COPA DO MUNDO 2014

O mago Neymar

Nada estimula mais o camisa 10 do que devolver o sorriso ao Brasil, e dificilmente pode haver maior felicidade para uma família brasileira do que se sagrar campeã do mundo no Maracanã

Neymar envolto na bandeira de Brasil.
Neymar envolto na bandeira de Brasil.

Neymar (Mogi das Cruzes, SP, 1982) não ficou fascinado por nenhum jogador da Liga Espanhola na sua primeira temporada no Barcelona, pelo menos que se saiba publicamente, e se houve elogios foi para colegas de time, como Lionel Messi. Quem o brasileiro admira mesmo é Antonio Díaz, popularmente conhecido como Mago Pop, ganhador do Prêmio Nacional de Magia. O jogador azul-grená adorou os truques do espetáculo A Assombrosa História de Mr. Snow. Neymar é fã de videogame, de baralho e de ilusionismo, e também um seguidor do Mago Pop.

Quando criança, chegou a ter 54 bolas em casa, mas hoje é o jogador por excelência da era Youtube, assim como Romário era a personificação dos desenhos animados, segundo a descrição de Jorge Valdano. “Eu me inspiro nos videogames”, admite o astro do Brasil, que conta com 10,4 milhões de seguidores no Twitter e 4,7 milhões no Instagram. Não é preciso ir ao estádio para contemplar as habilidades de Neymar. Agradecido, o público acompanha seus truques e se deslumbra com seu futebol por meio das imagens que rodam sem parar nas redes sociais – e não só nas suas partidas pelo Barcelona e o Brasil. Neymar alimenta sua figura como jogador de equipe dentro de campo e também como mago, cujas atuações ficam gravadas em anúncios, jornais, capas de revistas e, sobretudo, em vídeos como o que ele gravou recentemente com o piloto de rally Ken Block, em uma competição de footkhana.

Mais informações

“O mérito de Neymar é que se comunica e se diverte fazendo isso”, concordam vários especialistas em marketing. Há pouco tempo, hackearam um aplicativo dele no Twitter em que se pode personalizar uma mensagem de parabéns com a foto e dedicatória pessoal do craque, e a reação dele foi um sorriso próprio do camisa 10 da seleção. Neymar fez o estilo Beckham evoluir. Um exemplo disso: a última condição que impôs para fechar o seu acordo com o Barça foi que seria ele pessoalmente quem daria a notícia nas redes sociais.

Muitas das fotos do Instragram são parte de uma estratégia de comunicação. Ao redor de Neymar há uma rede de várias empresas com 60 profissionais, muitos deles especialistas da área comercial, que funcionam de acordo com as pautas determinadas pelo pai de Neymar. Asseguram que o negócio, iniciado quando o jogador tinha 14 anos, é transparente e legal, que não há nem uma só empresa fictícia, declaração relevante depois que seu contrato com o Barça foi denunciado ao principal tribunal espanhol por causa do envolvimento do então presidente Sandro Rosell.

Vinculado à Nike desde os 17 anos, Neymar está associado a 19 patrocinadores e, segundo a revista Forbes, em junho do ano passado faturou o equivalente a 45,78 milhões de reais, quantia que fez dele o futebolista jovem mais bem pago do mundo, o único que aos 21 anos figurava no Top-100 de lucros, liderado por Tiger Woods. A imprensa norte-americana se interessa em contar a vida de Neymar como se fosse um astro da NBA. Hoje, é o ícone da Copa do Mundo que acontece no Brasil. Os meios de comunicação se esforçam em juntar o Príncipe Neymar com o Rei Pelé.

A hegemonia do Brasil se edificou a partir de Pelé, campeão na Suécia quando o jogador do Santos tinha 17 anos. Neymar também se iniciou no Santos e agora, aos 22, aspira a liderar a seleção numa empreitada inédita, a do título mundial do Brasil como anfitrião – algo que não conseguiu em 1950, quando foi derrotado pelo Uruguai no chamado maracanazo. “Eu não era conhecido na Suécia, não havia nenhuma pressão”, afirma Pelé. “Justamente o contrário do que acontece com o Neymar, sobre quem recai a responsabilidade dura e injusta de ganhar a Copa em casa”.

“Eu não noto nenhuma pressão ou, melhor dizendo, me familiarizei com ela desde que sou profissional", responde Neymar, descontraído. “Faço o que eu gosto e associo a pressão a todas as coisas que faço. Vou jogar uma Copa e, além disso, vai ser no meu país. Não poderia estar mais feliz”. A vitória do Brasil na última Copa das Confederações – venceu a Espanha por 3 x 0 na final – reforçou o vínculo do jogador com a equipe e sobretudo com a torcida local.

Jogador de futebol rápido, elétrico e dinâmico, Neymar aposta na criatividade, é muito expressivo e também orgulhoso, o produto midiático por excelência, porque mistura as virtudes relacionadas à tecnologia, como se de um jogador de PlayStation se tratasse, com o romantismo dos jogadores brasileiros, habitualmente alegres e encantadores, capazes de gerar as melhores emoções. “Jogamos como se tivéssemos o coração na ponta da chuteira”, afirmou Neymar numa entrevista concedida ao The Wall Street Journal.

Tem carisma o Neymar, conhecido como Galo ou Moicano por causa do seu penteado, especialmente extrovertido. Nunca parece aflito e busca o lado positivo das situações adversas, das críticas severas. A temporada passada não foi boa para o jogador nem para o Barça. Disputou 53 partidas, marcou 14 gols e deu oito assistências, um balanço discreto para uma estrela que há um ano era disputada pelos melhores clubes da Europa. “Foi um ano de aprendizagem", responde Neymar, feliz.

Sem ter regularidade, o 11 do Barça conseguiu ser muito seletivo, como se tivesse escolhido a dedo as partidas e os rivais contra os quais precisaria dar fé de sua qualidade. Marcou o gol que deu o título da Supercopa, voltou a bater Courtois na semifinal da Champions, assinou a vitória na partida do Camp Nou contra o Real Madrid, provocou o pênalti decisivo na vitória do Bernabéu, serviu Alves no 0 x 2 contra o Manchester City e anotou três gols contra o Celtic. Provavelmente, seu último disparo foi um resumo da temporada: finalizou na trave na final de Copa do Rei.

Não são bons números para um jogador que custou cerca de 100 milhões de euros (302 milhões de reais) ao Barça, caso sejam contabilizados os diferentes itens envolvidos na transferência além dos 57,1 milhões de euros (172,6 milhões de reais) anunciados quando foi apresentado ao clube. Não tem sido regular e lhe faltou continuidade depois de passar cerca de dois meses afastado totalmente por causa do edema no quarto metatarsiano do pé esquerdo, sofrido no campo do Valencia contra o Real Madrid, quando estava em jogo a Copa do Rei, e por uma entorse contra o Getafe, que assustou a torcida do Barça pela careta de dor do jogador.

Neymar é um jogador valente, às vezes até temerário, pela maneira como disputa a bola e discute com os rivais, protagonista de inúmeras faltas na hora errada, um bom recebedor de cartões amarelos. Às vezes poderia parecer o típico esquentadinho do futebol, não fosse o fato de se chamar Neymar. Não é fácil, além do mais, se adaptar ao Barça, à Liga, à Champions, nem tampouco se entrosar com Messi. Neymar se encaixa melhor na seleção, sobretudo com o técnico Scolari, que fez dele o ponto final do Brasil.

Neymar é hoje o jogador por excelência da era Youtube, assim como Romário era a personificação dos desenhos animados, segundo a descrição de Jorge Valdano

O fracasso de Neymar e do Brasil na Olimpíada de Londres-2012, um título que a seleção canarinho jamais conquistou, provocou a destituição de Mano Menezes e sua substituição por Scolari. A mudança liberou Neymar de obrigações táticas e aumentou sua responsabilidade. Embora prefira arrancar pela esquerda, varre a frente do ataque e se associa facilmente aos volantes. O Brasil joga para Neymar. O 10 marcou 12 gols nas 13 últimas partidas antes do início da concentração para a Copa. “É o melhor jogador que temos”, opina Scolari. “Tem desequilíbrio e, além do mais, seu espírito é de guerreiro”. E arremata: “Embora defenda mal, coisa que o leva a cometer muitas faltas, sua atitude é sempre admirável e contagiosa”. Aparentemente, superou a época em que era considerado um bad boy.

O incidente mais recordado foi numa partida do Santos contra o Atlético Goianiense, em setembro de 2010, quando Neymar xingou seu então treinador, Dorival Júnior, por não deixá-lo bater um pênalti. Neymar se emendou depois da demissão do treinador e aprendeu o que significava a humildade e o senso de equipe, sem perder sua cara de garoto travesso ou sua facilidade para enfurecer os adversários quando festeja os gols com dancinhas. Neymar se sente o foco e mima as câmeras com seu repertório infinito de gestos.

Aparece frequentemente fotografado com as melhores modelos, como sua compatriota Gisele Bündchen, e se deixa retratar com Gabrielle Lenzi, da mesma maneira que vai e volta em seu namoro com a atriz Bruna Marquezine. Tem um filho de nome David Lucca, que fará três anos em agosto e, sempre que pode, gosta de se encontrar com seus amigos da infância, os Toiss, que também às vezes o visitam em Barcelona. “Os brasileiros são mais explosivos que os catalães”, observou, pouco antes de partir para o Brasil, vítima de uma melancolia que em alguns momentos enfrentou trazendo um cozinheiro daqui: “Tenho saudades”. Antes de cada partida, telefona para o seu pai, e eles rezam juntos. Recentemente, tatuou no antebraço esquerdo a palavra “fé”. Certamente não passaria incógnito em nenhum lugar, mas talvez fosse confundido por seu aspecto com uma estrela do pop. “Se eu não fosse jogador, ia querer ser cantor”, admite Neymar.

Recebido em Barcelona por 56.000 torcedores no dia da sua apresentação, Neymar vai agora a caminho da Copa, confiante em dar o sexto título ao Brasil, o primeiro em seu próprio país, disposto a reconquistar por fim o Maracanã, então o maior estádio do mundo (200.000 espectadores), abalado em 1950 pelo gol de Ghigghia. Diz o jogador uruguaio que só três pessoas no mundo calaram a catedral do futebol brasileiro: “O Papa, Frank Sinatra e eu”. A única vez que Pelé viu seu pai chorar foi depois daquele Brasil 1 x 2 Uruguai.

Nada estimula mais Neymar do que devolver o sorriso ao Brasil, e dificilmente pode haver maior felicidade para uma família brasileira do que ser campeã mundial no Maracanã, em homenagem ao avô, ao pai e ao filho. Diante de tamanha empreitada, Neymar precisará ser o Mago Pop.