Coluna
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Onde foi parar a nossa alegria?

Após uma viagem de onze horas, desembarco em Cumbica, vindo de Paris. Sinto uma certa ansiedade em saber o que me aguarda neste país, que deixei há cerca de um mês, por razões de trabalho. Ainda no aeroporto Charles de Gaulle me deparei com uma simpática manifestação dos funcionários da Air France, que, além de estenderem uma bandeira do Brasil no balcão de embarque, penduraram várias outras bandeiras pequenas nos cordões que cercam o corredor que nos conduz ao portão.

Já instalado em minha poltrona, descubro que a maioria dos passageiros é formada por torcedores de várias partes do mundo. Ao meu lado e à frente, dois casais de argelinos. Nas fileiras próximas identifico torcedores da Croácia, da Grécia e até do Japão. Às minhas costas, um curitibano explica, em inglês, para dois franceses, que em Porto Alegre há um bar que eles não podem deixar de conhecer, pois possui uma das maiores coleções de cervejas artesanais do Brasil. E aproveita para ensinar, em português, alguns jargões, como “futebol é uma caixinha de supresa”, “o jogo só acaba quando termina”, “futebol é onze contra onze”. Um de seus ouvintes anota numa caderneta e repete as frases com uma impressionante precisão.

O avião aterriza no horário previsto e às 5:54 já estamos atravessando o túnel que, percebemos atordoados, nos leva a uma imensa fila. Após 45 minutos, em que caminhamos poucos metros, um funcionário aparece gritando para os brasileiros se posicionarem à esquerda. E então nós, em pouco menos de 10 minutos, ultrapassamos as fronteiras e penetramos aliviados no Brasil. Mas deixamos para trás nossos convidados que, certamente, iriam permanecer naquele lento avanço por mais uma hora e meia, duas horas. Na esteira, as malas já mostravam-se tontas de tanto rodar para lá e para cá, sem serem resgatadas.

Tomei um táxi e perguntei para o motorista se ele estava animado com a Copa do Mundo. Ele me respondeu num muxoxo, que não sei se era de irritação ou de desconsolo. Passei então a observar os carros que, como nós, espremiam-se num engarrafamento, que começando ainda na rodovia Airton Senna continuava pelas faixas da Marginal Tietê. Estranhei que quase nenhum carro ostentava a bandeira brasileira. Contei exatamente cinco ao longo de todo o trajeto.

O táxi me deixou na porta do meu prédio às oito e vinte e cinco. Deixei minhas malas em casa e fui tomar o café da manhã na padaria. Antes, conversei com o E., da banca de jornal, que, entre revistas e periódicos, exibia camisetas, chapéus e lenços verde-amarelos. Indaguei se estavam vendendo bem, ele respondeu, o pessoal anda meio desanimado. Por quê?, insisto, e ele, dando de ombros, afirma que não sabe.

Para não sucumbir à diferença do fuso horário, não descanso. Vou para a rua e procuro sentir a pulsação das ruas. Mas percebo que as pessoas sentem certa vergonha de falar sobre o assunto Copa do Mundo. É como se todos estivéssemos fingindo que não está acontecendo nada à nossa volta. Os estrangeiros se divertem, despreocupados. Poucos chegarão às semifinais, mas neste momento ninguém se importa com isso. Estão todos felizes, hedonisticamente desfrutando o momento.

Mas nós, os brasileiros, sentimo-nos incomodados. Seqüestraram a nossa alegria.