Caso Messi

A Guarda Civil investiga as contas da Fundação Messi

As investigações sobre as partidas beneficentes se estendem a oito países e dois paraísos fiscais

Messi, rodeado de crianças em uma partida beneficente.
Messi, rodeado de crianças em uma partida beneficente.Alejandro Gómez (AFP)

O inquérito sobre o suposto esquema criminoso envolvendo as partidas beneficentes do jogador argentino do Barcelona Leo Messi foi ampliado para sete países, incluindo China e vários paraísos fiscais. Um emaranhado de empresas na ilha de Curaçao (no sudeste do Caribe), em Hong Kong e Panamá, na Argentina, Peru, Colômbia, México, Espanha e Estados Unidos concentra a investigação conduzida pela Guarda Civil para esclarecer se as partidas de 2012 e 2013, chamadas de Messi e seus Amigos contra o Resto do Mundo, foram utilizadas como cobertura para o narcotráfico para a lavagem de dinheiro.

Os investigadores da Unidade Central Operativa (UCO) da Guarda Civil pediram ao juiz de Madri, Eduardo López-Palop —que abriu processos por crime de lavagem de dinheiro e contra a Fazenda espanhola— que solicite às autoridades bancárias e à Agência Tributária todas as movimentações financeiras da Fundação Lionel Messi desde 2011.

Os agentes pedem que os Estados Unidos forneçam dados sobre várias empresas

Os agentes também querem interrogar Guillermo Marín. Trata-se do cidadão argentino que, junto a Messi, seria o suposto destinatário de cinco transferências bancárias que somam cerca de um milhão de euros (cerca de três milhões de reais). Este dinheiro, não declarado ao fisco, foi remetido a uma sociedade com sede em Curaçao, a empresa colombiana Total Conciertos. Esta é a companhia que organizou na Colômbia duas partidas disputadas por Messi e seus Amigos em seis países americanos.

A suspeita da Guarda Civil, a julgar por essas transferências, é que as partidas serviram para acobertar recursos de procedência duvidosa. Como, supostamente, teria ocorrido a lavagem de dinheiro? Com a imagem de que os estádios ficavam lotados e que as entradas, por tratar-se de eventos beneficentes, geraram muito dinheiro porque foram compradas a preços elevados. Na verdade, em nenhum caso os estádios ficaram cheios.

A investigação busca conexões entre Guillermo Marín e a fundação do jogador do Barça

Além das contas da fundação e das relações da organização com outras empresas, os agentes de combate à lavagem de dinheiro da UCO pedem ao juiz López-Palop que solicite aos Estados Unidos, onde foram realizadas duas partidas e uma terceira foi cancelada, toda a informação da empresa World Soccer Master que organizou uma dos jogos em Miami em 23 de junho de 2012. Em algumas partidas, Messi levou Dani Alves, Mascherano e Pinto, companheiros do jogador no Barcelona.

Apresentaram-se como partidas beneficentes, mas as queixas das fundações sociais pelo não recebimento das doações arrecadadas multiplicaram-se. Houve a exibição de enormes talões milionários com supostos fins sociais no meio do campo e com Messi de garoto-propaganda. Não entanto, algumas das fundações beneficiadas não receberam o prometido. Nos Estados Unidos, a investigação também está focada na empresa Número 5 Producciones que organizou no estádio Soldier Field, de Chicago, outra partida, em 6 de julho de 2013. Os agentes querem todas as contas bancárias e vínculos societários desta companhia representada por Ada Linares.

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A partida que seria realizada em 3 de julho no Memorial Coliseum de Los Angeles foi suspensa. E os agentes querem saber o motivo. E pedem que os Estados Unidos forneçam toda a documentação bancária disponível de outra empresa, Total Entertainment, durante 2012 e 2013. Esta empresa está vinculada, segundo os investigadores, a Harrigsson González e Andrés Barco, dois dos principais implicados nestas investigações e donos da empresa Total Conciertos, que organizou as partidas da Colômbia. Esta empresa é também a que forneceu à Guarda Civil as informações sobre a transferência de dinheiro ilegal ao paraíso fiscal de Curaçao. Na parte superior direta dos extratos dessas transferências está escrita à mão a seguinte nota: “Pago G. Marín-Messi”. E o envio, em parcelas, de quase um milhão de euros.

A UCO quer que a Fazenda informe os dados disponíveis na instituição

Guillermo Marín é o representante da empresa Imagen Deportiva e amigo do pai de Messi. O jogador, por sua vez, garantiu à Guarda Civil que o conhece desde 2006 e que é a pessoa que se encarregou de coordenar as partidas, eventos que também passaram por Lima (Peru), Colômbia, Cidade do México e Cancun. Marín é argentino e foi quem, segundo as investigações, negociou com Andrés Barco, em Barcelona, em abril de 2012, a temporada de Messi. A empresa Imagen Deportiva está sediada em Buenos Aires, outra localidade também na mira das investigações. Os agentes pretendem que as autoridades argentinas forneçam todas as contas bancárias desta empresa. E, em concreto, seus supostos vínculos com a Fundação Lionel Messi, e se está autorizada a retirar dinheiro das contas bancárias da Imagen Deportiva.

Na Colômbia, sede das partidas de Bogotá e Medelín, os agentes exigem toda uma lista de provas: contas bancárias e movimentos das empresas de Barco, Harrigsson e de Omar Pinzón. Pinzón é uma das pessoas que investiram dinheiro nas partidas de Messi e seus Amigos.Também querem que a Unicef da Colômbia confirme se recebeu dinheiro da fundação, quanto e como. E que as fundações que denunciaram o não pagamento das doações expliquem o ocorrido.

As investigações abrangem empresas sediadas em Curaçao e Hong Kong

No Peru e no México, a Guarda Civil investiga quem está por trás de diversas empresas que aparecem como organizadoras das partidas de Messi supostamente de caráter beneficente nesses países. Os agentes buscam conexões entre elas: já têm algumas identificadas. O outro país sob investigação conduzida pela UCO é o Panamá, onde também foram descobertas empresas também relacionadas com estes eventos. E, especialmente, uma na ilha no Caribe, a de Curaçao. Ali foram parar 1,3 milhão de dólares (2,9 milhões de reais) que a empresa Total Conciertos transferiu a “G. Marín-Messi”. E várias empresas em Hong Kong (China).

A presença de Messi nestes inquéritos é devido ao fato do jogador ser residente em Barcelona e estar obrigado a declarar sua renda na Espanha e os recursos obtidos no exterior. Se, como indicam os agentes, ele foi o destinatário, esses 1,3 milhão de dólares das cinco transferências a Curaçao teriam que ter sido declarados na Espanha. As investigações da Guarda Civil não têm nada a ver com o processo de fraude fiscal aberto pela Agência Tributária espanhola, pela qual o argentino pagou cinco milhões de euros para regularizar sua situação.

O juiz de Madri Eduardo López-Palop perguntou à promotoria se deve acatar os pedidos enviados pela Guarda Civil.