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COLUNA

O frade e a freira

A realização da Copa do Mundo veio para exacerbar as opiniões, de tal maneira que estamos nos tornando seres binários

Hoje quero falar sobre duas pessoas por quem tenho imensa admiração, ambos escritores de primeira linha, ambos seres humanos devotados à causa mais nobre, qual seja, instaurar o reino da felicidade na Terra. Um é o mineiro Carlos Alberto Libânio Christo, frade dominicano mais conhecido como Frei Betto. A outra é a santista, freira da Congregação de Nossa Senhora - Cônegas de Santo Agostinho, chamada Maria Valéria Rezende.

Frei Betto é um dos meus vizinhos mais famosos (o outro é o também mineiro Humberto Werneck), autor de mais de 50 títulos de teologia, reportagens, ensaios, juvenis, memórias, contos e romances. Entre eles, destacaria o já clássico Batismo de sangue, que conta o trágico envolvimento de um grupo de dominicanos na luta contra a ditadura militar; a coletânea de contos Aquário negro; e os romances Hotel Brasil e Minas de Ouro. Frei Betto é conhecido por seu engajamento em prol dos direitos humanos, pela coragem na defesa de suas ideias, pela coerência de seus pontos de vista.

De vez em quando, encontro-o em feiras e festivais literários, sempre arrastando uma mala de livros, sempre disposto a conversar com todas as pessoas que o procuram. Frei Betto esteve presente nos momentos cruciais da história recente do Brasil, tendo, inclusive, sido assessor especial da Presidência da República, entre 2003 e 2004. Decepcionado com a política econômica e com os escândalos de corrupção, afastou-se do governo petista, tornando-se uma voz critica.

Maria Valéria Rezende estreou tardiamente na literatura. Envolvida desde muito cedo em movimentos de educação popular, perseguida pela ditadura deixou Sao Paulo para radicar-se no interior do Nordeste, primeiro em Pernambuco e depois na Paraîba, adiando seu projeto pessoal de escrita. Somente em 2001 publicou seu primeiro livro, a coletânea de contos Vasto Mundo, a que se seguiu outra, Modos de apanhar pássaros à mão, e os romances O voo da guará vermelha e Quarenta dias, além de vários títulos juvenis.

Há alguns anos, Maria Valéria mora num convento em João Pessoa, onde cuida de irmãs mais idosas. Seja em seu trabalho no sertão, junto a comunidades paupérrimas, seja nas páginas de seus livros, Maria Valéria se posiciona claramente ao lado dos deserdados da vida.

Por que evoco, neste momento, essas duas personalidades? Acompanhamos, com preocupação, a transformação do fosso que sempre separou ricos e pobres no Brasil em um enorme abismo. A radicalização das posições políticas está evidenciando o fundo de uma sociedade marcada pela intolerância. A realização da Copa do Mundo veio para exacerbar as opiniões, de tal maneira que estamos nos tornando seres binários, sem qualquer complexidade: se criticamos A somos demonizados pelos seus seguidores e imediatamente alinhados a Z - e vice-versa... Quando sabemos que há inúmeras nuances entre A e Z...

Evoco, portanto, as figuras de Frei Betto e Maria Valéria Rezende como representativas daquelas pessoas que abriram mão de um projeto individual de felicidade para dedicar-se a um projeto coletivo, em que a tolerância é a essência para a compreensão da realidade à nossa volta. No momento em que as pessoas rompem amizades de anos por causa de divergência de ideias, deveríamos exercer mais nossa capacidade de escutar o que o outro está dizendo. E termos a humildade de compreender que, embora o caminho da felicidade percorra o terreno mais íngreme, o fim da viagem é também o mais recompensador.