Copa do Mundo 2014 | Espanha

A Espanha contra a vertigem

O grupo de Del Bosque não combina com a pirotecnia, mas sente que tem de dar uma resposta impactante

Vicente del Bosque, durante um treino em Curitiba.
Vicente del Bosque, durante um treino em Curitiba.

A seleção espanhola se encontra na situação mais drástica e abismal de sua fase de sucesso. Os campeões também se defrontam com a vertigem, e La Roja debate nestes dias consigo mesma depois da hecatombe com a Holanda. Diante do Chile a Espanha continuará toureando como sempre, ou fará investidas como nunca? Fruto da ansiedade, uma repentina mudança de padrão deixaria a equipe em uma situação de risco, em desequilíbrio perante o desconhecido. Essa equipe de suprema moderação jamais se pôs à prova na combustão, e isso poderia se tornar ortopédico, estrepitoso. O grupo espanhol nunca se deparou com a pirotecnia, mas contra o Chile sente que tem de dar uma resposta contundente e impactante, o que o pode levar a uma perigosa falta de comedimento, à desordem vista depois do segundo gol da Holanda. Um dilema mental que a Espanha terá que resolver com tentativas, com a máxima de que o terceiro gol não chega antes do primeiro. Não há necessidade de imolar-se, por mais que a estocada holandesa tenha chegado ao osso.

Em suas entranhas, os espanhóis, que ontem no meio da tarde viajaram para o Rio de Janeiro, sabem que uma simples vitória contra o Chile amanhã no Maracanã pode ser estéril, ao mesmo tempo que causa angústia um fracasso que faça encerrar um ciclo celestial sem a dignidade merecida. A Espanha luta tanto por uma classificação muito intrincada quanto por uma despedida em conformidade com sua trajetória nos últimos tempos. Nenhuma das duas questões será fácil, mas a passagem pelo topo durante seis anos convida a pensar na conveniência de fortalecer as certezas antes de propor uma cirurgia extrema. É aí onde Vicente del Bosque terá que agir, ele que nunca foi um radical, mas um homem equilibrado, nada propenso ao populismo.

Diante dos chilenos seria uma surpresa maiúscula que o técnico revolucionasse a escalação. É previsível, como é lógico, que haja retoques, com Javi Martínez, Koke e Pedro escalados como titulares para revigorar e dar energia ao conjunto. Na intervenção de Del Bosque será preciso ver a reação na concentração. Quem quer que saia da equipe será um peso-pesado, porque quase todos tomaram parte na funesta partida inicial. O treinador insistiu que ninguém deve sentir-se na mira, mas em seu íntimo ele sabe que isso será inevitável. Ao conhecer a escalação alguém terá que responder com a grandeza da estrela que leva ao peito e deverá fazê-lo com total generosidade. É bem provável que para quem se veja jogado no banco seja sua última participação na equipe, e que em seus planos não figurava um adeus em uma tristíssima, indesejável e desagradável partida final contra a Austrália. Sem umbiguismo, depende de todos, titulares e reservas, o sonho de que as oitavas contra o Brasil se tornem realidade. Nada melhor para tentar estancar a confusão da sexta-feira passada ou até para pôr o ponto final à grande trajetória do futebol espanhol.

No Chile se vê um adversário de corpo inteiro, mas se a Espanha recupera sua constância deve sair-se galantemente. Sem alardes, no primeiro tempo contra a Holanda deixou parte de seu rastro. Mas coisa diferente será conseguir fazer os gols necessários para obter a classificação. O futebol não é uma ciência, é rebelde, e nas análises prévias só resta agarrar-se, ainda que seja com alfinetes, aos antecedentes. Nem em sua trajetória no topo a Espanha deus aulas de como golear, e em sua grande aventura somente deslanchou contra a Rússia na Eurocopa de 2008 e contra uma Itália de dez jogadores na final do mesmo torneio quatro anos depois. Em ambos os casos, o fez à sua maneira, com sua equipe à frente. É a receita que melhor conhece. E diante de um precipício, como se encontra a Espanha, nada é mais intrépido que ser a Espanha pré-Holanda.

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