GRUPO B | ESPANHA

Del Bosque pede rebeldia

Em uma final antecipada, cabe à Espanha recobrar a bola diante do aguerrido Chile

Treino da seleção no Maracanã. Alejandro Ruesga (atlas)

Chegou a hora de a Espanha retomar a bola que a Holanda lhe tirou durante todo um segundo tempo e com ela jogar um futebol que supere o Chile, seu aguerrido oponente de hoje em um duelo sem matizes, sem meio termo: uma vitória para a esperança ou um desconcertante fracasso definitivo. Já não adianta, para a equipe, os lamentos, as autocríticas ou os churrascos de conciliação. Chegado ao precipício, e à espera de análises apontando perspectivas, o que conta é só o futebol, a condição que dominava melhor há alguns dias. Esse é seu grande álibi. De fato, desta vez, em uma situação tão extrema, se a Espanha não se encontrar consigo mesma terá de buscar um atalho por qualquer caminho que a conduza à vitória. Não lhe resta outro remédio, a não ser o seu estilo como ponto de partida.

Em seu interior, tão relevante tem sido para La Roja o divã para a recuperação anímica como a busca de seus traços em campo. Ninguém está alheio ao fato de que foi o futebol que castigou a seleção e a deixou exposta à intempérie diante da Oranje, e não as paragens de seu local de concentração, em Curitiba, o clima ou outras mesquinharias. Na Copa das Confederações no Brasil, há apenas um ano, La Roja se aclimatou pontualmente na cidade cenário de cada partida e na final diante do Brasil foi inexpressiva em termos físicos. “A preparação foi muito boa”, declarou ontem Iniesta, que, como repetiram nos últimos dias outros jogadores da seleção, se mostrou satisfeito com o esquema planejado para a seleção.

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Os planos prévios já pouco importam diante de uma final tão antecipada com a qual ninguém contava. Para retificar o caminho, Vicente del Bosque apelou ontem para dois atributos pouco comuns em seu discurso: “Rebeldia e valentia”. A situação extrema exige isso. “Vamos enfrentar um adversário valente e muito intenso, e temos que estar à sua altura em tudo, sem perder nossa identidade, ainda que também possamos mesclar outra forma de jogar menos habitual para nós, mas com a qual possamos causar danos”, ressaltou o técnico espanhol, que não desdenhou do fato de que o nervosismo poderá ser favorável ao seu grupo. “Ansiedade é um termo muito perigoso, mas acredito que uma ansiedade controlada não seja má, ruim seria ter excessiva indiferença e dizer que não tem problema perdermos; estamos muito doídos e os dias desde a partida contra a Holanda foram extremamente longos, mas temos uma grande responsabilidade e espero que a resposta a ela seja dada com rebeldia”, apontou o treinador de Salamanca.

Del Bosque disse ter lido “muitas” das críticas feitas durante os últimos dias. Na sua opinião, “a maioria se aproximou do que aconteceu na partida contra a Holanda”. Tanto o treinador como os jogadores sustentam insistentemente que, mais do que erros táticos e uma fragilidade física, a equipo se viu repentinamente em uma situação adversa: “Não soubemos ler os momentos da partida, isso não pode acontecer diante do Chile”, advertiu Fernando Torres. Del Bosque deixou claro que já tem a formação decidida e que haverá mudanças, “ainda que não muitas”, e lembrou que os não escalados contra a Holanda “também são excelentes jogadores, têm seu prestígio e jogam em grandes clubes”. Nesse ponto, Fernando Torres enfatizou qual é a situação do vestiário: “O que menos importa é quem joga: nós ganhamos como grupo e, se tivermos que perder, perderemos como grupo.

Com a corda no pescoço, tanto Iniesta como Torres, porta-vozes do vestiário no Maracanã, antes do último treino, apelaram para una vitória “como for”. “Se jogarmos futebol teremos mais chances, sabemos que os chilenos marcam muito e muito em cima, mas se superarmos essas primeiras marcações encontraremos espaços”, disse o azul-grená, convencido de que restam “duas finais” para a equipe. “Se não pudermos ganhar com nosso estilo, com a bola, teremos que ganhar como for”, afirmou Torres, que vislumbrou um duelo “muito intenso” diante de um rival muito enérgico, intrépido e sem grandes fissuras.

O Chile não é um joão-ninguém. Com Jorge Sampaoli no comando, mantém muitas das constantes que já com Marcelo Bielsa fizeram do time um suplício para qualquer adversário. A Espanha já padeceu, apesar de ter saído vitoriosa, na África do Sul. No Brasil, não será o primeiro confronto entre chilenos e espanhóis. Curiosamente, há 64 anos, no dia 29 de junho de 1950, diante de cerca de 20.000 espectadores, a Espanha se mediu com o Chile no Maracanã, também na segunda partida da primeira fase. Na época, a vitória foi por 2 a 0, com gols de Basora e Zarra. Um aceno do passado para um presente que se prenunciava muito melhor. Mas ninguém é melhor candidato a uma revanche do que um campeão “rebelde”.