BARCELONA | CASO MESSI

A polícia espanhola descobre o ‘caixa dois’ das partidas beneficentes de Messi

Os agentes descobrem cinco transferências de quase um milhão de euros Elas foram enviadas a uma empresa do paraíso fiscal de Curaçao para "G. Marín-Messi"

Messi e a Guillermo Marín, em julho de 2013 no Panamá.
Messi e a Guillermo Marín, em julho de 2013 no Panamá. (Getty)

Os jogos de futebol supostamente beneficentes que o astro argentino do Barcelona, Lionel Messi, realizou durante os anos 2012 e 2013 em seis países americanos, dos Estados Unidos até a Colômbia, passando por México e Peru, estão sob suspeita judicial. A unidade anti lavagem de dinheiro de um departamento de elite da Policia Civil espanhola (a UCO) investiga cinco transferências bancárias de quase um milhão de euros procedentes dos organizadores de ao menos dois desses eventos beneficentes que acabaram em uma empresa localizada no paraíso fiscal de Curaçao (nas Antilhas Holandesas, sudeste do Caribe).

Os comprovantes dessas transferências contêm anotações manuscritas que sugerem que os destinatários do dinheiro foram “G. Marín-Messi”. Guillermo Marín é a pessoa a quem Messi entregou o gerenciamento de suas partidas beneficentes, denominadas Messi e seus amigos contra o resto do mundo.

Os investigadores acreditam que grande parte dos tais encontros amistosos foram organizados pelas mesmas pessoas encobertas em sociedades com nomes distintos.

O Juizado de instrução 51 de Madri abriu diligências relacionadas a estes eventos esportivos pelos crimes de lavagem de dinheiro e fraude fiscal. Essas investigações são separadas do processo que recentemente foi aberto pela Agência Tributária da Espanha contra Messi, por ele não ter declarado à Receita os pagamentos de seus direitos de imagem (o jogador depositou cinco milhões de euros em um tribunal para diminuir a responsabilidade penal no julgamento que acontece em pouco tempo em Barcelona).

Neste caso mais recente, os policiais investigam uma suposta trama colombiana que, em conivência com cidadãos espanhóis, utilizaria as partidas (altruístas) de Messi para lavar dinheiro do narcotráfico. E, também, as últimas atuações em três grandes cidades espanholas —nos dias 15, 16 e 17 de junho de 2012 em Madri, Murcia e Barcelona— do famoso cantor mexicano Vicente Fernández, de sua turnê de 29 shows pelo mundo.

Vários jogadores do Barcelona negam ter recebido por atuar no evento

As primeiras investigações apontam que, embora tenham sido divulgados como jogos beneficentes, na realidade os jogadores que atuaram nessas partidas foram pagos. E que alguns desses pagamentos foram enviados ao paraíso fiscal de Curaçao.

Os policiais pedem mais investigações para esclarecer o destino dos fundos

Os cinco comprovantes bancários que mostram o destino nebuloso desses pagamentos foram enviados à Policia Civil pela empresa colombiana Total Conciertos. Esta é a sociedade que organizou a partida que disputaram Los Amigos de Messi contra o resto do mundo em Bogotá (Colômbia), em 21 junho de 2012. Esses comprovantes revelam que a empresa citada enviou, de forma fracionada, 1,37 milhões de dólares (3,7 milhões de reais) a uma conta que a empresa Mandatos Velineg SRI tem em um banco chamado First Caribbean International Bank, no paraíso fiscal de Curaçao. Nos comprovantes, em sua parte superior esquerda, existem anotações manuscritas nas quais se lê: “pagamento G. Marín-Messi”, e as respectivas quantidades. Guillermo Marín é amigo da família Messi e responsável pela sociedade argentina Imagen Deportiva, que se encarregou do gerenciamento desses eventos esportivos beneficentes. Tanto Messi como seu pai, Jorge Horacio Messi Pérez, já foram interrogados pela Policia Civil. Reconhecem em seus depoimentos que têm relação com Guillermo Marín e que ele gerenciou essas partidas. Ambos também afirmam que não houve lucro pessoal nessas partidas, já que elas eram beneficentes.

No entanto, o advogado na Espanha da sociedade Total Conciertos (a que organizou os jogos na Colômbia) entregou à Policia Civil cinco comprovantes de transferências bancárias que endossam a existência de pagamentos aos jogadores e ao próprio Messi. Também contribuiu com a investigação um sexto comprovante que revela uma outra transferência de 100.000 dólares (224 mil reais) à sociedade ITS Viajes S.A., da Argentina. Esta última quantia, segundo os investigadores, foi destinada ao pagamento dos bilhetes de avião dos jogadores que participaram das supostas partidas beneficentes. Messi convidou para seus jogos vários colegas seus no Barcelona.

O pai de Messi declara que é amigo do empresário Guillermo Marín

As cinco transferências de 950.000 euros (2,9 milhões de reais) foram enviadas ao First Caribbean International Bank de Curaçao justamente nas datas dos encontros beneficentes ocorridos em 2012, segundo fontes da investigação. Os agentes, a julgar pela documentação dos organizadores do jogo de Bogotá, acreditam que essa conta, nunca conhecida pelo fisco, pode pertencer ao próprio Messi ou a Guillermo Marín.

Um juiz de Madri abriu um processo por lavagem de dinheiro e fraude fiscal

Em sua declaração diante da Policia Civil em Barcelona, Messi falou sobre Guillermo Marín: “É um empresário argentino que conheço desde 2006 e que organiza as partidas de minha Fundação, a Lionel Messi. Não há nenhuma relação entre ele e minha Fundação”. Os agentes perguntaram: "Quem de sua família mantém contatos com Marín?. “Eu não, quem o contata é meu pai”. Messi acrescentou ainda que nessas partidas foi a Fundação que recebeu dinheiro, que depois foi destinado a fins sociais.

A realização dos jogos beneficentes de Messi está cercada de polêmicas porque as fundações às quais a arrecadação seria destinada denunciaram que o dinheiro nunca foi recebido, apesar de a divulgação das partidas afirmar que a bilheteria se destinaria a causas sociais.

Os jogos sob investigação aconteceram em 2012 e 2013 em Cancún e Quintana Roo (México), Bogotá e Medellín (Colômbia), Peru (Lima), Los Angeles e Miami (EUA). Tanto Messi como os jogadores do Barcelona que o acompanharam em algumas dessas partidas (Daniel Alves, Mascherano e José Manuel Pinto) negaram perante a Polícia Civil que receberam, a título pessoal, dinheiro dessas partidas. Mas admitiram que foram pagos os deslocamentos e a hospedagem. Jorge Horacio Messi Pérez, pai de Messi, destacou que parte do dinheiro do jogo de Bogotá foi destinado à Fundação Lionel Messi e, por meio dela, à UNICEF Colômbia.

Messi abraça Neymar em um amistoso em 2012, em Lima (Peru).
Messi abraça Neymar em um amistoso em 2012, em Lima (Peru). (getty)

A UCO, a mesma unidade que descobriu na Espanha em 2006 a trama mundial de doping no ciclismo (a Operación Puerto), duvida da veracidade dessa doação à UNICEF e do destino real que foi dado ao dinheiro arrecadado com essas partidas. Por enquanto, nas diligências, não há nenhum denunciado por crime de lavagem de dinheiro e contra a fazenda pública espanhola. São muito incipientes as investigações. Oficialmente, há três investigados (Guillermo Marín; o presidente da sociedade Total Conciertos, Harigsson González, e seu vice-presidente, Andrés Barco). E crescem os indícios sobre a participação de ao menos outras seis pessoas, segundo fontes das investigações. Messi, seu pai e seus colegas do Barça deram depoimentos como testemunhas nestas diligências.

A Policia Civil colocou sua atenção nas cinco transferências bancárias feitas para a empresa obscura de Curaçao. E pediu permissão judicial para desenvolver novas diligências e esclarecer quem está por trás dessas contas. A justificativa é que, dado o volume de dinheiro enviado, quase um milhão de euros, ela ou os destinatários desse dinheiro, cometeram um delito fiscal. Em termos fiscais, Messi tem residência em Barcelona e está obrigado a declarar na Espanha seus rendimentos, inclusive os que obtiver no exterior.

O representante de uma fundação diz que recebeu ameaças da parte de Messi

As partidas supostamente beneficentes jogadas por Messi foram planejadas em março de 2012 durante um jantar no restaurante El Rey de la Gamba, localizado no porto da capital catalã. Andrés Barco, da sociedade Total Conciertos, e considerado o suposto cabeça desta trama de lavagem de dinheiro, viajou da Colômbia para Barcelona para encontrar com Guillermo Marín, que propôs a organização dos citados jogos de futebol nesses países.

Várias fundações sentem-se enganadas porque não receberam o dinheiro

A investigação sustenta, baseando-se em declarações de testemunhas e dos próprios organizadores dos eventos, que Andrés Barco, vice-presidente da empresa Total Conciertos, entregou “a Guillermo Marín quatro milhões de dólares” para que ele os administrasse e pagasse para todos os jogadores as passagens e as hospedagens, e uma quantidade extra pela atuação no jogo. Várias testemunhas ressaltaram que há conversas sobre estes quatro milhões, nas quais eles são chamados de “quatro melões”. Elas indicariam que dois desses quatro melões acabaram, supostamente, nas mãos de Messi.

O promotor esportivo mexicano Benjamin Matheis tem declarado que, em julho de 2011, se entregou um donativo à Fundação Lionel Messi no valor de 68.553 euros (210 mil reais), por uma partida realizada na Cidade do México. E que isso foi feito com a finalidade de ter o compromisso do jogador do Barcelona para que ele atuasse no ano seguinte em outro jogo (beneficente). Esta partida ocorreu em Cancún em 16 de junho de 2012. E é um dos seis encontros que investiga a Policia civil. Embora as sociedades organizadoras, entre elas duas norte-americanos, mudem de nome de acordo com o país onde ocorre a partida beneficente, os pesquisadores suspeitam que por trás de todas elas podem estar as mesmas pessoas.

Antes do jogo de Bogotá, organizado pela Total Conciertos, houve um baile beneficente para animar a participação do público. Nele se decidiu que parte dos benefícios iriam para a Fundação Lionel Messi, e o resto para duas associações beneficentes. Para escolher as beneficiadas, a entidade resolveu buscá-la dentre as que se inscrevessem como requerentes, expondo seu fim social, em um site criado pela organização justamente para isso: www.batalladelasestrellas.com. Cada prato do jantar custou entre 640 e 1.200 euros. As associações finalmente escolhidas foram Benposta Interval (de Cidade dos Muchachos), representada por José Luis Campo Rodicio e com sede em Ourense (norte da Espanha), e a colombiana Yo Soy Internacional.

Messi, em um amistoso na Cidade do México em 2011.
Messi, em um amistoso na Cidade do México em 2011.alejandro godínez

O vice-presidente da Total Conciertos, Andrés Barco, afirmou semanas depois da partida que os jogadores que participaram desse encontro foram pagos (eles negaram), e também admitiu que o dinheiro prometido às fundações beneficentes ainda não havia sido entregue a elas. A fundação denominada Yo Soy Internacional não recebeu os cerca de 40.000 euros prometidos. E Benposta, segundo seu representante, recebeu apenas 4.500 euros.

O representante da Benposta afirmou à Policia Civil que recebeu um telefonema de Guillermo Marín, gestor das partidas beneficentes de Messi, em que ele “em péssimo tom” o repreendeu por ter falado com este jornal sobre o não pagamento da doação. “Não quero voltar a escutar você falando sobre o tema”, afirmou. E pediu que ele desse um número de conta, prometendo que no dia seguinte teria o dinheiro em dívida. Mas ele nunca chegou. O representante da entidade apontou ainda aos agentes que em um encontro com o presidente da Total Conciertos, ele disse que “era mentira que os jogadores não cobrassem”. E que Messi, por meio de Guillermo Marín, recebeu dois milhões de dólares. A UCO pediu ao juiz Eduardo López-Palop toda uma bateria de novas diligências para descobrir o que ocorreu e onde se encontra todo o dinheiro destas partidas.

Investigacion@elpais.es

A organização nega relações com o narcotráfico

J. A. H.

Andrés Barco e Harrigson González, vice-presidente e presidente da sociedade Total Conciertos, que organizou parte das partidas beneficentes de Messi e de seus amigos em seis países americanos, estão no centro das investigações da Polícia Civil. Não há uma acusação formal contra ambos, mas os agentes suspeitam que eles podem ter relação com uma trama cujo objetivo seria lavar dinheiro do narcotráfico através de eventos esportivos e musicais (entre eles, a turnê mundial do cantor mexicano Vicente Fernández). Tanto Barco, considerado o cabeça, como González negam vinculações com o narcotráfico. Ambos têm abertas investigações por supostos delitos de fraude, furto e falsidade em documento público em seus países, segundo comprovou a UCO espanhola.

Como esse dinheiro seria supostamente lavado? Aparentando que um espetáculo esportivo ou musical conseguiu uma grande arrecadação, no convencimento de que ninguém, salvo os organizadores, dispõe das contas reais. Os jogos de futebol de Messi não foram rentáveis. González, presidente da Total Conciertos, ressaltou à Policia Civil que o dinheiro das transferências feitas a Guillermo Marín —que, segundo declarou Messi, se encarregou de  vender os jogos benéficos—, é de procedência legal. Indica que está há 23 anos dedicado ao negócio dos “clubes de entretenimento” e à organização de concertos, obras de teatro e outras atividades culturais. Ressalta que, em 2010, o Ministério da Cultura da Colômbia o designou “empresário do ano”. E acrescenta que os pagamentos fracionados dessas partidas feitos a Guillermo Marín (não especifica que emitiu o dinheiro a uma conta suspeita no paraíso fiscal de Curaçao) procederam da venda das entradas do evento esportivo. E que todo o dinheiro arrecadado foi declarado em seu país, Colômbia. Assim como González, Andrés Barco assegura que está a dispor da Policia Civil para explicar o que for necessário, e lembra que fez um exercício de transparência enviando os comprovantes sobre os pagamentos em Curaçao ao representante da firma que gerenciou os jogos de Messi.

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