Copa do Mundo 2014

A América para os sul-americanos

Sabemos que a Inglaterra é a mãe do futebol, mas continuamos acreditando que somos os pais, mesmo que achem essa imagem irreverente. E é

Neymar, durante um treino do Brasil.
Neymar, durante um treino do Brasil.VANDERLEI ALMEIDA / AFP

Uma Copa no Brasil soa redundante: futebol com futebol. Mas soa bem. Um país que incorporou o ritmo e a beleza ao seu estilo de vida, que arrancou da bola todos os seus segredos e que fez do futebol um lugar de encontro da sua diversidade racial tem a obrigação de organizar uma Copa fascinante.

Viemos de uma bela influência. Há quatro anos, a Espanha ganhou com um futebol paciente e técnico que se impôs às obsessões táticas e físicas que pretendiam se apropriar do jogo. Não é xadrez, é futebol, não é atletismo, é futebol, não pertence (somente) aos treinadores, mas sim (e sobretudo) aos jogadores. E, para que o jogo seja realmente maravilhoso, o principal deve continuar sendo a bola. Isso a Espanha contou ao futebol na Copa da África, provocando um contágio que chegou a afetar inclusive as seleções clássicas como a alemã ou a italiana, que aumentaram a tendência de pedir um maior protagonismo técnico em cada partida. Isso não os torna mais favoritos, mas sim menos chatos.

Foram os brasileiros, desde 1958, que nos ensinaram um atrevimento quase zombador, indecifrável como uma finta de Garrincha

Estaria tudo bem e seria justo que no Brasil a bola seja outra vez a protagonista. Ao fim e ao cabo, é ela que determina qual jogador é bom, qual é muito bom e quem é gênio, o que também determinará qual seleção levará o troféu. Porque foram eles, desde a longínqua Copa de 1958, que nos ensinaram um tipo de atrevimento quase zombeteiro, indecifrável como uma finta de Garrincha, sociável como uma tabela, único como um povo que nasceu mesclando raças para dar ao futebol um novo ritmo. E também foram eles, no México-1970, que nos disseram que, quando se junta a beleza com a eficiência, não há remédio senão se emocionar. Ainda que alguém, como eu, fosse argentino, tivesse apenas 15 anos e assistisse às partidas sozinho na cozinha de casa. Aquele Brasil marcou meu gosto futebolístico para sempre, por isso me sinto autorizado a exigir de sua seleção algo além de resultados.

A seleção do Brasil começa com a melhor defesa do mundo: dois zagueiros confiáveis e mais fixos (Thiago Silva e David Luiz) e outros dois volantes adiantados (Luiz Gustavo e Paulinho), que dão solidez defensiva e um ou outro gol, mas não contribuem muito com a criação do jogo. Esse sólido corpo central, um pouco lento na saída de bola, tem dois braços que se movem para frente com a insistência de Daniel Alves e o descaramento de Marcelo. Depois, a equipe se torna mais ameaçadora com a potência descomunal de Hulk, o jogo leve e dinâmico de Oscar, e Neymar – um desses brasileiros da gema, que se conecta emocionalmente com a torcida e junta velocidade, engenho e técnica para que o Brasil se pareça com o Brasil que imaginamos. Na frente, para Fred se pede esforço e gol. Na Copa das Confederações foram contundentes no ataque, bateram mais do que um árbitro pode permitir (mais de 25 faltas por partida), e a equipe pareceu estar acima da pressão que exercem 200 milhões de loucos por futebol. Ganharam com autoridade, e isso os colocou como favoritos para a Copa do Mundo. Mas assim como o futebol exagera a vida, a Copa exagera o futebol, e o Brasil multiplicará todos esses esforços por dois, no mínimo. Viver rodeados de tanta paixão durante um mês não é trabalho para gente normal. No futebol, nem o mais ingênuo aspirante a herói ignora que no altar ou se adora ou se sacrifica. Deus te salve, Brasil, do amor e da exigência de seu povo.

Se a América sempre foi para os sul-americanos (assim diz a história das Copas), todos os países do Cone Sul têm sua quota de responsabilidade e merecem uma análise. Comecemos pelo Equador, o último a se classificar e em clara ascensão. Tem jogadores com um biótipo feito sob medida para este jogo e mostrou uma evolução exemplar que o levou a três das últimas quatro Copas. Curiosamente, sua revolução foi feita pelos treinadores. Começou no final dos anos 80, quando o montenegrino Dusan Draskovic começou a trabalhar a técnica obsessivamente. Em meados dos anos 90, Maturana levou tática para essa exuberância física e já dotada de fundamentos técnicos. Mais para frente, o carisma de Hernán Bolillo Gómez trabalhou com sucesso sobre a confiança desses jogadores até conseguir a classificação do Equador para sua primeira Copa: Japão e Coreia em 2002. Luis Suárez, primeiro, e Reynaldo Rueda, depois, terminaram o processo de transformação, trazendo disciplina e ordem que resguardaram o Equador de caprichos geracionais. A matéria-prima é excepcional e, em sua maioria, de raça negra de duas procedências: uma do Pacífico (primordialmente de uma cidade chamada Esmeralda) e outra da altitude (zona do Chota). Os primeiros, abertos e alegres; os segundos, reservados e tímidos, mas se completam para um jogo que sempre pede diversidade. O Equador ainda é melhor em casa do que fora, mas sua transformação tem muito mais a ver com uma política ordenada (onde grandes treinadores trabalharam sem desprezar o que fizeram os anteriores) do que com os benefícios da altitude de Quito.

E, 16 anos depois, a Colômbia. Com outro fenômeno geracional como o que Valderrama liderou na década de 1990, ainda que, desta vez, não poderá ser comandada pelo seu ídolo ferido: Radamel Falcao. Apesar de tudo isso, a seleção tem estilo e personalidade. Da mesma forma que, nos anos 90, nomes como o de Higuita, Asprilla e Valderrama davam um sabor caribenho a um futebol que tinha certa extravagância, agora James Rodríguez, Cuadrado e companhia têm um caráter mais formal, sem dúvida influenciados por suas precoces aventuras europeias em grandes clubes. Além disso, Pékerman é um líder pacífico, que toma decisões arriscadas e soube dar à Colômbia um ar clássico e um espírito ganhador, valorizando o talento fresco dessa excelente camada de jogadores. Em uma equipe de Pékerman, nunca faltará um número 10, os laterais terão grande protagonismo e ninguém estragará o jogo para conseguir um bom resultado.

Os colombianos têm medo do otimismo depois das tremendas expectativas frustradas na Copa dos EUA, aonde chegaram convencidos de poder brigar pelo título e terminaram perdendo tudo, inclusive a vida do seu capitão, Andrés Escobar, morto com muitos tiros poucos dias depois da eliminação. Metáfora de um país que naquela época ardia por causa da violência de todo tipo e que hoje luta pela paz. Nem que seja só por essa esperança, espero que a Colômbia seja uma das seleções-revelação, tornando-se a protagonista de uma metáfora nova e melhor.

Se continuarmos descendo pelo Pacífico, nos resta o Chile. Jorge Sampaoli é um treinador tenaz, que conheci na minha terra há 20 anos, numa tarde em que veio me visitar e me cercou de perguntas. Naquele dia, comentei com um amigo para que anotasse esse nome, porque o futebol é muito generoso com os loucos. Efetivamente, Sampaoli começou sendo um admirador até se tornar uma boa cria de Marcelo Bielsa, e isso cai bem ao Chile. Trata-se de uma equipe sólida, intensa e com um nível de organização superior ao de qualquer seleção sul-americana. Nada do que eu disse soa muito animador, e isso não faz justiça ao Chile, porque esse time, jogue contra quem jogar, sempre reivindica o protagonismo. Terá pela frente duas seleções, Espanha e Holanda, que se sentem donas da bola. Mas o Chile a disputará. Parece que os dois finalistas da última Copa têm muitas possibilidades de se classificar. Mas o Chile complicará as coisas para ele. Alexis, que tanta dificuldade teve para entrar no estrito molde estilístico do Barça, se livra dos preconceitos com a camisa do Chile e aumenta seu nível até exigir a condição de líder da equipe. Essa transformação simboliza um novo Chile, com uma forte autoestima, e que eu não gostaria de ter pela frente no Brasil.

Se girarmos a vista para o Atlântico, nos encontramos com o rio da Prata, onde residem quatro Copas, duas para o Uruguai e outras duas para a Argentina. O Uruguai foi o primeiro país a conhecer a glória futebolística, e essa honra se transforma em orgulho toda vez que qualquer um de seu 3,5 milhões de habitantes entra em campo. Foram quartos colocados na África do Sul com um jogo austero, seco, épico como a sua própria história. Nada melhor para explicar seu forte sentimento coletivo que o exemplo de Fusile. Corria o minuto 119 da prorrogação das quartas-de-final entre Gana e Uruguai, e o placar continuava 1 x 1. Gana tem uma última chance graças a uma falta na lateral, cometida por nosso amigo Fusile. Chega o cruzamento na área, alguém a escora no primeiro pau, e a jogada se envenena. Um chute rebatido, a bola sobe, o goleiro Muslera calcula mal a sua desesperada saída, e Prince Tagos cabeceia limpo e de perto. Se ninguém remediar, isso é gol. O mesmo Fusile se esforça por chegar, inclusive com as mãos, mas é de muito baixa estatura, e a bola mantém seu rumo. Só alguns centímetros atrás, Luis Suárez, a grande figura da equipe, evita o gol com uma defesa magnífica, mas que carrega em si uma má notícia: é pênalti e expulsão. Fusile se levanta como um raio e, com reflexos inesquecíveis, vai até o árbitro e lhe diz, muito sério: “Tem razão, senhor. Expulse-me”. O árbitro não caiu nessa e acabou expulsando Luis Suárez, mas fica o gesto generoso de um jogador disposto a renunciar à sua própria glória a fim de evitar a perda do melhor homem da sua equipe. Gana perdeu o pênalti, o Uruguai seguiu para as semifinais com uma inesquecível cavadinha na cobrança de pênaltis, e a história de Fusile me serve desde então para definir o que deve ser uma equipe.

O Uruguai levará ao Brasil esse espírito coletivo, essa malandragem e essa familiaridade com o impossível. Também levará Cavani e Luis Suárez, uma das melhores duplas de ataque que existem. Os velhos próceres do futebol uruguaio já plantaram uma heroica bandeira num Maracanã com 200.000 brasileiros em seu interior, quando Obdulio Varela disse à equipe, antes de entrar no estádio que fervia, que “los de fuera son de palo” – ou seja, que quem está de fora não interfere em nada, como se fosse feito de pau. Foi na extraordinária final de 1950, que ainda deslumbra o mundo e que o Brasil não esquece. Os atuais jogadores uruguaios andarão por aí de bermuda, chinelos e chimarrão debaixo do braço, porque, quando se defende a Celeste, é preciso regressar à humildade e ao espírito amador dos seus heroicos antepassados. Classificaram-se com angústia, mas, a essa altura, só um idiota pode subestimar o Uruguai.

Se a Argentina ganhar, o povo colocará em Messi a coroa de louros de Diego; do contrário, a de espinhos

Para nós, argentinos, a espera já é longa demais. Passaram-se 28 anos desde que Maradona ganhou a revanche das Malvinas contra os ingleses, pôs de pé o planeta inteiro e rememorou o Pelé de 70. Desde então, já foram escritas umas cem canções para Diego, o santificaram, e ele acabou instalado no imaginário coletivo entre Evita e o Che. Tudo isso é muito divertido, mas desde então a Argentina não ganha. Assim na política como no gramado, sempre estamos em busca do homem providencial, e o da próxima Copa se chamará Leo Messi, um Maradona discreto fora de campo e um gênio com semelhantes superpoderes dentro dele. Se Argentina ganhar a Copa, o povo colocará nele a coroa de louros de Diego; do contrário, a de espinhos. À emoção não se pode pedir nem medida nem senso de justiça. É preciso ter piedade de Messi desde já, porque, faça o que fizer, será vítima do excesso.

Para erguer a Copa basta um, mas para ganhá-la é preciso uma equipe. Messi tem o seu entorno muito bem sortido com Di María, Higuaín e Agüero. Daí para atrás só Mascherano tem uma trajetória equiparável à dos atacantes, mas sua batuta de meio-campista marca melhor o ritmo defensivo que o da distribuição. Em todo caso, será uma figura chave para assegurar o funcionamento da equipe à espera de que a bola sobre para que Messi e sua turma cheguem ao gol.

Todas essas seleções brigarão para que a Copa fique uma vez mais na América do Sul, mas que ninguém espere uma aliança para manter essa honra, porque no futebol a vizinhança é um agravante da rivalidade. Não há nada pior que perder para um vizinho. Sabemos que a Inglaterra é a mãe do futebol, mas na América do Sul continuamos acreditando que somos os pais. Há quem creia haver algo de irreverente nessa imagem. É obvio que sim. Ou vocês pensam que jogar futebol na América do Sul tem algo a ver com o respeito? Tremam, europeus, vocês se encontrarão com a América do Sul na América do Sul – o futebol transformado em talento e tempestade.