras Copas esperando o país do futebol quando se apagarem as luzes do Mundial. E serão essas novas vitórias, que começarão a cimentar um novo país, moderno, capaz de crescer econômica e socialmente.

A primeira e talvez mais importante de todas, inclusive mais do que a luta contra a inflação ou contra a precariedade dos serviços públicos, é a de acabar com as cinzas ainda quentes dos restos de escravidão que se escondem entre as dobras das almas de muitos dos brancos.

O Brasil tem hoje, segundo os especialistas em novas tecnologias, um potencial de criatividade como poucos no mundo, a ponto de que os gurus da comunicação global do Vale do Silício na Califórnia, asseguram que os novos Jobs ou Bill Gates sairão, desta vez, do Brasil.

Trata-se de um potencial dos brasileiros no âmbito da inovação que por muito tempo esteve calado e do qual estiveram à margem sobretudo os negros. Hoje, a metade do Brasil, negros e pobres, não tem possibilidades de se superar e triunfar fora do mundo da bola.

O círculo do poder, enredado em seus velhos vícios de política com minúscula, deixou de aproveitar milhares de possíveis talentos que, como no futebol, teriam contribuído para que este país fosse hoje, não apenas o do petróleo ou da soja, mas o da criatividade tecnológica, que é onde se conquistam as verdadeiras Copas do Mundo da economia.

Para isso, o Brasil necessitaria revisar a fundo sua política de educação introduzindo nela elementos de inovação já presentes em tantos outros países e que, graças a isso, conseguiram entrar plenamente na modernidade. Precisa acabar com a resignação de que a escola pública é fundamentalmente para não-brancos, quer dizer, pobres, e a privada para brancos e ricos. O Brasil precisa de uma escola pública moderna em tempo integral.

O Brasil precisa, sobretudo, da conquista definitiva de algo que talvez esteja na base de todos seus atrasos políticos e educacionais: precisa desafiar essa discriminação latente, difícil de acabar, herdada da escravidão e que condiciona boa parte de sua vida social.

Com uma população na qual os negros ou pardos já são maioria (52%) e continuarão sendo cada vez mais, não se pode esperar mais para iniciar a batalha definitiva contra o preconceito de cor de pele, que também é o da cor da alma. Os brancos, apesar de serem minoria, continuam como os predestinados à primeira divisão, cada dia mais ricos.

Dos 14 milhões de analfabetos que ainda humilham este país, sexta economia do mundo; desses 60% de adultos analfabetos funcionais entre os quais figuram 1/3 dos estudantes universitários, estou convencido que 90% são negros ou pardos, descendentes ainda dos escravos aos quais foi concedida a liberdade, mas não o direito à educação.

Tudo isso continua alimentado pelos resquícios ainda vivos daquela escravidão, uma das últimas a ser abolida no mundo (1888) e que continua condicionando tristemente esta sociedade ao mesmo tempo rica em humanidade, solidariedade e criatividade.

Só quando o Brasil dissipar as últimas sombras da escravidão terá conquistado a Copa das Copas e entrado na modernidade para se converter no motor deste continente americano, que deveria ser sua verdadeira vocação.

E não é suficiente para poder conquistar a Copa contra esses restos de mentalidade escravista, fazer proclamações ou concessões que costumam ter mais de retórica e de interesse político do que de vontade de acabar com essa lepra.

Essas brasas da escravidão continuarão vivas enquanto um policial, ao ver correr, no meio de um assalto, um negro e um branco, sinta-se tentado a pensar que o bandido é o negro; ou enquanto na Universidade acharem que o aluno negro, não-branco ou também o indígena, terá mais dificuldades para estar à altura do branco, o que levará fatalmente a qualificá-lo segundo a profecia auto-realizada.

Seguirão vivas essas brasas enquanto o Congresso Nacional, o Governo, a Justiça e demais instituições em um país de maioria não-branca, continuarem sendo majoritariamente brancos.

Ou quando a polícia, ao entrar para revistar passageiros, inicie pelos negros. Há apenas dois dias, aconteceu com um jovem que eu conheço, um trabalhador negro, que ia do Rio à sua pequena cidade a cada semana: um agente policial entrou no ônibus e pediu autoritariamente que abrisse sua mochila. O jovem com poucos estudos, mas com consciência cívica, entregou a mochila e disse educadamente: "Pode abrir". O policial queria que o jovem a abrisse. "Se o senhor tem alguma suspeita, deve abri-la", respondeu o trabalhador. Os olhares se cruzaram. O do policial surpreso pela firmeza do negro e o do jovem consciente de sua dignidade como cidadão.

Ao me contar isso, o jovem me comentou: "Tudo isso porque minha pele é negra, um branco teria sido tratado diferente." Acham que ele não tinha razão? São essas brasas ainda sem apagar.

Pior talvez que aquele policial foi o senhor, dono de um cachorro mistura de vira-lata e de raça, que enquanto eu passeava dias atrás na frente da sua casa, veio por trás e apertou com sua boca meu pulso enquanto ia cravando seus dentes até me fazer sangrar.

Eu tenho paixão por cachorros e não tenho medo. Olhei bem nos olhos e pedi que me soltasse. Obedeceu. Procurei o dono, que tem casa também no Rio, para me assegurar que o cachorro estava vacinado antes de ir ao hospital.

Ainda estava dormindo. Saiu e muito educado me explicou que o cachorro estava com todas as vacinas em dia e que às vezes ele não gosta de algumas pessoas. Explicou-me que há, por exemplo, um senhor que teima em passear pela rua onde está localizada sua casa e o cachorro o odeia. E baixando o tom de voz, me confiou: "É que esse homem é negro".

Não precisei falar mais com ele. Entendi que quem não gostava do homem negro era ele. Basta dar uma olhada em um livro de zoologia para saber que os cachorros absorvem e assimilam os gostos e sentimentos de seus donos. Os cachorros, como as crianças, podem ser caprichosos e até violentos, mas nunca racistas. Que digam a caravana de mendigos que em qualquer parte do mundo convivem com seus cachorros e que, como as crianças, não distinguem entre reis e miseráveis e muito menos entre negros e brancos. Só sabem quem oferece mais carinho.

Enquanto continuar existindo gente que pensa que nem os cachorros gostam dos negros, continuaremos perdendo o mais precioso dos troféus: o que nos torna vitoriosos frente a nossa consciência. Todo o resto, como diria o escritor argentino, Martin Caparrós, "é besteira". Tristes besteiras.

O Brasil será capaz de emocionar um dia o mundo ganhando, além da de futebol, a Copa das Copas?

Talvez seja esse o maior desafio deste país, cuja sociedade luta com coragem, mas ainda com graves atrasos, para se livrar dos últimos malditos escombros herdados da velha escravidão.